YouTube ignorou avisos de funcionários e permitiu que vídeos tóxicos se tornassem virais

A enfrentar críticas sobre os vídeos que recomendam aos utilizadores, o YouTube tem fez agora uma nova declaração, que pode surpreender quem passe tempo online: o conteúdo tóxico – que inclui vídeos violentos, extremistas e teorias da conspiração – “não tem bom desempenho na plataforma”, afirmou a empresa.

Segundo avançou o Gizmodo, na terça-feira, a afirmação por parte da empresa surgiu depois de a Bloomberg ter publicado uma investigação onde alega que o YouTube ignorou os avisos de ex-funcionários sobre a promoção de vídeos tóxicos por parte da plataforma, com os executivos a priorizar o envolvimento do público acima de todas as outras metas.

A investigação conduzida pela Bloomberg mostra que mais de 20 ex-funcionários do YouTube fizeram propostas para conter a disseminação de vídeos com conteúdo perturbador e extremista, mas a empresa estava mais interessada em aumentar a participação do público do que em atender a esses alertas.

Uma das propostas, concebida pelo ex-engenheiro de privacidade da Google, Yonatan Zunger, em 2016, apontava para a criação de um terceiro nível, que continha vídeos com permissão para estar no YouTube, mas que, por estarem próximos da linha da política de remoção, seriam retirados das recomendações.

O YouTube rejeitou essa sugestão e continuou a recomendar vídeos, independentemente de quão controversos fossem. “Eu posso dizer com muita confiança que eles estavam profundamente errados”, disse Yonatan Zunger. Em janeiro de 2019, a empresa implementou uma política semelhante a que o próprio tinha sugerido inicialmente.

Os funcionários foram também desaconselhados a procurar vídeos tóxicos no YouTube, pois os advogados informaram que a empresa teria uma responsabilidade maior se houvesse provas de que estes sabiam e reconheciam a existência desses conteúdos.

De acordo com a Bloomberg, a lei federal protege o YouTube e outros gigantes da tecnologia da responsabilidade pelo conteúdo dos seus sites, mas as empresas correm o risco de perder as proteções a essa lei se assumirem um papel editorial muito ativo.

Cinco altos funcionários que deixaram o YouTube e o Google nos últimos dois anos citaram a incapacidade da plataforma em controlar os vídeos extremistas e perturbadores como o motivo da sua saída.

A diretora executiva do YouTube, Susan Wojcicki, “nunca colocaria os dedos na balança”, contou à Bloomberg um ex-funcionário, que não se quis identificar por receio de retaliação. “A sua visão era: ‘o meu trabalho é administrar a empresa, não lidar com isso'”. O objetivo interno era atingir mil milhões de horas de visualizações por dia, meta que o YouTube atingiu em outubro de 2016.

Um porta-voz da empresa desafiou o testemunho dos ex-funcionários e disse à Bloomberg que “o conteúdo geralmente extremo não tem bom desempenho na plataforma”.

Esta afirmação vai ao encontro de uma declaração que o diretor de produtos do YouTube, Neal Mohan, deu recentemente ao New York Times sobre a radicalização ‘online’. Questionado sobre se as recomendações da plataforma levam os utilizadores a vídeos estremos, disse que o sistema não foi projetado para tal e que esse tipo de contéudo não gera mais envolvimento ou tempo de exibição do que os restantes.

“Isso leva-nos a acreditar que Mohan não passou muito tempo no YouTube ou que tem uma definição completamente diferente de conteúdo extremo”, lê-se no artigo do Gizmodo. Mesmo uma análise superficial à plataforma mostra que os vídeos mais chocantes e inflamados estão regularmente entre o conteúdo mais visto nos órgãos de notícias.

Tendo em consideração o canal do YouTube da Fox News, entre os vídeos mais assistidos estão o de um homem a atacar agentes da polícia com facas de cozinha, outro de soldados norte-americanos mortos a tiros na base militar e ainda um duelo mortal no meio da rua.

Nos órgãos de comunicação social menos conservadores acontece o mesmo. Os vídeos do YouTube mais assistidos no canal da CNN incluem uma alegada execução do ISIS no Iraque, alunos escondidos enquanto os tiros são disparados numa escola e imagens de outra batalha do ISIS.

Caso se pesquise num canal de extrema-direita, como o Breitbart, ou num canal de esquerda, como o The Young Turks, os vídeos tóxicos também estão entre os mais vistos. E depois há o Daily Mail, no qual existe uma própria categoria própria de sensacionalismo flagrante dos tablóides.

Outras plataformas admitem mais prontamente que o conteúdo mais descuidado e mais extremo é regularmente o mais popular nas redes sociais. Numa publicação de novembro de 2018, o diretor executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, escreveu:

“Um dos maiores problemas enfrentados pelas redes sociais é que, quando deixadas sem controlo, as pessoas se envolverão desproporcionalmente com conteúdo mais sensacionalista e provocativo. Este não é um fenómeno novo. Está difundido nos telejornais e tem sido um marco nos tablóides há mais de um século. Em grande escala, isso pode minar a qualidade do discurso público e levar à polarização”.

A inércia do YouTube quanto a esta questão foi novamente levantada após um surto mortal de sarampo chamar a atenção do público para as conspirações de vacinação nas redes sociais há algumas semanas.

A fraca resposta da empresa a vídeos direcionados a crianças atraiu críticas da própria indústria de tecnologia. Patrick Copeland, ex-diretor do Google que saiu em 2016, fez recentemente uma publicação acusatória sobre a sua antiga empresa no LinkedIn.

Enquanto assistia ao YouTube, a sua filha recomendou um vídeo que apresentava tanto um personagem da Branca de Neve a desenhar com características sexuais exageradas quanto um cavalo envolvido num ato sexual. “A maioria das empresas demitiria alguém por ver esse vídeo no trabalho”, escreveu. Devido a isso, Patrick Copeland, que passou uma década no Google, decidiu bloquear o domínio YouTube.com.

“Não temos certeza de qual é a definição do YouTube de conteúdo extremo”, visto que a empresa não respondeu a um pedido do Gizmodo para comentários. É possível que as declarações recentes sobre conteúdo extremo se referissem apenas ao extremismo político.

Contudo, “se praticamente todos os outros tipos de conteúdo extremo têm saída em quase todas as outras plataformas, é difícil acreditar que o conteúdo politicamente extremo no YouTube seja a exceção”, acrescenta o artigo.

O YouTube recusou igualmente os pedidos da Bloomberg para falar com Susan Wojcicki ou com outros executivos da Google, a sua empresa-mãe.

TP, ZAP //

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