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Um jovem quer salvar-nos do ChatGPT antes que o mundo mude para sempre

Estudante norte-americano criou ferramenta que consegue identificar o conteúdo produzido com recurso a Inteligência Artificial.

Enquanto o mundo parece fascinado com as capacidades quase humanas do GhatGPT, há quem veja no site uma perigosa ameaça à forma como vivemos. É o caso de Edward Tian, um jovem de 22 anos que passou a meia noite de 31 de dezembro a desenvolver uma aplicação que consiga combater a incorreta utilização da ferramenta de inteligência artificial.

“Acho que estamos totalmente num ponto de inflexão“, vaticinou o jovem. “Esta tecnologia é incrível. Acredito que é o futuro. Mas, ao mesmo tempo, é como se estivéssemos a abrir uma caixa de Pandora. E precisamos de salva-vidas para o adotarmos de forma responsável.”

Enquanto estudante de ciências computacionais e jornalismo, Titan esperava terminar a sua formação e iniciar-se no mercado de trabalho. Agora, como consequência do trabalho feito nas últimas semanas, está constantemente a receber chamadas de empresas a operar na área do capital de risco, líderes educacionais e meios de comunicação globais.

Ao longo dos últimos anos, Tian desenvolveu um sistema de Inteligência Artificial (IA) chamado GPT-3, um antecessor do ChatGPT mas menos fácil de utilizar e largamente inacessível ao público em geral — porque estava por detrás de um paywall. No âmbito dos seus estudos no último semestre, Tian dedicou-se a detetar texto escrito IA enquanto trabalhava no Laboratório de Processamento de Linguagem Natural de Princeton.

No entanto, quando se preparava para encerrar o período letivo, a OpenAI, a empresa por trás do GPT-3 e outras ferramentas de Inteligência Artificial, lançou o CHatGPT, tornando-o acessível ao grande público — que desde então sente que chegou ao futuro. Apesar de estar familiarizado com a tecnologia, Titan ficou fascinado com o que viu.

Com a interrupção das aulas, o jovem começou ainda a debater as alterações ao nosso quotidiano em função do rápido avanço da Inteligência Artificial. Foi aí que lhe surgiu uma ideia: e se aplicasse alguns dos conhecimentos que aprendeu ao longo dos anos para ajudar o público a identificar que conteúdos foram escritos por humanos e os que foram escritos por bots? Na realidade, tal tecnologia já existia e foi desenvolvida pelo GPT-3.

Contando com esta ajuda, o universitário criou uma nova aplicação em três dias. Chama-se GPTZero e, de forma resumida, usa o ChatGPT contra si próprio, de forma a conferir se num determinado texto teve muita intervenção da inteligência artificial ou não na sua elaboração. Num primeiro momento, Tian não tinha muitas expectativas.

“Quando lancei a ferramenta, pensei que, no máximo, poucas dezenas fossem experimentá-la. Na realidade, não estava à espera do que se seguiu.” Quando acordou, na manhã seguinte, o seu telemóvel tinha explodido — não literalmente. Havia recebido dezenas de mensagens de jornalistas, diretores ou professores de vários cantos do mundo. A aplicação que criou ficou até indisponível face ao elevado número de acessos.

Tian confessa que teve algumas motivações para criar o GPTZero. A primeira, a transparência. “Os humanos merecem saber quando algo é escrito por um humano ou escrito por uma máquina”, diz ele.

Como tal, uma aplicação óbvia para o seu GPTZero é ajudar os professores a identificar se os seus alunos estão a plagiar os seus trabalhos utilizando o ChatGPT. “Os professores de todo o mundo estão preocupados com isto”, diz Tian.

É claro que ao longo da história recente os humanos já perderam algumas das suas capacidades como consequência da introdução das novas tecnologias na sua vida. Nesta fase, estamos mais dependentes das máquinas do que alguma vez estivemos e podemos estar a caminhar para uma fase da humanidade em que a capacidade de escrever, sobretudo bem, pode perder-se. Adeus criatividade, adeus personalidade, adeus ideias.

Mas Tian teve outra motivação para a criação do GPTZero: identificar e incentivar a originalidade da escrita humana. “Estamos a perder essa individualidade se deixarmos de ensinar a escrita nas escolas”, diz Tian. “A escrita humana pode ser tão bonita, e há aspetos da mesma que os computadores nunca conseguirão reproduzir. E parece que isso pode estar em risco se todos estiverem a utilizar o ChatGPT para escrever”.

Mas o estudante não se ilude. Acredita que é impossível parar o progresso da IA, pelo que se opõe a proibições gerais contra o uso do ChatGPT, como a recentemente anunciada pelas escolas públicas da cidade de Nova Iorque.

Os estudantes, acredita ele, irão utilizar a tecnologia de qualquer forma. E, diz ele, é importante que eles sejam capazes de aprender a utilizá-la. No entanto, precisam de estar cientes das mudanças tecnológicas que estão a varrer o nosso mundo. “Não faz sentido que entremos cegamente nesse futuro”, diz ele. “Em vez disso, é preciso construir as salvaguardas para entrar nesse futuro”.

  ZAP //

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