A bondade não compensa (quem é simpático corre mais riscos de bancarrota)

As pessoas mais afáveis, com personalidades generosas e cordiais, tendem a sair-se pior financeiramente do que as que são menos “boazinhas”, concluiu um novo estudo das Universidades de Columbia (EUA) e College London (Reino Unido).

Os investigadores pretendiam “entender se ter uma personalidade agradável e bondosa” estaria “relacionado com resultados financeiros negativos”, como explica a autora que liderou o estudo, Sandra Matz, da Columbia Business School, num comunicado divulgado pela Associação Americana de Psicologia.

Pesquisas anteriores já tinham sugerido que a afabilidade está associada a uma menor pontuação de crédito e rendimentos. Os autores da nova investigação queriam aferir “se essa associação se aplicava a outros indicadores financeiros e, em caso afirmativo, entender melhor porque é que os “bonzinhos” parecem dar-se mal“, destaca Sandra Matz.

Nos últimos anos, os estudos em psicologia têm-se interessado, com especial atenção, pelos cinco principais traços da personalidade humana – a afabilidade ou amabilidade, o neuroticismo, a abertura a experiências, a conscienciosidade e a extroversão – e pelos resultados práticos que podem prever.

As pessoas com mais neuroticismo (a tendência a experimentar emoções negativas, como raiva, ansiedade ou depressão) parecem ser menos felizes, enquanto as pessoas mais conscientes são, geralmente, mais saudáveis e economizam mais dinheiro.

No novo estudo que foi publicado no Journal of Personality and Social Psychology, a equipa de investigação analisou dados de várias fontes diferentes, incluindo pesquisas e questionários nacionais, indicadores do Governo e de contas bancárias, bem como de questionários online. Procurou depois, estabelecer correlações entre os cinco principais traços de personalidade e a saúde financeira ao longo dos anos.

A afabilidade foi a única característica significativamente correlacionada com as finanças em todas as fontes de dados.

Numa das experiências, os investigadores seguiram pessoas durante 25 anos desde a infância, e descobriram que as mais bondosas no início da vida eram mais propensas a ter problemas financeiros mais tarde.

Isto sugere que, havendo uma relação de causa, mais afabilidade é que deve causar problemas financeiros e não o contrário.

Entre os adultos, a afabilidade também foi relacionada com uma série de resultados financeiros menos desejáveis. Por exemplo, um estudo descobriu que as pessoas particularmente bondosas têm um risco 50% maior de declarar falência.

Porquê?

Não é que as pessoas afáveis sejam menos espertas ou menos capazes de ganhar dinheiro. Elas parecem, simplesmente, importar-se menos com isso. E, como resultado, podem não lidar muito bem com o dinheiro.

“Descobrimos que a afabilidade estava associada a indicadores de dificuldades financeiras, incluindo menor poupança, maior endividamento e maiores taxas de inadimplência”, ou seja, incumprimento, como destaca outro autor do estudo,  Joe Gladstone, da University College London.

“Essa relação parece ser impulsionada pelo facto de as pessoas bondosas, simplesmente, se importarem menos com dinheiro e, portanto, de correrem maior risco de má administração financeira”, acrescenta Joe Gladstone.

Mas fique tranquilo – ser bonzinho não prevê uma pior condição financeira para todo o sempre. Embora possa dificultar as coisas, particularmente para pessoas com salários mais baixos.

“Nem todas as pessoas simpáticas estão em risco igual de sofrer dificuldades financeiras”, frisa Joe Gladstone, salientando que “a relação é muito mais forte para indivíduos de baixa renda, que não têm meios financeiros para compensar o impacto negativo da sua personalidade agradável”, esclarece o investigador.

Os resultados de estudos como este podem parecer “preconceituosos” à primeira vista, mas, na verdade, podem acarretar algum bem na vida real. Podem, por exemplo, mostrar como ajudar as pessoas com este traço a economizarem dinheiro.

“Os nossos resultados ajudam a entender um factor potencial subjacente às dificuldades financeiras, o que pode ter sérias implicações para o bem-estar das pessoas”, constata Sandra Matz.

“Ser gentil e confiante tem custos financeiros, especialmente para aqueles que não têm meios para compensar a sua personalidade”, destaca a investigadora.

ZAP // Hypescience

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5 COMENTÁRIOS

  1. É claro que não podia compensar… as atitudes de generosidade, partilha, solidariedade, são a antítese daquilo que nos tentam vender como modernidade: egoísmo, ganância, cupidez. O hedonismo, o salve-se quem puder, o “com o mal dos outros posso eu bem”. Tudo isso é contrário aos sentimentos de humanidade mas paga. Enfim a crença do capital no homem superior de Nietzsche… um e outro a mesma face da mesma moeda (nem sequer são o reverso)

  2. É uma vergonha publicarem notícias destas a incitar a não bondade. Efectivamente o demónio anda pelo mundo.
    Muito bem comentado Carlos.

    • “Efectivamente o demónio anda pelo mundo” É do demónio, satanás, céu, inferno, etc. – que as religiões e os corruptos querem que as pessoas falem, por isso quanto mais medo, ignorância/obscurantismo melhor… Não é o demónio que anda a destruir o planeta e a tornar os seres Humanos mais desumanizados, mas sim os próprios seres humanos sem escrúpulos, isto é, sem humanismo…

  3. É mais do que evidente que a moral humana tende a caminhar cada vez mais para o safe-se quem puder, hoje já se torna difícil poder acreditar na generosidade e bondade das pessoas assim como na seriedade das instituições, parece um campeonato do egoísmo em que o vencedor será o mais mauzinho possível, muitos esquecem-se de que amanhã poderão ser vítimas também ou simplesmente precisarem de uma mão amiga.

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