Acrópole foi usada como harém pelos turcos? Pode ser um mito grego

Reza a lenda que durante a ocupação muçulmana, os turcos usaram a Acrópole de Atenas como um harém. No entanto, a história pode não passar de um mito.

A Acrópole de Atenas está entre os maiores monumentos arquitetónicos e artísticos do mundo. Os visitantes chegam para admirar os edifícios de mármore que testemunham a glória da Grécia Antiga há mais de dois milénios.

Normalmente, pouca atenção é dada à rica história medieval e otomana do local. Mas uma das poucas histórias tipicamente contadas sobre esse período diz respeito ao templo com seis esculturas icónicas de donzelas, as chamadas cariátides.

Os antigos atenienses construíram o templo com as cariátides como o santuário mais sagrado para Atena, a deusa da sabedoria. No período medieval, foi usado como uma igreja. Mas o seu destino supostamente mudou drasticamente após a conquista turca otomana de Atenas no século XV.

A história diz que os turcos muçulmanos não tinham interesse em preservar a sacralidade do templo e, em vez disso, converteram-no em algo radicalmente diferente: um harém. Dizia-se que esta era a residência das esposas do guardião do castelo turco e às vezes considerada um lugar de sedução.

Mas um novo estudo mostra que essa informação pode precisar de ser revista. Como parte da investigação, o autor Janric van Rookhuijzen analisou todas as fontes históricas relevantes sobre a Acrópole do período otomano.

Acontece que a ideia de um harém turco na Acrópole teve origem no século XVII com dois visitantes de França e de Inglaterra. Publicaram livros populares nos quais afirmavam que o edifício era um harém. Esses visitantes, no entanto, nem sequer entraram no edifício e deram informações contraditórias, possivelmente especulativas sobre o mesmo.

Fantasia ou não, a noção de harém há muito fascina o público ocidental, que aprecia esses contos exóticos do Oriente. Autores posteriores simplesmente repetiram a informação. Este foi mesmo o caso depois de o edifício cair em ruínas no bombardeio veneziano de 1687.

O novo estudo também incluiu várias fontes turcas pouco estudadas. Nenhuma delas menciona nada semelhante a um harém no templo das Cariátides. Mas parecem dizer que estava em uso como uma espécie de palácio. Resumindo e concluindo, há pouco que sugira que o templo tenha sido convertido num local de encontros eróticos.

A noção de um harém turco está ligada ao significado atual da Acrópole como um importante sítio arqueológico e um símbolo da Grécia e da civilização ocidental. Mas esse simbolismo tem um lado sombrio: as histórias antiorientais continuam a ser contadas às custas dos turcos.

Os turcos são tipicamente retratados como os vilões da Acrópole, mas este novo estudo mostra que esta é uma interpretação grosseira de mais de três séculos de presença turca.

E isso não faz justiça às suas atitudes reais: fontes históricas mostram que os turcos nem sempre foram os bárbaros violentos que costumavam ser. Em vez disso, eram tão fascinados pelas antiguidades quanto os turistas modernos são hoje.

  ZAP // The Conversation

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