PIDE não terá agido sozinha. A caça ao homem que mandou tapar os frescos de Júlio Pomar

8

Blogue de Alexandre Pomar

Frescos de Júlio Pomar no cinema Batalha.

Depois de redescobertos os frescos de Júlio Pomar no Batalha ainda não há respostas sobre quem ordenou à PIDE a ocultação dos painéis.

Na semana passada, depois de 75 anos, os frescos de Júlio Pomar no Batalha foram redescobertos após eliminadas sete camadas de tinta das paredes do cinema. Os frescos, que se chegaram a pensar estar irremediavelmente perdidos, foram mandados tapar pela PIDE na altura.

Segundo uma carta enviada ao artista pela Empresa Neves & Pascaud, proprietária do Batalha, “uma determinação das autoridades” obrigava-a a “eliminar da decoração do seu Cinema Batalha as pinturas murais”.

A realização dos murais foi encomendada e iniciada em 1946, quando o artista tinha apenas 20 anos de idade, a troco de 30 mil escudos — cerca de 160 euros —, lê-se no blogue de Alexandre Pomar, filho do pintor português.

Uma questão que ainda se mantém até aos dias de hoje é: quem é que deu a ordem à PIDE para tapar os frescos de Júlio Pomar e porquê?

Não há qualquer tipo de documentação que explique os motivos para o ato de censura.

Segundo o jornal Público, quando mandaram tapar os dois painéis, o artista já estava debaixo do radar da PIDE há alguns anos. Aliás, a pintura dos frescos foi interrompida porque o artista foi preso por pertencer à Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática Juvenil. Esta era uma organização política de oposição ao regime salazarista.

Alexandre Pomar não tem dúvidas de que os frescos foram escondidos como “castigo” e “punição” pelas convicções políticas do seu pai.

“É um erro dizer que foi apenas a PIDE. A PIDE, em princípio, não tomava decisões deste género. Há uma autoridade que mandou ocultar os frescos e, de facto, aí é que há alguma dúvida”, atira Alexandre Pomar.

Autoria do presidente da câmara?

Uma das teorias é que o ato de censura tivesse sido ordenado pelo então presidente da câmara, Luís de Pina. No entanto, o administrador da Fundação Júlio Pomar salienta que teve acesso a um documento que pode pôr em causa essa tese.

“É uma cópia do ofício de Luís de Pina para o ministro do Interior em que se pede para que a decisão da ocultação seja revista”, disse ao jornal Público, fazendo todavia um reparo: “Na carta ele diz que a questão tem de estar resolvida até 25 de Junho, mas a carta é de 15 de Julho, o que é uma situação um pouco confusa”.

Luís de Pina serve-se ainda de “informações fornecidas pela PIDE” para explicar ao governo do Estado Novo que as pinturas do Batalha já tinham sido “devidamente modificadas de modo a poderem ser consideradas aceitáveis”.

O que “é estranho” para Alexandre Pomar é não só a questão de o então autarca servir-se da PIDE, como o facto de as pinturas nunca terem sido modificadas. “Seria para convencer o ministro”, diz o filho do artista ao matutino.

Não há nada nos murais que pareça ser merecedor de censura. As pinturas são sobre a celebração do São João, sendo que, para Alexandre Pomar, a única coisa que poderia justificar a ocultação das obras é uma “figura de um miúdo, de um pobre, com um tacho e uma panela e um prato, que tem assim um tom mais miserável”.

Alexandre acredita que “a grande atividade política” do seu pai acabou por ditar o futuro das obras.

  ZAP //

8 Comments

  1. Como hoje portugal está, a pide (Dgs) Faz muita falta.
    Não era qualquer que entrava em portugal ou qualquer droga ou assassinos e pedófilos que vêm para portugal que é um paraíso para essa gente.
    Regressa pide como era antes, não só prendiam, presos politicos, mas sim ladrões e assassinos.
    Hoje qualquer pessoa seja idoso ou jovem pode ser morto na via pública, á agressões fisicas ou á facadas e uso de arma de fogo.
    Hoje o pai mata o filho , filho mata os pais etc…Etc…Etc…

  2. Boa noite,
    Não é correcto — nem sequer aproximadamente — dizer que os 30 000$00 pagos a Júlio Pomar em 1946 “correspondem a cerca de 160 euros”. como apressadamente e ingenuamente alguém (acima) se apressou a dizer.

    Para saber o valor equivalente em poder de compra de 30 000$00, em 1946, para o seu equivalente em poder de compra nos tempos actuais, não basta apenas dividir por 200… Falta considerar a inflação. De facto, 30 000$00 em 1946 era muito dinheiro e 150 euros, agora, não é assim tanto.

    Felizmente existe uma ferramenta que permite fazer automaticamente esse cálculo: as tabelas de inflação do Instituto Nacional de Estatística (INE). O cálculo do Índice de Preços no Consumidor (IPC).
    Ora bem, 30 000$00 euros em 1946 correspondem a mais de 15500 euros em 2021 (as tabelas vão até ao ano anterior àquele em que estamos). E 15 500 euros é bastante diferente de 160 euros…
    Comparei o ano de entrada 1948 com o ano de saída 2021, porque as tabelas do INE só permitem recuar até 1948. Para 1946 daria um valor ainda maior.

    As tabelas, de uso muito fácil, calculam automaticamente os valores entre o “ano inicial” e o “ano final” e podem ser acedidas aqui:

    https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ipc

    O procedimento é intuitivo. Espero que esta informação venha a ser útil.

    Cumprimentos.
    Guilherme de Almeida

  3. E eu mais preocupado em ver e ouvir sobre a insegurança que aumenta de forma alarmante neste país e os deputados indiferentes a toda esta forma de eliminar cidadãos como se de trapos velhos se trate!

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.