Biblioteca empresta seres humanos em vez de livros

LMU Library / Wikimedia

Biblioteca Humana, não julgue um livro pela sua capa

“Transgénero”, “ex-gangster”, “poliamoroso”, “satanista”, “Pai adotivo solteiro”. Esses são alguns dos títulos das obras disponíveis na Biblioteca Humana, em que os volumes são pessoas feitas de carne e osso em vez de papel e tinta.

Os títulos são, na verdade, voluntários que enfrentaram preconceitos nas suas vidas devido a características marcantes. Os leitores podem pedi-los emprestados para uma conversa de meia hora, na qual são feitas aquelas perguntas mais incómodas.

A peculiar biblioteca tem “depósitos locais de livros” em cerca de 80 países em todo o mundo, onde são “publicadas” pessoas, como o travesti peruano Jonathan, também conhecido como Samantha Braxton.

Quando um dos bibliotecários da filial de Lima a convidou para se juntar ao acervo, há 5 anos, Samantha já era uma personagem conhecida e, como foi criada para inspirar e fazer com que as pessoas se sentissem bem consigo mesmas, a proposta encaixou como uma luva.

“Quando sou publicada, sinto que posso testemunhar como os meus leitores apagam a imagem que tinham de mim das suas mentes”, diz no site da biblioteca, onde aparece como “livro do mês” de fevereiro de 2022, com o título “Transformista”.

Entre seus leitores, diz ela, há muitos gays e lésbicas que não revelaram a sua orientação sexual a amigos e familiares, e estão em busca de conselhos e conhecimento sobre a sua experiência. E essa é apenas uma das razões para ler esses livros abertos.

“Não temos tempo para parar e aprender o que não sabemos, então colocamos as pessoas em caixinhas”, diz o fundador da Biblioteca Humana, Ronni Abergel. “Na nossa biblioteca, recomendamos sentar e conhecer pessoas com quem normalmente não conversaria porque há algo nelas que talvez provoque um incómodo peculiar. Assim, não aprende muito sobre elas, mas aprende ainda mais sobre si mesmo“.

Esse é o propósito da Biblioteca Humana: desafiar, através de um papo cara a cara, os pressupostos e estereótipos que todos temos sobre outras pessoas.

A ideia foi testada pela primeira vez num festival de música na Dinamarca. Abergel, o seu irmão e alguns amigos reuniram um grupo de voluntários para atuar como livros abertos que as pessoas poderiam levar emprestadas no evento.

“Desde o primeiro dia, foi incrível. Esgotou, as pessoas realmente aproveitaram a oportunidade. Tínhamos mais de 50 volumes diferentes na prateleira.”

Um momento em particular surpreendeu-o: um polícia que se ofereceu como um livro contou-lhe que estava a conversar com alguns leitores quando um amigo deles apareceu bêbado e começou a comportar-se de forma agressiva.

Antes que o policial tivesse tempo de reagir ao abuso, os três leitores levantaram-se e disseram ao amigo para se calar e sentar, pois ele não conhecia o polícia como eles.

No jardim

Abergel dirigiu a Biblioteca Humana como um passatempo por muitos anos, testando e desenvolvendo o modelo na Noruega, em Portugal e na Hungria. Em 2013, ele patenteou a ideia e assumiu-a como um trabalho em tempo integral.

A partir daí, junto de sua equipe, começou a construir acervos de livros em diferentes países, usando as redes sociais e locais para encontrar voluntários que estivessem dispostos a contar sobre suas próprias vidas.

No ano passado, criaram um jardim de leitura na capital dinamarquesa Copenhaga, onde os bibliotecários ajudam os leitores a encontrar os livros e há placas com os títulos disponíveis. O acervo varia dependendo dos voluntários presentes, e vão desde “Muçulmano” e “Reformado precoce” a “Dei o meu filho para adoção” e “Alcoólico sóbrio”. Uma vez feita a seleção, o livro e seus leitores sentam-se juntos.

“Sou uma pessoa muito curiosa, então faço muitas perguntas”, disse Tina, uma das leitoras, à BBC. “Em dois meses, li três livros. Foi uma experiência agradável e para a próxima semana, estou muito animada. Acho que todos deviam experimentar porque  podem aprender muito“, sugeriu, enquanto, num canto do jardim, começava a ‘ler’ “Esquizofrenia”.

