China desenvolve método revolucionário para combater cancro por modificação do ADN

Kristyna Wentz-Graff / OHSU

O CRISPR é uma ferramenta parametrizável que permite aos cientistas cortar uma porção de código genético e reinserí-la novamente num ponto específico da cadeia de DNA, permitindo o seu estudo em tempo real

A China está a desenvolver ativamente um método elaborado nos Estados Unidos – a modificação do ADN humano por meio da tecnologia Crispr-Cas9.

Num hospital oncológico na cidade de Hangzhou, uma equipa de médicos está a tentar que o corpo dos pacientes combata as células tumorais através de modificações do código genético do organismo.

Em entrevista à Sputnik, o vice-diretor do hospital, Wu Shixiu, afirmou que, por enquanto, os testes estão a ser bem sucedidos. O método já revelou a sua eficácia no tratamento de cancro.

A tecnologia Crispr-Cas9 foi criada nos Estados Unidos em 2012. O Cas9 é uma proteína especial relacionada ao sistema imunitário adaptativo CRISPR. Através dessa proteína é possível detetar fragmentos estranhos de ADN, removê-los e substitui-los por novos. Ou seja, a tecnologia permite modificar o ADN.

Nos EUA e na Europa este método foi testado durante muitos anos em condições laboratoriais com a utilização de determinados biomateriais. Relativamente à China, a tecnologia está a ser testada já em pacientes.

Eis o esquema: os médicos recolhem uma amostra de sangue de um paciente e, através da tecnologia Crispr-Cas9, detetam o fragmento de ADN que inibe a capacidade do sistema imunitário de combater as células tumorais e removem-no.

De seguida, o sangue que contém as células com estrutura modificada de ADN é injetado novamente no paciente para incentivar o corpo a lutar contra a doença por conta própria e vencer as células cancerígenas.

Pela primeira vez, os testes dos médicos chineses foram descritos pela revista científica Nature no fim de 2016. O artigo causou alguma polémica na comunidade científica. A tecnologia Crispr-Cas9 é bastante nova, isto é, todos os efeitos colaterais que pode causar ainda não foram estudados completamente.

Por exemplo, recentemente, cientistas da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, estabeleceram que o método, além de modificar o genoma em geral, afeta outras partes dele, o que causa mutações inesperadas.

Em segundo lugar, vários investigadores ocidentais estão preocupados com o lado moral do assunto. Será que é justo interferir no genoma humano? Neste sentido, os médicos chineses têm a sua própria postura. Wu Shixiu assinalou que o mais importante é ajudar o paciente, já que existem possibilidades de aumentar as suas chances de sobreviver.

É óbvio que os testes estão a ser realizados com o consentimento por parte dos pacientes.

“Por enquanto, dos testes participaram 21 pacientes. A eficácia correspondeu a 40% aproximadamente. Uma pessoa está viva já há quase um ano. Todos os pacientes sofriam de cancro do esófago. Antes de experimentarem a nova tecnologia, passaram por quimioterapia, radioterapia e fizeram operações”, explicou Wu Shixiu.

“Ou seja, todos os pacientes já experimentaram todos os outros métodos de tratamento. Se não se decidissem a experimentar esta tecnologia, os outros métodos já não poderiam ajudá-los”, acrescentou o cientista.

O médico indicou que, por enquanto, ainda passou pouco tempo para reconhecer o novo método como 100% eficaz, levando em consideração o pequeno número de participantes dos testes. Contudo, no momento, os testes estão a demonstrar vários êxitos.

“No momento, podemos dizer que o método é eficaz. Por enquanto, é difícil dizer para que tipo de doenças oncológicas este método é o melhor”, assinalou o médico, apontando que a área de uso do método poderá ser bastante ampla.

“O método de modificação do ADN, segundo a nossa experiência, e a experiência de outros estabelecimentos chineses que testam esse método, é bastante seguro. Ao menos é mais seguro que o uso de medicamentos. Quanto aos efeitos colaterais, podem ser observadas erupções na pele e o aumento da temperatura do corpo”, adicionou Shixiu.

Com a ajuda do Crispr-Cas9 é possível curar não apenas o cancro. A Nature comunicou que um grupo de cientistas canadianos conseguiu modificar o gene receptor da SIDA.

Apesar disso, a comunidade científica encara o novo método com muito cuidado. Entre os riscos relacionados ao uso desta nova tecnologia, médicos norte-americanos destacaram a possibilidade de falhar na modificação de genoma e a dificuldade de prever as consequências para as futuras gerações de portadores de genes modificados.

Contudo, os médicos chineses estão mais animados quanto à implementação da nova tecnologia, frisou Wu Shixiu.

Nós somos otimistas no que se refere às vantagens potenciais da utilização da nova tecnologia na medicina, ao contrário dos EUA. Lá, é dada muita atenção aos efeitos negativos do novo método. Eu acho que, neste sentido, se percebe a diferença cultural ente o Oriente e o Ocidente, a diferença de sistemas“, destacou o médico.

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1 COMENTÁRIO

  1. “Entre os riscos relacionados ao uso desta nova tecnologia, médicos norte-americanos destacaram a possibilidade de falhar na modificação de genoma e a dificuldade de prever as consequências para as futuras gerações de portadores de genes modificados” – o que os médicos norte-americanos se esqueceram de destacar foi a possibilidade de a cura do Cancro afectar os interesses dos lobbies farmacêuticos, para os quais um doente crónico a precisar de tratamento ao longo de anos enquanto definha lentamente, é muito mais lucrativo do que um doente curado com um só tratamento.

    Os tratamentos são sempre concebidos e projectados na optica da optimização do lucro dos laboratórios (que são negócios corporativos privados), e não na optica da saúde pública. Deixar os doentes oncológicos morrer depressa não é bom negócio… Mas curá-los de uma só vez, ainda menos.

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