Centenas de cães de Chernobyl estão a ser resgatados e dados para adoção

Jorge Franganillo / Flickr

Cão em Chernobyl, Ucrânia

Cão em Chernobyl, Ucrânia

O desastre nuclear de Chernobyl parecia estar destinado a cair no esquecimento, mas uma série de televisão voltou a trazer o assunto à baila. Naquela parte remota da Ucrânia chamada “zona de exclusão” continuam a viver centenas de animais deixados ao abandono. Mas, tal como a tragédia, não foram esquecidos.

Na madrugada de 26 de abril de 1986, o reator quatro na Central Nuclear de Chernobyl sofreu uma falha catastrófica e explodiu, libertando quantidades inimagináveis de materiais radioativos no ar, nas áreas vizinhas e até mesmo no oeste da URSS e noutros países da Europa Ocidental, recordou o Jornal de Notícias na quarta-feira.

Os registos oficiais apontam para 31 mortes diretas, com síndrome aguda de radiação, e 15 mortes indiretas – pacientes que morreram de cancro da tiroide nos anos seguintes (dados até 2011).

No entanto, estima-se que cerca de quatro mil entre os cinco milhões de pessoas que residem nas áreas contaminadas possam ter desenvolvido cancro por causa do acidente. O número real de mortes, diretas ou indiretas, nunca vai ser conhecido exatamente.

Clean Futures Fund

“Chernobyl”, uma minissérie de televisão da produtora norte-americana HBO, com cinco episódios, voltou a pôr os holofotes no tema, quando estreou, no início de maio. Com uma versão dos factos bem diferente à da União Soviética.

O sucesso da produção televisiva foi imediato e até fez aumentar significativamente o número de visitantes em Chernobyl nos últimos meses. Uma das cenas mais comentadas nas redes sociais pertence ao quarto episódio, em que se mostra uma equipa de três soldados soviéticos a disparar sobre cães abandonados em Pripyat, na Ucrânia.

Isso terá acontecido na realidade para evitar que os animais possivelmente afetados pelos altos níveis de radiação espalhassem a contaminação.

Os moradores da área próxima à central nuclear foram orientados para evacuar a zona cerca de 36 horas após o desastre. Terão tido cerca de 50 minutos para arrumar tudo o que conseguissem antes de entrar num dos autocarros que os iam levar dali. Não foi permitido que nenhum animal de estimação fosse levado, o que significa que muitos deles ficaram abandonados.

Cerca de mil cães continuam a viver em Chernobyl

Mais de 30 anos depois da tragédia, centenas de cães e outros animais continuam a viver na “zona de exclusão”, de aproximadamente 30 quilómetros (com uma área de cerca de 2600 quilómetros quadrados), que abrange as cidades de Chernobyl, Pripyat e Poliske, na Ucrânia.

A Clean Futures Fund (CFF), uma organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos (EUA), criada para aumentar a consciencialização e fornecer apoio internacional a comunidades afetadas por acidentes industriais de longo prazo, estima que cerca de mil cães vadios continuam a viver em Chernobyl. Cerca de 250 vivem perto da central nuclear, mais de 225 na cidade e outras centenas em vários postos de controlo de segurança.

Pelo terceiro ano consecutivo, a organização visita Chernobyl para esterilizar, castrar e vacinar os cães vadios, protegendo-os do vírus da raiva e assegurando que menos cachorros nasçam. A edição deste ano do projeto “Cães de Chernobyl” começou no dia 03 de junho, com doações até um total de 40 mil dólares (cerca de 35.270 euros).

“Começámos o programa ‘Cães de Chernobyl’ em 2017. Depois de alguns anos a trabalhar e a visitar a central, ficámos surpreendidos com o número de cães vadios que viviam na “zona de exclusão” e na central nuclear de Chernobyl. Percebemos como foram abandonados e que representavam uma ameaça à segurança por causa do risco do vírus da raiva na zona”, explicou ao Jornal de Notícias Lucas Hixson, cofundador da CFF.

“Soubemos que a central e o governo ucraniano não tinham planos para resolver a situação a longo prazo e a única opção era selecionar uma população de cães. Desenvolvemos uma campanha de esterilização, castração e vacinação, propusemos o programa ao governo e tivemos a sorte de eles concordarem em trabalhar connosco no projeto”, recordou.

