Entre quem sabe fazer puré e “parolos”, instalou-se a polémica nas obras do Mosteiro de Alcobaça

Patrimoniocultural.gov.pt

Mosteiro de Alcobaça

Está instalada a polémica em torno das obras de recuperação da escadaria do Mosteiro de Alcobaça, em Leiria. O Presidente da Concelhia do PS assegura que está a ser usado cimento e que é um “acto criminoso”, mas a Direcção-Geral do Património Cultural fala em “cal e areia”.

Foi o presidente da concelhia do PS de Alcobaça, Rui Alexandre, quem deu visibilidade ao caso, denunciando o alegado uso de cimento nas obras de recuperação da escadaria do Monumento Nacional, inaugurado em 1187 e um dos maiores símbolos da arquitectura gótica do país.

Através das suas redes sociais e num comunicado enviado a vários meios de informação, Rui Alexandre refere que está a ser usado “cimento/betão por cima da escadaria monástica” e lamenta que é um “acto criminoso” contra o nosso património.

“Mais um motivo para desclassificar o nosso Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça como Património Mundial da UNESCO“, queixa-se ainda o político socialista, divulgando fotografias da obra.

DGPC garante uso de “cal e areia”

A Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) já veio negar o uso de betão, condenando o que diz ser “a propagação de informações falsas”.

A DGPC explica, em comunicado citado pelo Notícias de Leiria, que “para preservar a escadaria”, se considerou que era mais adequado “não substituir ou reparar as pedras existentes – princípio da autenticidade“, mas antes “revestir os degraus em dois lances simétricos, junto do muro do varandim, por uma chapa de aço cortene (com o aspecto idêntico à guarda do varandim), revestida interiormente por um filme de borracha expandida”.

Essa chapa de aço não pode ser colocada directamente sobre as pedras sem causar danos e, portanto, “a superfície dos degraus foi regularizada com recurso a uma argamassa de cal e areia separada da pedra por uma manta de fibra geotêxtil, o que permite que, em qualquer altura, possa ser removida – princípio da reversibilidade“, aponta ainda a DGPC.

A entidade ainda explica que será colocado um corrimão ao longo da zona, para permitir uma circulação mais segura das pessoas.

As obras devem terminar em Julho deste ano e preveem ainda o tratamento da pedra da fachada da Igreja, reparação e pintura de rebocos, de caixilharias e gradeamentos e ainda a melhoria dos acessos exteriores à bilheteira do Mosteiro, como atesta ainda a DGPC.

“Não vão comer os alcobacenses por parolos”

Porém, o presidente do PS de Alcobaça já veio desmentir a DGPC, assegurando que o comunicado da entidade “não está correcto”, conforme uma publicação no seu perfil do Facebook.

Rui Alexandre refere que, observando as fotografias e as próprias obras, no local, é possível ver que “não foi colocada nenhuma película de geotêxtil entre a pedra monástica e a argamassa”.

“Não vão comer os alcobacenses por parolos nem saloios”, diz ainda o socialista, repetindo que a argumentação da DGPC “não é verdadeira”.

Entretanto, os vereadores do PS, Cláudia Vicente e César Santos, e o vereador independente eleito pelo CDS-PP, Carlos Bonifácio, também já vieram a público exigir esclarecimentos sobre as obras.

“Não vou discutir com chef Michelin como se faz puré”

O presidente da Câmara de Alcobaça, Paulo Inácio, já veio demarcar-se das obras, frisando que são competência da DGPC que concorreu a fundos europeus para as financiar.

“Não sou técnico, pelo que tenho de acreditar que a DGPC sabe o que está a fazer“, salienta o autarca eleito pelo PSD, conforme declarações citadas pelo Jornal de Notícias (JN).

Não vou discutir com um chef com duas estrelas Michelin como é que se faz puré de batata com salmão”, acrescenta Paulo Inácio, salientando que “os técnicos de conservação” lhe garantiram que “estão a ser respeitadas todas as normas”.

Era preciso reforçar os degraus porque a ala norte vai ter mais utilização no futuro. Segundo o Plano Director [Municipal], é para ali que vão ser direccionados os turistas”, acrescenta ainda o Presidente da Câmara que nota que este tipo de intervenção já foi feita em outros monumentos nacionais, como o Castelo de S. Jorge, em Lisboa.

Susana Valente, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Certamente haverá aqui toda a razão em se manifestarem contra tal forma de “recuperação” do mosteiro, eu próprio já verifiquei talvez já há mais de dois anos de terem posto uma pedra na entrada principal que nada condiz com as originais, para mim isto é um atentado ao património que neste país para além de estar um pouco ao abandono tem o azar de ser mal intervencionado quando o é. Parece não haver competência e nem justiça para por cobro a tais atentados!

    • ó amigo, compreenda que uma Ditadura Socialista/ Marxisma é uma Ditadura de aberrados.
      Gente patetica , que não tem o minimo de condições, nem tecnicas nem Humanasa, mas “sobem” ao “Poder”:
      Socialismos / Marxsitas é uma Ditadura do “Proletariao” os patetas inuteis.

      • Tudo o que diz pode ser verdade, no entanto, por cá no que toca a restauração de monumentos parece ser mal antigo, já vi por vários lados, tijolos, cimento e sobretudo abandono quanto baste para compreender que o património arquitetónico dos nossos monumentos está em muito más mãos.

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