As tartarugas marinhas “fogem de casa” na adolescência. Já sabemos porquê

Autónomas e independentes, saem da praia e desaparecem. O mistério dos “anos perdidos” das longas vidas das tartarugas marinhas, resolvido com a ajuda do Sol.

São conhecidos como os “anos perdidos” das longas vidas das tartarugas marinhas. Desaparecem quando saem da praia e voltam quase adultas, às vezes, 10 anos mais tarde.

O fenómeno acontece por todo o mundo, inclusive nos Açores, que recebem muitas jovens tartarugas-cabeçudas oriundas das praias do sudeste dos Estados Unidos. Agora, a motivação das jovens tartarugas pode ter sido descoberta.

Os cientistas repararam no fenómeno há décadas. “Temos enormes lacunas de dados sobre as primeiras fases da vida das tartarugas marinhas, desde bebés a crianças”, disse Kate Mansfield, da Universidade da Florida Central, citada pela agência AP: “esta parte das suas longas vidas tem sido, em grande parte, um mistério“.

Etiquetas GPS por satélite, presas às tartarugas jovens, têm ajudado na última década a cientista marinha e a sua equipa a tentar resolver este enigma.

A equipa colocou etiquetas GPS nas carapaças de 114 tartarugas marinhas de várias espécies tartaruga-verde, a tartaruga-comum (ou tartaruga-cabeçuda), a tartaruga-de-pente e a tartaruga-de-Kemp (ou tartaruga-marinha-pequena) — no Golfo do México, para acompanhar o seu movimento, detalha um estudo publicado a 5 de fevereiro na Proceedings of the Royal Society B.

Antes, os cientistas acreditavam que as tartarugas recém-nascidas se limitavam a navegar passivamente com as correntes oceânicas. Mas os novos dados recolhidos pela equipa de Mansfield sugerem que estas jovens nadam ativamente e tomam decisões sobre o seu movimento.

As suas rotas eram muitas vezes diferentes das trajetórias de boias oceânicas colocadas estrategicamente na água ao mesmo tempo que as tartarugas, e que deveriam seguir as mesmas correntes. Mais de metade das boias foram parar à costa, enquanto as tartarugas, donas de si mesmas, continuaram as suas viagens.

Elas “estão mesmo a nadar” e “a decidir onde querem ir no oceano”, explicam os ecologistas Nathan Putman e Bryan Wallace. Além disso, estas jovens são muito mais móveis do que se pensava: nadam entre as águas da plataforma continental e o oceano aberto.

“Parecem estar a escolher locais no norte do Golfo do México onde há comida favorável, condições de crescimento favoráveis e minimizam as hipóteses de se depararem com predadores. Parecem estar a equilibrar todas estas coisas ao mesmo tempo”, disse o cientista Nathan Putman em entrevista ao Texas Standard,

Para finalmente desvendarem o mistério, os cientistas contaram com um poderoso aliado: o Sol.

Antes, as etiquetas GPS desprendiam-se das carapaças das tartarugas à medida que estas cresciam, o que acontecia antes de os investigadores de obterem respostas concretas. “A parte exterior da carapaça das tartarugas jovens desprende-se à medida que crescem muito rapidamente”, explica Katrina Phillips, co-autora do estudo.

Desta vez, a equipa desenvolveu etiquetas flexíveis alimentadas por energia solar, que ficaram presas às carapaças tempo suficiente para enviar os dados de localização valiosos.

Uma das principais coisas que estamos a fazer com esta informação é construir modelos que nos ajudem a prever onde se encontram as tartarugas e quantas delas estão lá”, explicou Putman, “e o que queremos fazer com essa informação é compreender melhor quais são os riscos de várias atividades, quer se trate da pesca ou do desenvolvimento energético, e sobrepô-los aos locais onde as pessoas também interagem com o oceano, de modo a podermos orientar a indústria pesqueira ou a indústria energética na definição de prioridades para atividades sustentáveis que permitam a coexistência da pesca e destas tartarugas de forma geralmente produtiva”.

Tomás Guimarães, ZAP //

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