Banhos de Floresta chegaram a Portugal. São a nova “medicina preventiva” (para curar corpo e alma)

Os Banhos de Floresta nasceram no Japão, onde são considerados Medicina Florestal, e já chegaram a Portugal. O ZAP falou com quem conhece bem a prática que, segundo os especialistas, traz benefícios para a saúde mental e física e reforça o sistema imunitário, ajudando a combater a diabetes e a hipertensão.

A prática dos Banhos de Floresta está implementada há vários anos no Japão, país com uma forte ligação, quase religiosa, com a floresta.

Com uma grande área florestal, o país tem centros de Banhos de Floresta e vários terapeutas florestais que acompanham os visitantes na experiência sensorial. Não se trata apenas de um mero passeio, como sublinha ao ZAP o guia certificado de Banhos de Floresta, Pedro Trindade.

Este arquitecto paisagista integra a equipa de formadores do Forest Therapy Institute (FTI), uma entidade de formação fundada por pessoas de vários países que está a promover a profissionalização da área na Europa e que pretende também alargar a sua influência à América do Sul.

Pedro Trindade também está ligado à empresa Instituto de Banhos de Floresta que tem dinamizado a área em Portugal, seja com a realização de actividades, seja com formações em parceria com o FTI. O ZAP falou com o arquitecto paisagista sobre esta prática.

Banhos de Floresta seguem “metodologia estudada”

Um guia de Banhos de Floresta não é um guia turístico, como explica Pedro Trindade, reforçando que a prática “não é uma coisa totalmente aleatória” e que “há uma metodologia estudada”.

Assim, o guia “propõe diferentes actividades de conexão à natureza“, ou “convites”, como são designados, com foco no “trabalho sensorial”, de modo a “levar as pessoas a abrirem os seus sentidos para se conectarem com o espaço”.

O processo tem três fases essenciais, respetivamente meditação, desaceleração e “integração”.

O primeiro “convite” é sempre uma atividade meditativa guiada baseada na “abertura sensorial”, com o objectivo de levar as pessoas a “despertarem para aquele espaço”, relata Pedro Trindade.

“O stress adormece os sentidos” e é preciso “trazer de volta a nossa atenção para o corpo”, aponta, destacando que os participantes são depois desafiados a “desacelerar” ou a “abrandar o ritmo”.

Podem caminhar lentamente ou ficar sentados a observar “o que está em movimento”. “Temos uns neurónios espelho no nosso cérebro que são responsáveis por copiarmos o movimento e sincronizarmos com aquilo que vemos”, sustenta o guia, frisando que isso desenvolve “a capacidade de empatia”, de sermos sociais e de “nos adaptarmos à tribo”.

“Já estamos tão viciados a andar tão acelerados e sempre com estímulos” que o processo pode ser difícil, assume, relatando que “há pessoas que precisam de vários Banhos para conseguirem fazer isto de uma forma eficaz e que, no início, até ficam mais ansiosas”.

DR

Pedro Trindade, guia certificado de Banhos de Floresta

Os guias também podem promover actividades de “criação artística com a natureza”, “construir alguma coisa com materiais” ou “criar música”, mas os Banhos de Floresta encerram sempre com uma espécie de “cerimónia informal”, como reporta Pedro Trindade.

Muitas vezes, é feita uma “cerimónia de chá” com ervas recolhidas da floresta.

“As pessoas ficam muito surpreendidas por perceberem que podem fazer chá com as agulhas dos pinheiros“, explica o guia, notando que estas “são muito ricas em vitamina C” e que é “um óptimo chá para beber no Inverno para combater as constipações”.

Além disso, “sabe a chá de limão” porque “o pinheiro tem um óleo essencial que é o limoneno que dá sabor cítrico às plantas e que também existe nos citrinos”, acrescenta Pedro Trindade.

Em tempos de pandemia, a cerimónia do chá pode ser substituída pela construção de “eco-arte” com o uso de materiais recolhidos pelos participantes na floresta. É “uma força simbólica para o grupo que representa a experiência”.

O que importa é mesmo assinalar o final da actividade, pois “há pessoas que podem estar super-zen e é preciso trazê-las de volta” à realidade, reforça o arquitecto.

