Marcos Santos / USP Imagens

A moeda norte-americana tem enfrentado pressão global e perdido influência nos principais mercados mundiais, com uma ajuda das políticas comerciais de Donald Trump — que não se importa com a sua desvalorização e até a vê com bons olhos. Mas a notícia do fim do seu domínio é manifestamente exagerada.
O dólar norte-americano registou no primeiro semestre de 2025 a maior desvalorização em mais de 50 anos, com uma queda de 11% no U.S. Dollar Index, indicador criado pelo Federal Reserve (Fed) que mede a força da moeda face a divisas como o euro, o iene, a libra esterlina ou o franco suíço.
Esta queda, embora não inédita, acontece num momento de crescentes tensões económicas e políticas que levantam dúvidas sobre a durabilidade da hegemonia do dólar como principal moeda mundial.
O peso da divisa norte-americana nas reservas cambiais tem vindo a diminuir gradualmente: segundo dados do Fundo Monetário Internacional, em 2000 representava mais de 70%, atualmente não ultrapassa os 57%, nota a BBC.
O espaço perdido foi parcialmente ocupado por outras moedas, como o yuan chinês, e sobretudo pelo ouro, cuja presença nas reservas de economias emergentes duplicou na última década, chegando a 9%.
Além desta tendência de diversificação, registou-se uma redução consistente da participação estrangeira na dívida pública dos EUA: antes da crise financeira de 2008, mais de metade dos títulos do Tesouro estavam em mãos de investidores internacionais, valor que hoje ronda apenas os 30%.
No comércio internacional, o dólar mantém clara predominância, mas começa a perder espaço em setores estratégicos como o da energia, em parte devido às sanções impostas à Rússia, que passaram a ser contornadas com o uso de moedas locais em exportações de petróleo.
A instabilidade tem sido agravada pelas políticas do presidente Donald Trump, que em abril anunciou tarifas de 10% sobre todas as importações, acrescidas de sobretaxas mais pesadas para países específicos em alguns produtos.
Esta Guerra das Tarifas abalou as bolsas mundiais e acelerou a venda de ativos norte-americanos: só entre março e abril deste ano, investidores estrangeiros retiraram 63 mil milhões de dólares do mercado acionista dos EUA, de acordo com o Goldman Sachs.
Os especialistas apontam que o uso do dólar como arma de sanções económicas também mina a confiança global dos investidores.
O congelamento de ativos russos após a invasão da Ucrânia mostrou que os Títulos do Tesouro, tradicionalmente vistos pelos investidores como “porto seguro”, podem perder valor de um dia para o outro por decisão política. Para muitos bancos centrais, esta realidade reforça o incentivo à diversificação.
Outro fator de pressão é o elevado endividamento dos EUA, que atingiu 35,4 biliões de dólares em 2024, o equivalente a 123% do seu PIB.
Também a perspetiva de cortes nas taxas de juro por parte do Fed, num contexto de interferência política por parte de Trump — que chegou a ameaçar demitir dirigentes da instituição — aumenta a incerteza sobre o futuro da moeda norte-americana.
Paralelamente, blocos económicos como o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), recentemente expandido com a entrada de novos membros, defendem uma agenda de “desdolarização”.
Na recente cimeira no Rio de Janeiro, o presidente brasileiro Lula da Silva voltou a defender que o comércio internacional não deve depender exclusivamente do dólar. A China e a Rússia têm promovido alternativas, incluindo sistemas próprios de pagamento digital e maior uso de moedas nacionais em transações bilaterais.
Contudo, muitos analistas salientam que não existe ainda substituto viável para o dólar, que continua a ser completamente dominante em áreas como o comércio, a dívida internacional e a rede Swift, que liga 11 mil instituições financeiras em mais de 200 países.
Nem mesmo o yuan chinês, apesar do seu crescimento recente, tem a liquidez e a confiança necessárias para assumir o lugar da moeda americana.
Alguns conselheiros de Trump, como Stephen Miran, defendem mesmo que um dólar mais fraco poderia beneficiar a indústria dos EUA, tornando as exportações mais competitivas. Há quem especule que esta poderá ser, em parte, a estratégia do atual presidente Trump.
Mas alguns conceituados economistas, como Kenneth Rogoff, sublinham que o défice comercial norte-americano tem múltiplas causas, e que a desvalorização da moeda não será uma solução milagrosa.
Apesar dos sinais de erosão, a maioria dos especialistas considera prematuro falar no “fim do dólar”. A moeda norte-americana continua a ser a principal referência do sistema financeiro global, e mesmo países críticos, como Rússia e China, mantêm grande parte das suas operações em dólares.
O futuro poderá passar por uma lenta diversificação das moedas predominantes nos mercados cambiais, mas, para já, o “rei dólar” continua sentado no trono.