“Têm que se pôr a pau”. Ângela Ferreira diz que temos de devolver artefactos às ex-colónias

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(dr) Laura Fiorio

Exposição “1 Million Roses For Angela Davis” (2020).

A artista plástica Ângela Ferreira diz que “não há volta a dar” e que Portugal terá de devolver os artefactos às ex-colónias.

Ângela Ferreira, de 63 anos, é uma artista plástica de origem portuguesa e nascida em Moçambique. Viveu na Cidade do Cabo, na África do Sul, durante o apartheid, e atualmente vive e trabalha em Lisboa.

Em entrevista ao Público, a artista antecipa que se a pandemia não ficar controlada, 2022 vai ser mais um ano desastroso para a Cultura.

“A verdade é que estamos no fim de um ano que pensávamos que seria ponte para uma coisa melhor, mas não temos a certeza de conseguir controlar a pandemia. E antevejo muitas dificuldades”, disse ao matutino.

Ângela Ferreira acredita também que a restituição dos artefactos e objetos retirados aos países africanos durante o colonialismo marcará a agenda cultural em 2022. “Não há como andar para trás”, atirou.

Depois de décadas a lutar pela necessidade de garantir a representatividade às comunidades afro-descendentes, Ângela Ferreira vê “com um sorriso na cara” que a ideia de “descolonizar as nossas mentes, os nossos ídolos, os nossos heróis, está finalmente sobre a mesa”.

O ano que aí vem também será marcado por um uso mais generalizado de expressões neutras como todes e amigues, defende a artista plástica.

“A inclusividade é o grande assunto dos nossos tempos, porque através dela, ou da falta dela, vem o racismo e as questões de género e de sexualidade. Quando hoje escrevo e-mails de grupo habituei-me a usar todes em vez de todos e todas. Faço isso porque sei que assim não ofendo ninguém e incluo todos. Habituei-me a essa linguagem, da mesma maneira que me habituei ao novo acordo ortográfico”, argumenta.

Ângela Ferreira realça que “há uma certa tendência portuguesa para tentar esquecer as obrigações que temos como país no que respeita a África”.

Depois do plano de Emmanuel Macron para devolver os artefactos roubados pelos franceses em África, na Alemanha também já se fez o mesmo e a Universidade de Cambridge já prometeu fazê-lo.

“Não há volta a dar. Portugal tem de devolver. E isso representa aceitar que se fez um erro e, dentro do possível, corrigi-lo. E esse processo há-de começar em 2022″, afiança Ângela Ferreira. “E os museus portugueses têm que se pôr a pau”.

  ZAP //

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