Mais de 850 animais já foram vacinados

A organização tem obtido bons resultados desde o início do programa. “Nos últimos três anos, esterilizámos e vacinámos mais de 850 animais na zona de exclusão de Chernobyl e na cidade de Slavutych, onde vivem os trabalhadores da central nuclear”, contou Lucas Hixson, definindo como objetivo deste ano “ajudar mais de 700 animais”.

E o que acontece depois a estes animais? “Em 2018, fomos capazes de resgatar e adotar mais de 40 cães bebés para famílias nos EUA e no Canadá”, revelou o responsável. “Os cães vivem felizes e serão saudáveis nas suas novas casas para sempre”, garantiu.

Lucas Hixson afirmou também que a CFF está a desenvolver um programa de gestão a longo prazo. “Acho que a melhor opção é criar um santuário com cerca de 35 a 50 hectares para os cães que vivem na zona de exclusão de Chernobyl. Esperamos angariar fundos e construir este espaço nos próximos três anos. Também queremos estabelecer um programa de alimentação durante todo o ano”.

E como é que as pessoas podem ajudar? “Precisamos desesperadamente de doações para financiar o programa de alimentação, esterilização e vacinação, para estabelecer e construir o santuário para cães em Chernobyl”, apelou o cofundador da organização.

A CFF garante que “não há risco de radiação relacionado com esses cães”, que “estão livres de contaminação antes de serem resgatados da zona”. Além de cães, a organização também ajuda gatos e animais feridos.

TP, ZAP //

PARTILHAR

RESPONDER

34 anos depois, dados da Voyager 2 revelam mais um segredo de Urano

Mais de 30 anos depois, os dados da Voyager 2, que sobrevoou o planeta em 1986, permitiram aos cientistas da NASA desvendar mais um segredo de Urano. Em janeiro de 1986, a Voyager 2 sobrevoou Urano. …

Está a nevar em Plutão

Em julho de 2015, a sonda New Horizons da NASA concluiu uma longa e árdua jornada pelo Sistema Solar, viajando a 36.000 mph durante nove anos e meio. Toda a missão focava-se em mapear a …

Cientistas dão um importante passo na criação de uma Internet quântica segura

Uma nova investigação da Universidade de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, revelou o elo que faltava para termos uma Internet quântica funcional e prática: uma forma de corrigir os …

Os pedregulhos de Bennu brilham como faróis para a Osiris-Rex da NASA

Este verão, a sonda OSIRIS-REx empreenderá a primeira tentativa da NASA de tocar a superfície de um asteroide, recolher uma amostra e recuar em segurança. Mas, desde que chegou ao asteroide Bennu há mais de …

Cidades subterrâneas podem ser um bom refúgio para futuros desastres

Especialistas ouvidos pelo portal One Zero acreditam que cidades subterrâneas podem ser um bom refúgio para populações que possam vir a enfrentar desastres naturais no futuro potenciados pelas alterações climáticas. À medida que os desastres naturais …

Descobertas três novas espécies de pterossauro em Marrocos

Cientistas encontraram três novas espécies de pterossauro, que viveram no deserto do Sahara, há 100 milhões de anos, em Marrocos. De acordo com o site EurekAlert!, estas três novas espécies de pterossauro faziam parte de um …

Texto português do século XVI mostra eficácia da quarentena

Um especialista australiano descobriu num texto português do século XVI uma prova de que a quarentena ou o isolamento podem impedir a globalização de uma doença como a covid-19, que já provocou mais de 30 …

Coronavírus. Mercados chineses continuam a vender morcegos

Nem com a pandemia de covid-19 a China abre mão dos seus velhos hábitos. Embora o novo coronavírus tenha tido origem num mercado de animais exóticos, em Wuhan, muitos destes sítios continuam a funcionar normalmente …

No Twitter, o discurso de ódio contra chineses cresceu 900%

A L1ght, uma empresa que mede a toxicidade das plataformas digitais, partilhou recentemente um relatório no qual revela que o discurso de ódio contra a China e contra os chineses teve um crescimento de 900%. Donald …

Há mais pessoas em quarentena do que vivas durante a 2ª Guerra Mundial

Um terço da população mundial - 2,6 mil milhões de pessoas - está em quarentena. São mais seres humanos em isolamento do que aqueles que estavam vivos para testemunhar a 2ª Guerra Mundial. Na terça-feira, o …