“Forma barata” de “aliviar a pressão do SNS”

Só o facto de ir à floresta acarreta “benefícios enormes para a saúde”, “benefícios passivos só por estar ali que são óptimos”, vinca Pedro Trindade.

Apenas “10 minutos, 20 minutos, todos os dias”, num ambiente com árvores e natureza, é “incrível para aumentar a produtividade e bem-estar das pessoas“, aponta ainda.

Mas os benefícios de longo prazo só vêm com a prática frequente e mais prolongada e consciente através de técnicas de respiração, de Mindfulness e de conexão com a natureza.

Em qualquer dos casos, é “uma forma barata” de cuidar da saúde e de “aliviar a pressão do Sistema de Saúde”, acrescenta o guia de Banhos de Floresta, salientando que “a natureza está lá e é gratuita para toda a gente”.

Terapia da Floresta pode ajudar a tratar doenças mentais

A terapeuta ocupacional Adriana Santos que trabalha na área da psiquiatria no Serviço Nacional de Saúde (SNS) acredita que a actividade pode ser aplicada “como prática complementar às restantes abordagens terapêuticas” em saúde mental, pois “já existe evidência do seu impacto” nesta área, como destaca ao ZAP.

Contudo, Adriana Santos trata de diferenciar Banhos de Floresta de Terapia da Floresta.

Os Banhos de Floresta ou Shinrin-Yoku, como são conhecidos no Japão, visam “a imersão na natureza” para fomentar “a conexão ao mundo natural através dos sentidos” e da “atenção plena”, explica Adriana Santos.

Já “a Terapia da Floresta é a adaptação da prática a um contexto terapêutico como forma de intervenção na prevenção, ou direccionada a problemas de saúde específicos”.

“Estudos científicos confirmaram que a Terapia da Floresta é eficaz no tratamento adjuvante de algumas perturbações psiquiátricas como depressão, ansiedade e perturbação de stress pós-traumático”, salienta a terapeuta ocupacional.

DR

Adriana Santos, terapeuta ocupacional.

Adriana Santos destaca ainda como a pandemia veio agravar “a prevalência” de “problemas de saúde mental” na sociedade e, por isso, gostaria de ver o SNS a “implementar formas adicionais e inovadoras, como a Terapia da Floresta”, para lidar com a situação.

Além disso, a terapeuta acredita que pode haver “aceitação” para a implementação da terapia florestal na área da saúde, dando “o exemplo do Reino Unido que, em 2020, anunciou o investimento de 4 milhões de libras [mais de 4,6 milhões de euros] num projecto-piloto que visa prevenir e combater os problemas de saúde mental através do Green Social Prescribing, nas quatro áreas rurais e urbanas mais afectadas pela pandemia de covid-19″.

O programa visa o “envolvimento” da comunidade com a natureza através de “exercício físico ao ar livre, caminhadas, andar de bicicleta, corridas em parques locais, jardinagem, hortas comunitárias” e “plantar árvores ou semear campos”, como destaca Andreia Santos.

“Este projecto tem como intuito melhorar os problemas a nível da saúde mental, reduzir as desigualdades em saúde, bem como a sobrecarga dos serviços sociais e de saúde“, refere ainda.

Benefícios na Diabetes e Hipertensão

Para Adriana Santos que também é Guia certificada de Banhos de Floresta, esta actividade é “a ponte perfeita” entre o seu trabalho em saúde mental e o gosto pela natureza.

A profissional de saúde tem pesquisado “os potenciais efeitos terapêuticos da natureza no bem-estar e melhoria da qualidade de vida das pessoas” e realça que “estudos no Japão mostraram que a permanência num ambiente florestal reduziu o stress, induziu relaxamento e teve impacto positivo em medidas fisiológicas e psicológicas”.

Há também dados que indicam que pode melhorar “os ciclos de sono-vigília, aumentando o tempo de sono”, sublinha ao ZAP.

“Existem ainda estudos a demonstrar os efeitos benéficos na melhoria de parâmetros relacionados com Diabetes tipo II, Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, Doença Coronária e Hipertensão, bem como na gestão da dor crónica generalizada”, diz ainda a também fotógrafa de paisagem e de natureza.

