Bolsonaro prestes a deixar PSL. Partido da IURD na corrida para o receber

Em rota de colisão com o seu atual partido, o Partido Social Liberal (PSL), o Presidente brasileiro Jair Bolsonaro equaciona romper e já recebeu cinco convites de partidos de pequeno e médio porte, admitiu a sua advogada Karina Kufa.

Em entrevista ao Globo, citada pelo Diário de Notícias na terça-feira, o partido que pode ganhar a corrida pela contratação de Jair Bolsonaro – e de boa parte dos atuais deputados pelo PSL – é o Republicanos, que até meados deste ano ainda se chamava Partido Republicano Brasileiro e é considerado o braço político da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), uma das mais influentes denominações evangélicas do país.

“Estão recomendando isso, que a gente o traga para o partido”, disse Marcos Pereira, bispo da IURD que comanda o Republicanos, ao Folha de S. Paulo. Sobre a transferência, além do presidente, dos parlamentares dissidentes do PSL, o bispo recomendou “paciência”. “Não foi feito esse diálogo ainda”, admitiu.

A IURD, cujo fundador e líder é o bispo Edir Macedo, tem preponderância sobre o Republicanos. É também proprietária do Grupo Record, que detem a segunda televisão de maior audiência do Brasil, considerada simpática a Jair Bolsonaro e ao Governo, e cujos lucros de publicidade estatal cresceram 659% desde a eleição.

Além disso, a IURD possui uma universidade, que oferece cursos de Ciências Políticas, Gestão Pública, Direito Eleitoral e Política Contemporânea, autorizada a exercer desde novembro do ano passado, um mês depois das eleições.

A 01 de setembro, Edir Macedo recebeu Jair Bolsonaro no Templo de Salomão, a sede da IURD, em São Paulo, e ungiu-o com azeite da igreja. Com as mãos na sua cabeça, o bispo sentenciou que a vida daquele se dividira entre um antes e um depois da cerimónia, assistida por 10 mil fiéis. O apoio declarado às vésperas das eleições de 2018 já fora considerado decisivo para o sucesso do então candidato pelo PSL.

A saída de Jair Bolsonaro do PSL está iminente, como admitiu Karina Kufa: “Vai depender da decisão política do Presidente. Lá atrás, o Presidente estava desgostoso com o partido e fez um pedido para que tentasse a conciliação. Foi quando eu conversei com o vice-presidente [Antonio] Rueda, para negociar um acordo”.

A guerra de Jair Bolsonaro é, sobretudo, com o presidente do partido, Luciano Bivar, e ficou exposta claramente na semana passada num episódio ocorrido em frente ao Palácio do Alvorada, sua residência oficial. Enquanto tirava fotografias e gravava vídeos com apoiantes, disse a um deles “divulga isso não, esse cara está queimado”, depois do acólito ter gritado enquanto gravava “em Pernambuco, com Bolsonaro e Bivar”.

jeso.carneiro / Flickr

Edir Macedo, fundador da IURD

Luciano Bivar, ao ouvir a gravação, reagiu na mesma moeda e ameaçou expulsar Jair Bolsonaro do partido, dizendo que “ele já está esquecido”.

Como pano de fundo da crise, cujo episódio em frente ao palácio foi só o último de muitos capítulos, está a soma milionária do fundo partidário e eleitoral a que o PSL tem direito, como detentor de um grupo parlamentar de 52 deputados e três senadores.

Ambas as partes – tanto o do bolsonarismo, que atribui à onda em torno do Presidente, nas últimas eleições, o crescimento do PSL de um para os tais mais de 50 congressistas; como Luciano Bivar, que fundou o partido há mais de 20 anos e apenas serviu de anfitrião ao candidato em 2018 – acusam a outra de apenas se moverem pela vontade de gerir aquela verba, a um ano das eleições municipais de outubro de 2020.

O pano de fundo contempla ainda escândalos. O PSL é acusado de ter promovido candidaturas fantasma de mulheres, que acabaram com votações irrisórias, para cumprir a quota feminina e ter acesso ao fundo eleitoral correspondente.

Luciano Bivar foi mesmo alvo de uma operação policial nas últimas horas – chamada Operação Guinhol, em alusão ao teatro de fantoches do século 19 – com nove mandados de busca e apreensão a moradas suas.

Soma-se a decisão há duas semanas do Ministério Público de constituir arguido Marcelo Álvaro Antônio, o ministro do Turismo do Governo Bolsonaro que dirigia o diretório de Minas Gerais do PSL, um dos mais visados no escândalo das candidaturas fantasma.

Jair Bolsonaro resiste a demiti-lo mas deixou cair outro ministro, Gustavo Bebbiano, que presidiu ao partido durante a campanha e foi um dos seu principais braços direitos dos últimos anos, por causa do mesmo escândalo.

Caso Jair Bolsonaro abandone o PSL e opte pelo Republicanos, ou outra força, será o seu nono partido em cerca de 30 anos de carreira.

ZAP // //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Natural, afinal este louco foi escolhido por Deus!…
    E assim vai o Brasil, com seitas religiosas a condicionar cada vez mais a vida dos brasileiros…

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