Cabeceamentos no futebol podem ser proibidos ou limitados. O problema é o risco de demência

Abedin Taherkenareh / EPA

Cristiano Ronaldo “voa sobre os centrais” e marca o primeiro golo da vitória de Portugal por 2-0 frente ao País de Gales na meia-final do Euro 2016

A Federação escocesa de futebol prepara-se para proibir os cabeceamentos nos escalões com menores de 12 anos.  Em Inglaterra, fala-se em limitar este gesto futebolístico que foi associado a doenças neuro-degenerativas em vários estudos científicos. Nos EUA, os cabeceamentos já foram proibidos, em 2015, no futebol juvenil.

No ano passado, um estudo da Universidade de Glasgow, na Escócia, concluiu que a taxa de doenças neuro-degenerativas é 3,5 vezes maior entre os ex-futebolistas profissionais, além de revelarem maior probabilidade de sofrerem da doença de Alzheimer.

“Sabemos que há um risco muito maior de demência em antigos futebolistas profissionais e pensamos que isto está relacionado com o repetido cabeceamento da bola”, explica o investigador que liderou a pesquisa publicada em Outubro passado, Michael Grey, da Escola de Ciências de Saúde da Universidade East Anglia (UEA), no Reino Unido. “Não sabemos se isto se estende até ao nível amador”, sublinha Grey em declarações divulgadas pelo jornal Cambridge Independent.

Para analisar melhor a associação entre demência e cabeceamentos, a UEA vai “trabalhar com antigos jogadores profissionais para investigar e registar a sua saúde cerebral ao longo do tempo”, nota Grey. “Esperamos seguir estes futebolistas pelo resto das suas vidas”, destaca o investigador, concluindo que será “a primeira vez que este tipo de pesquisa foi feita”.

O objectivo é testar a memória e as capacidades de raciocínio de futebolistas reformados, de modo a verificar se há mudanças cognitivas relacionadas com lesões ou choques na cabeça.

A morte, em 2002, do ex-internacional inglês Jeff Astle, antigo jogador do West Bromwich Albion, aos 59 anos, foi associada directamente a “uma “doença industrial” provocada pelo trauma repetido dos cabeceamentos“, conforme destaca o The Guardian, citando o relatório do médico que conduziu a autópsia.

Entretanto, surgiram estudos que constaram que um episódio único de cabeceamento pode ter consequências para toda a vida. Esse dado foi apontado por um estudo realizado em 2016, com mais de 100 mil pessoas na Suécia, e que concluiu que as pessoas que experimentaram uma concussão provocada por um único cabeceamento tinham mais probabilidades de desenvolverem problemas de saúde mental, bem como menos hipóteses de terminarem o Ensino Secundário.

Em 2017, outro estudo realizado no University College London, no Reino Unido, detectou sinais de danos cerebrais devidos a uma encefalopatia traumática crónica (ETC) em quatro casos entre os seis antigos futebolistas que desenvolveram demência e cujos cérebros foram analisados depois da morte.

Já em 2019, o estudo realizado pela Universidade de Glasgow reforçou o elo entre demência e futebol, não havendo, contudo, a certeza de uma causalidade directa entre o desenvolvimento de doenças neuro-degenerativas e o gesto de cabecear bolas. Mas para o investigador que liderou a pesquisa não há dúvidas. “Cabecear repetidamente a bola dia após dia, semana após semana, é o que leva ao dano que vemos em ex-profissionais”, sublinha Michael Grey citado pelo The Guardian.

Grey alerta ainda que as crianças, dado que apresentam “cabeças relativamente maiores e pescoços mais fracos”, correm mais riscos. “Com base apenas na mecânica pura, vão ter mais danos”, sublinha.

São estes dados que levam a Federação Escocesa a admitir banir os cabeceamentos de bola nos escalões de formação de menores de 12 anos. Nos EUA, a medida já foi adoptada nos escalões juvenis em 2015.

Entretanto, a Federação Inglesa (FA) está a estudar a viabilidade de introduzir “possíveis mudanças nos treinos e nos exercícios de cabeceamento”, de modo a “diminuir a exposição geral aos cabeceamentos”, como reporta o Telegraph. A FA pode, assim, vir a introduzir limites máximos para os treinos nos vários escalões de futebol, desde o nível de formação até ao profissional, salienta o jornal.

SV, ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. Futebol sem jogo de cabeça é como um jardim sem flores…….

    Porque não adoptam a obrigatoriedade de uso de um capacete (protector á semelhança de outros desportos) assim até acabavam as fitas da mãozinha na cara que bateram no menino…….;))

    Só uma ideia

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