“O meu nome é Christian. Tenho 29 anos. Sou professor e um grande nerd, e também tenho esquizofrenia. A esquizofrenia é uma doença em que se tem uma psicose em curso por algum motivo não claramente definido. O clássico é ouvir vozes, ver coisas e assim por diante. Mas tenho lidado principalmente com o que chamamos de delírios como ‘Os Illuminati estão a tentar apanhar-me e estão a controlar o mundo das sombras'”, começa o ‘livro’.

“Por que decidiu ser um livro da Biblioteca Humana?”, perguntamos a Christian.

“Sempre terei noites em que fico acordado na cama, apavorado. Mas se fazer isto ajuda uma pessoa, deixa de ser uma aflição e torna-se uma ferramenta que pode ser usada para algo útil. Isso desestigmatiza algumas questões que eu acho que precisam de ser desestigmatizadas.”

E as mentes obtusas?

A Biblioteca Humana realiza sessões públicas regulares em todo o mundo, onde qualquer pessoa pode visitar. No entanto, parece atrair pessoas naturalmente curiosas e de mente aberta.

“Estamos potencialmente a pregar um pouco para convertidos”, admite Abergel. “Não esperamos que haters ou pessoas assustadas apareçam por conta própria.”

“Mas alguns deles alcançamos por meio do trabalho”, acrescenta, referindo-se ao facto de que, para financiar as sessões públicas, organizam eventos para empresas privadas, desde multinacionais como o Google até empresas locais. Na cervejaria holandesa Heineken, Katie, da Biblioteca Humana, abriu a sessão dizendo:

“Quando estamos no local de trabalho ou nas redes sociais, muitas vezes temos que pisar ovos em relação à diversidade e à diferença. Muitos não querem cometer erros, o que é compreensível. O importante aqui é lembrar que pode perguntar qualquer coisa a esses livros. Eles nunca o farão sentir-se mal com a pergunta que fizer.”

“Quando, por exemplo, a Heineken faz o seu treino de desenvolvimento de liderança, espera-se que todos participem, gostem da ideia ou não”, enfatiza Abergel.

Funciona?

O feedback que recebem das pessoas que frequentam as sessões públicas e privadas é muito positivo, mas há evidências de que a Biblioteca Humana funciona?

“Temos um estudo de impacto recente, baseado em sessões online realizadas no ano passado para o grupo de seguros Zurich. Uma consultoria externa fez uma avaliação. É uma amostra pequena, mas muito promissora. Mostrou que tem um impacto profundo”, diz Abergel.

No entanto, reconhece que não tem estudos de campo de longo prazo. “Nunca tivemos recursos para investir nesse tipo de monitorização, mas um dia teremos”, afirma.

O fundador argumenta que, nos 21 anos de trajetória, a Biblioteca apenas cresceu. “Quando Google ou Starbucks nos procuram para trabalhar é porque sabem que tipo de valor agregamos.” E os ‘livros’, recebem algum pagamento ou são sempre voluntários?

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“A credibilidade do livro está em jogo. Se paga por seus livros, é por isso que eles dizem o que dizem? Damos a todos os recursos que podemos sem os profissionalizar. Ser um livro aberto não deve se tornar toda a sua identidade. Isso não é saudável para ninguém”, declara o fundador da biblioteca.

Sanidade

A Biblioteca Humana está a construir repositórios de livros em países onde existem fortes laços corporativos, como Dinamarca, Reino Unido e Estados Unidos. Planeiam colocar os seus recursos extras em países onde acham que podem crescer.

“Estamos a implementar muitos projetos interessantes que vão se multiplicar e escalar. Mais acesso às pessoas e mais instituições que integram organizações, universidades e autoridades locais e públicas”, diz Abergel.

Também há planos para lançar uma aplicação onde as pessoas podem se registar como leitor e encomendar um livro de um catálogo online.

“Pode estar em casa e pedir emprestado alguém na Nova Zelândia ou na Coreia do Sul”, explica Abergel.

Apesar de toda a sua inovação, Abergel é realista e sabe que é improvável que um livro mude alguém com visões extremas, mas pode ajudar a maioria das pessoas a manter a mente aberta.

“Se todas essas forças polarizadoras estão a puxar-me, quem me vai manter são, equilibrado e não extremo?”, ele questiona.

“A melhor coisa é ser aberto e honesto e falar sobre as nossas diferenças, trazê-las à tona e encontrar maneiras de seguir em frente. Caso contrário, vamos apenas viver desprezando um ao outro, enojando um ao outro, evitando um ao outro. O que é que isso traz à qualidade de vida?”, conclui o fundador da Biblioteca Humana.

  ZAP // BBC

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