Agustina Bessa-Luís. Um dia de luto nacional pela morte do nosso grande “mistério literário”

Agustina Bessa-Luís / Facebook

A escritora Agustina Bessa-Luís

Agustina Bessa-Luís morreu esta segunda-feira, aos 96 anos, no Porto. Da política à cultura, são vários os que não ficam indiferentes à morte do nosso grande “mistério literário”. O Governo decretou para terça-feira um dia de luto nacional.

O Governo, por indicação do primeiro-ministro, António Costa, decretou para terça-feira um dia de luto nacional pela morte da escritora Agustina Bessa-Luís, aos 96 anos. O funeral irá realizar-se amanhã, pelas 16h, na Sé do Porto.

A escritora estava doente há mais de uma década, mas o seu estado de saúde agravou-se nos últimos tempos. “Há personalidades que nenhumas palavras podem descrever no que foram e no que significaram para todos nós. Agustina Bessa-Luís é uma dessas personalidades”, reagiu Marcelo Rebelo de Sousa à morte da escritora.

Em memória da “criadora”, “cidadã” e “retrato da força telúrica de um povo”, o “Presidente da República curva-se perante o seu génio e expressa aos seus familiares as mais sentidas condolências”.

Numa nota de pesar publicada no Twitter, António Costa apresentou as suas sentidas condolências à família e amigos de Agustina Bessa-Luis.

“Portugal perdeu uma das suas mais notáveis escritoras contemporâneas. Como toda a grande literatura, a obra de Agustina Bessa-Luís é uma imensa tela sobre a condição humana, sobre o que temos de mais misterioso e profundo. Sentidas condolências à família e amigos”, escreveu o primeiro-ministro.

Perante a notícia da sua morte, Hélia Correia, que venceu o Prémio Camões em 2015, não ficou indiferente. “Se há génio, é Agustina. Se há mistério literário, é Agustina. Se há alguém que não morre, é Agustina”, disse esta segunda-feira de manhã ao Público.

“Ela nasceu para a literatura já pronta, não precisou de nenhuma espécie de aleitamento. E se não nasceu, ela também não morre. Há os escritores, e há a Agustina. É única. As condições de existência de Agustina não são as nossas condições humanas. Há outra coisa nela. Portanto também não há morte nela”, acrescentou.

Paula Rego lamentou também a morte da escritora, com quem colaborou há quase vinte anos lo livro “As Meninas”, editado originalmente em 2001, que reúne textos da escritora sobre pinturas da artista plástica.

“Foi uma extraordinária mulher, escritora, que deixou um enorme legado a todos nós”, afirmou Paula Rego, em nota enviada à Lusa pela Casa das Histórias.

Para Nuno Júdice, desaparece uma “constelação”. O poeta e escritor disse que, com a morte de Agustina, desaparece uma constelação com os maiores nomes da literatura portuguesa do século XX, realçando que a escritora encontrava inspiração no mundo.

“Agustina era um dos maiores nomes da literatura do século XX, que ainda estava vivo, embora já há uns anos não estivesse em condições de escrever e, por isso, com ela, de facto, desaparece essa constelação onde estavam todos os nomes, como Vergílio Ferreira, [José] Cardoso Pires e [José] Saramago”, referiu Nuno Júdice.

Lídia Jorge garante que a obra da escritora não morre. Para Lídia, a literatura de Agustina Bessa-Luís “é o prolongamento daquilo que ela era como mulher, como figura pública, como amiga, como pessoa”.

“Era uma mulher de ação, ela tinha uma ação dentro dela, ela queria transformar as coisas e queria dar notícia dessa transformação, e toda a escrita dela é nesse sentido, no sentido de reclamar uma espécie de progresso que ela não define quais são os limites, mas é uma espécie de marcha, ela entende a marcha da humanidade”, afirmou.

A escritora Maria Teresa Horta considera que “não é possível fazer a história da literatura portuguesa, neste momento, sem passar pela obra da Agustina Bessa-Luís”. “Considero que a Agustina é dos melhores escritores – não é escritora só – da literatura contemporânea portuguesa, mas também morre uma escritora e alguém que eu conheci”, afirmou uma das autoras de “Novas Cartas Portuguesas” à Lusa.

Por sua vez, Pilar del Río recorda palavras de José Saramago sobre Agustina: “Remeto-me ao que disse José Saramago sobre o que ela escreveu: que se há em Portugal um escritor que participe da natureza do génio, é Agustina Bessa-Luís”, afirmou.

Agustina Bessa-Luís nasceu em 15 de outubro de 1922, em Vila Meã, Amarante, e encontrava-se afastada da vida pública, por razões de saúde, há cerca de duas décadas.

O nome de Agustina Bessa-Luís destacou-se em 1954, com a publicação do romance “A Sibila”, que lhe valeu os prémios Delfim Guimarães e Eça de Queiroz, que constam de uma lista de galardões que inclui igualmente o Grande Prémio de Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores, em 1983, pela obra “Os Meninos de Ouro”, e que voltou a receber em 2001, com “O Princípio da Incerteza I – Joia de Família”.

A escritora foi distinguida pela totalidade da sua obra com o Prémio Adelaide Ristori, do Centro Cultural Italiano de Roma, em 1975, e com o Prémio Eduardo Lourenço, em 2015.

Sobre Agustina, o ensaísta Eduardo Lourenço, em declarações à Lusa, no final da cerimónia da entrega do Prémio Eduardo Lourenço à autora, há pouco mais de três anos, disse que é “incomparável”, é a “grande senhora das letras portuguesas”. Agustina recebeu ainda os Prémios Camões e Vergílio Ferreira, ambos em 2004.

Foi condecorada como Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada, de Portugal, em 1981, elevada a Grã-Cruz em 2006, e o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, de França, em 1989, tendo recebido a Medalha de Honra da Cidade do Porto, em 1988.

ZAP // Lusa

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