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Cientistas de Coimbra descobrem novo mecanismo da infeção pelas salmonelas

Um estudo internacional liderado por investigadores da Universidade de Coimbra (UC) revelou um novo mecanismo de infeção específico das salmonelas, que pode ser importante para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para travar infeções causadas por estas bactérias.

“Trata-se de um novo mecanismo que aumenta o nosso conhecimento sobre as interações complexas estabelecidas entre as nossas células e os microrganismos, neste caso a bactéria Salmonella”, refere Ana Eulálio, líder do estudo e investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra e docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia, citada no comunicado de imprensa.

No mesmo documento, a UC salienta que estes dados, obtidos através de estudos em células e em modelos animais com o auxílio de ferramentas de bioinformática e de biologia celular e molecular​, podem vir a desempenhar “um papel crucial no impedimento da progressão da infeção por esta bactéria”.

Miguel Mano, investigador do CNC e docente da FCTUC, e também autor do estudo, esclarece que “o conhecimento dos mecanismos moleculares explorados pela Salmonella pode possibilitar o desenvolvimento de estratégias terapêuticas capazes de bloquear a disseminação da infeção”.

Em Dezembro de 2019, num estudo também coordenado por Ana Eulálio, os investigadores tinham concluído que bactérias do género Shigella e Salmonella são responsáveis por intoxicações alimentares em todo o mundo e, muitas delas, podem ser bastante graves.

A equipa de cientistas desvendou novos processos de regulação dessas bactérias num trabalho publicado na revista científica Nature Microbiology que já apontava para o desenvolvimento de terapias para infeções causadas por estas bactérias.

A grande novidade associada a este trabalho, explica Ana Eulálio, é o facto de, “contrariamente ao paradigma existente, termos descoberto que a Salmonella, para além de manipular as células humanas infetadas, modifica também as células vizinhas não infetadas no sentido de aumentar a sua suscetibilidade à infecção e, desta forma, facilitar a disseminação da bactéria”.

“Geralmente, as células do corpo humano quando são infetadas por vírus ou bactérias comunicam com as células vizinhas saudáveis para orquestrar uma resposta contra a infecção”, o que não acontece com as células infectadas por Salmonella, que libertam proteínas que facilitam a infecção das células vizinhas.

Por esta razão, refere o estudo, “foi necessário avaliar e identificar “moléculas-chave” envolvidas no processo de infecção e disseminação, para melhor compreender onde actuar para impedir a infecção”.

Em particular, os investigadores identificaram uma proteína, a E2F1, que se encontra diminuída durante a infecção por Salmonella, quer nas células do hospedeiro, que estão infectadas com a bactéria, quer nas células vizinhas, lê-se no comunicado da UC.

“A diminuição da proteína E2F1 leva à desregulação da expressão de moléculas envolvidas no controlo da interação bactéria e hospedeiro, particularmente de micro-ARN (pequenas sequências de ARN não-codificantes), o que por sua vez promove a multiplicação da bactéria nas células infetadas.”

Além disso, nesta investigação a equipa descobriu ainda que “as células inicialmente infetadas libertam moléculas para o espaço extracelular (fora das células), em particular a proteína HMGB1, que ativa as células vizinhas tornando-as mais recetivas à infecção por Salmonella”.

A infecção provocada por aquela bactéria ocorre após a ingestão de alimentos contaminados e afecta principalmente o trato digestivo, provocando enjoos, cólicas, diarreia, febre e vómitos.

A investigação liderada por cientistas da UC contou com a colaboração das Universidades de Würzburg (Alemanha), de Córdoba (Espanha) e do Instituto de Ciências Matemáticas e o Instituto Nacional Homi Bhabha (ambos na Índia).

  ZAP // Lusa

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