Bactérias do solo estimulam sistema imunitário

Os efeitos positivos dos Banhos de Floresta na saúde “têm muito a ver com o ar que estamos a respirar”, destaca Pedro Trindade ao ZAP.

Os terpenoides ou terpenos que são compostos orgânicos produzidos pelas plantas associados ao seu aroma, são em parte responsáveis por esse bem-estar. “Num ambiente florestal, são produzidos em grande quantidade por determinadas árvores, mas em concentrações muito suaves, e têm um efeito relaxante e fortalecem muitíssimo o sistema imunitário“, sublinha.

O guia de Banhos de Floresta também destaca a importância das “bactérias do solo que dão aquele cheiro e sabor a terra à beterraba” e que também “estimulam o sistema imunitário”.

Por isso é que é “muito importante as crianças brincarem na lama, na terra e sujarem-se”, acrescenta.

Um estudo realizado em 2007 com ratos concluiu que essas bactérias alteraram o comportamento destes animais de “maneira semelhante à produzida pelos antidepressivos“.

Esta pesquisa realizou-se na Universidade de Bristol, no Reino Unido, e apurou que “bactérias encontradas no solo activaram um grupo de neurónios que produz o químico cerebral serotonina” que é associado à depressão em algumas pessoas.

No mesmo estudo, os investigadores notaram que a pesquisa foi feita depois de “pacientes humanos com cancro” tratados com a mesma bactéria terem reportado, “inexplicavelmente, melhorias na qualidade de vida“.

Pedro Trindade também refere que, a meio de uma crise climática e com as pessoas “desligadas da natureza”, esta pode ser uma boa via para as mentalizar para a protecção do ambiente.

Ao invés das “abordagens catastrofistas” que alertam para a importância de salvar o planeta, pode ser uma “grande forma de mudar os comportamentos mostrando às pessoas que a natureza é fundamental para o bem-estar e para a saúde delas”, conclui.

Aumentam “expressão de proteínas anti-cancro”

O médico Qing Li, que se formou em Medicina na China e também passou pela Universidade de Stanford, nos EUA, é considerado o grande especialista nesta área. Qing Li criou a chamada Medicina Florestal no Japão, em 2004, onde recebeu fundos públicos para as suas pesquisas na área.

Em 2007, liderou um estudo que concluiu que os Banhos de Floresta aumentam a “expressão de proteínas anti-cancro” em pessoas saudáveis.

Em 2016, outro estudo de Qing Lig feito com um grupo de homens de meia idade apurou que a actividade reduziu os níveis de “depressão, fadiga, ansiedade e confusão“.

A Medicina Florestal é para Qing Li “uma nova ciência” de “medicina preventiva”.

Nesta altura, o médico está a investigar a aplicação da terapia na medicina de reabilitação, nomeadamente com o uso do “aroma do fitoncida” em idosos com demência, conforme revelou num podcast com a psicóloga holandesa Sjanett de Geus.

O fintocida é um composto orgânico produzido por vegetais que funciona como uma espécie de antibiótico natural contra micro-organismos. Qing Li acredita que o cheiro vai “estimular o nervo olfactório” e, assim, ter “um efeito positivo na memória” dos idosos.

Susana Valente, ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Essas praticas sao boas para Japao, em Portugal existem outras dos nossos antepassados queridos, mas como maioria nao quer saber da nossa cultura e vai se inspirar LA FORA. Porque sera que essa malta nao procura viver no interior e nas zonas rurais do pais, assim ‘e tudo calmo, com vida e sentem se a natureza plena…
    Essa malta do galinheiro, sempre com vida facil citadina nao se habituam aos campos que ‘e vida rude mas saudavel…. ‘e encontro a luta, a sobrevivencia HOMEM-NATUREZA. La se foi conhecimentos que nao aprenderam, la se vai as tradicoes, la se vao as historias, la se vai as comidas o folclore… enfim um conjunto de conhecimentos de sobrevivencia e saudavel…. quem quer aprender???? Ninguem….meu deus como ‘e possivel ver transformacao da sociedade… amanha nao teremos pessoas com minimo cultura do pais real…

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