Há 9 mil anos, Çatalhöyük já lidava com problemas urbanos do quotidiano

Há 9 mil anos atrás, Çatalhöyük era uma das maiores comunidades agrícolas do mundo e, segundo um estudo recente, já lidava com violência, problemas ambientais, doença infeciosas, entre outros.

Uma equipa de arqueólogos a estudar as ruínas de Çatalhöyük, na Turquia, descobriram que os problemas que as sociedades de hoje lutam para controlar, já assolavam os habitantes da comunidade na altura. Excesso de população, doenças infeciosas, violência e problemas ambientais são alguns dos desafios com que a comunidade se debatia.

Um estudo publicado esta segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America ilustra a realidade vivida na região há milhares de anos através da análise de restos humanos lá desenterrados.

“Çatalhöyük foi uma das primeiras comunidades proto-urbanas do mundo e os moradores experienciaram o que acontece quando se junta muitas pessoas numa pequena área por um tempo prolongado”, disse o responsável pelo estudo, Clark Spencer Larsen. Segundo o cientista, a comunidade passou de um estilo de vida nómada para um estilo mais sedentário.

Segundo o Phys, o sítio das escavações tem mais de 13 hectares e nele estão depositados vestígios de 1150 anos de ocupação continua. Os trabalhos de Larsen em Çatalhöyük começaram em 2004 e terminaram em 2017 — com o estudo a examinar 15 anos de análise aos vestígios humanos.

“Eles estavam a cultivar e a manter animais assim que criaram a comunidade, mas estavam a intensificar os seus esforços à medida que a população se expandia”, disse Larsen.

A proteína das suas dietas provinha principalmente de carne de carneiro e cabra. A sua dieta era também muito rica em grãos, o que levou os habitantes de Çatalhöyük a desenvolver cáries dentárias.

Recriação de Çatalhöyük, por Dan Lewandowski.

“Acreditamos que a degradação ambiental e as mudanças climáticas forçaram os membros da comunidade a se distanciarem do assentamento para cultivar e encontrar suprimentos como lenha”, disse Larsen. “Isso contribuiu para a morte final de Çatalhöyük“. Isto foi comprovado pelas mutações dos ossos das pernas dos habitantes com o passar dos anos, mostrando que estes eram obrigados a caminhar mais no período tardio da comunidade.

O excesso de população e a falta de higiene levou também a que os habitantes sofressem de várias infeções — um terço dos restos mortais encontrados mostravam evidências de infeções nos ossos.

“Eles viviam em condições muito lotadas, com poços de lixo e currais de animais próximos a algumas casas. Portanto, há toda uma série de problemas de saneamento que podem contribuir para a disseminação de doenças infeciosas”, explicou o cientista.

O problema de sobrelotação levou também a um aumento significativo da violência, realça o Phys, com muitos dos restos mortais a serem encontrados com fraturas saradas, provavelmente causadas por golpes na cabeça com objetos duros e redondos.

“Encontramos um aumento nas lesões cranianas, quando a população era maior e mais densa”, disse Larsen. “Pode-se argumentar que o excesso de população levou a um maior stress e a conflitos dentro da comunidade”, acrescentou.

ZAP //

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