ADN pode revelar o paradeiro de familiares desaparecidos. A política não o permite

Murad conseguiu sobreviver a um naufrágio, a poucos quilómetros da costa grega, graças a um colete salva-vidas. Mas, sem apoios para descobrir o paradeiro da sua família, preferia agora que se tivesse afogado no fundo do mar Egeu junto daqueles que amava.

Tudo aconteceu numa manhã de dezembro, em 2015, quando Walid Khalil Murad percebeu que o barco em que viajava, ficou debaixo das ondas. O resto da família ainda estava presa numa cabine e Murad nunca mais viu Nishtiman de 3 anos, Nashwan de 5, Nashat de 6 ou a sua esposa Jinar.

Estou perdido“, diz Murad, de 34 anos, à Times. Antes do Estado Islâmico o forçar a fugir com a sua família, tinha duas lojas na cidade iraquiana de Sinjar.

Há vários obstáculos entre Murad e a verdade sobre o que aconteceu com a sua esposa e filhos: registos caóticos em países onde os corpos dão à costa nas praias, um público apático e governos de extrema-direita, sem interesse na situação dos refugiados.

Agora há alguma esperança, não só para Murad, mas também para os familiares de todas as 21 mil pessoas que morreram ou desapareceram ao tentar atravessar o Mediterrâneo desde 2011.

ICMP e o seu contributo

Após anos de pressão, uma organização internacional persuadiu alguns países a começar a trabalhar na identificação de corpos através de tecnologia de ADN.

Mas por trás deste esforço, estão burocracias institucionais e políticas, que estão a ameaçar o futuro do projeto antes deste começar. No meio disto, Murad anseia por notícias da sua família.

“Acho que teria sido melhor se eu estivesse com eles”, desabafa Murad, que acabou por ser recolocado na Alemanha. “Acho muito difícil viver esta vida“, confessa.

Desde a sua fundação em 1996, a Comissão Internacional sobre Pessoas Desaparecidas (ICMP) foi a pioneira das mais avançadas tecnologias de identificação de ADN do mundo.

Por norma, é convocada para situações em que um grande número de pessoas tenha desaparecido — como o furacão Katrina, o acidente do MH17 na Ucrânia, os incêndios na Califórnia e as recentes guerras na Síria e Iraque.

É sem precedentes“, revela Kathryne Bomberger, diretora geral do ICMP. “A Europa não tinha um número tão grande de pessoas desaparecidas há muito tempo”. Nestas circunstâncias, a tarefa da organização é ainda mais difícil.

“Pode-se usar as melhores tecnologias do mundo”, diz Bomberger, “mas no final, a vontade política é o que mais importa“.

O processo é simples (na teoria): os países que encontram corpos de migrantes no seu solo — como Itália, Grécia, Malta e Espanha — recolhem amostras de ADN e outras características de identificação e, por fim, enviam essa informação para um banco de dados mantido pelo ICMP.

Enquanto isso, qualquer pessoa que procure um familiar desaparecido preenche um formulário e dá uma amostra de ADN através de saliva ou um teste de sangue que pode ser feito em casa.

Os resultados são enviados para um segundo banco de dados e os dois conjuntos de dados são comparados, para encontrar correspondências. Mas nada disto acontece sem o apoio total dos governos envolvidos.

Bomberger diz que o ICMP começou a pressionar os governos para identificarem os migrantes desaparecidos em 2011, quando a Primavera Árabe levou aos primeiros grandes grupos de refugiados a cruzar o Mediterrâneo em embarcações sobrelotadas.

O ICMP recebeu mais de 350 mil euros do governo suíço no final de 2017 — quase o suficiente para iniciar a primeira fase do projeto: reunir a Itália, Grécia, Malta e Chipre para assinar um acordo e começar a trabalhar nos aspetos técnicos da pesquisa.

Contudo, quando os quatro países reuniram pela segunda vez, a 13 de junho deste ano, o governo italiano recusou-se a assinar a declaração final. Desde que Matteo Salvini ocupou o lugar de ministro do Interior, fechou os portos de Itália a navios de resgate de migrantes e começou a demolir instalações para refugiados.

Mas para os familiares dos desaparecidos, como Murad, a hostilidade política e a falta de empatia por parte de países como a Itália revolta. “Eu quero que se coloquem no meu lugar, não por um dia, apenas por um minuto — imagine que perdeu a sua família da mesma maneira que eu perdi minha”, diz Murad.

Carina Heeke, psicóloga especializada em luto da Universidade de Freie em Berlim, estudou as diferenças entre familiares dos desaparecidos e familiares daqueles que têm morte confirmada. Carina descobriu que as pessoas com mais trauma são aquelas que se apegam à esperança de que o seu familiar ainda esteja vivo.

Para muitos, a procura pelos familiares desaparecidos começa a consumir as suas vidas. “Se pudesse, pelo menos, visitar a suas sepulturas e ter a certeza de que eles estão lá”, lamenta Murad.

Para que isto seja possível, primeiro os corpos dos mortos do Mediterrâneo têm que ser encontrados — mas ninguém sabe exatamente onde estes estão.

No auge da crise dos refugiados, os corpos espalhavam-se pelas praias e ninguém sabia o que fazer com os mesmos. Depois de 2013, um protocolo para lidar com a recuperação de corpos foi desenvolvido. Mas ainda não está claro se todos os municípios estão a seguir os procedimentos corretos.

Devido à falta de registos, não se sabe quantos dos 21 mil mortos estimados estão enterrados em quais países europeus ou quantos foram identificados. Mesmo a estimativa de 21 mil pode não ser exata.

Procurar saber onde estão todos os registos e corpos é a primeira tarefa do ICMP, mas isso é apenas metade do processo. “Antes de identificar os corpos, é preciso identificar as famílias”, explica Simon Robins, investigador de migrantes desaparecidos do Centro de Direitos Humanos Aplicados, da Universidade de York.

No caso de Murad, o cenário ideal envolvia a cooperação do Iraque, para que outros membros da família pudessem dar amostras de ADN; da Turquia, que é o último país onde a sua família foi vista com vida; da Grécia, para onde o barco ia, e da Alemanha, onde Murad está agora a viver.

Mas alguns governos não cooperam, enquanto outros não têm capacidade técnica. Depois, há sensibilidades étnicas e políticas.

“Há vinte anos, quando começamos este processo na ex-Jugoslávia, todos disseram que não podia ser feito”, diz Bomberger. “Nada é impossível; temos que tentar, porque isto não vai desaparecer, e acho que podemos ajudar a construir mecanismos para encontrar pessoas; Não é intransponível”, conclui.

Entre as burocracias está a espera de Murad, que revive todos os dias os últimos momentos que passou com a família.

DR, ZAP //

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