Suécia dá seis meses de folga do trabalho para criar a sua própria empresa

Nas duas últimas décadas, os trabalhadores em tempo integral com empregos fixos passaram a ter o direito de se afastar por seis meses para iniciar uma empresa – ou, alternativamente, para estudar ou cuidar de um parente.

Os chefes só podem negar se houver razões operacionais cruciais que não conseguem administrar sem aquele integrante da equipa ou se a nova empresa for vista como concorrente direta. Espera-se que os funcionários regressem à mesma posição após o período de folga.

“Até onde sei, este é o único país que oferece um direito legalmente consagrado de tirar uma licença para o empreendedorismo“, explica Claire Ingram Bogusz, investigadora de empreendedorismo e sistemas de informação na Escola de Economia de Estocolmo.

“É comum que as pessoas tenham permissão do empregador para iniciar algo desde que não interfira com o emprego, e, uma vez que o negócio esteja a funcionar, tirem uma licença para ver se realmente conseguem fazer só aquilo na vida”, disse. “É muito frequente, especialmente entre os empreendedores altamente qualificados que criam empresas de tecnologia.”

Max Friberg, de 31 anos, é um deles. Ele administra uma plataforma de software e optou por tirar uma licença da consultoria em que trabalhava, em vez de deixar o emprego, apesar de ter se dedicado ao projeto durante o seu tempo livre durante mais de um ano antes de o fazer

Para ele, perder a vantagem competitiva e o “status social” que trabalhou durante anos para alcançar era uma preocupação tão grande como a insegurança financeira. A possibilidade de uma licença não remunerada ajudou bastante com algumas destas preocupações.

“Tinha um emprego fantástico e trabalhado muito durante toda a universidade para obtê-lo e, depois, para mantê-lo e progredir”, explica. “Eu questionava-se: Estou a fazer uma loucura? Mas sentir que poderia voltar tirou um pouco desse medo.”

A Suécia, com uma população de dez milhões de pessoas, criou a reputação de ser um dos países mais inovadores da Europa nos últimos anos. As razões mais citadas para que cenário de novas empresas crescesse tão rapidamente incluem uma forte infraestrutura digital, uma cultura de colaboração e seguro de desemprego privado acessível, o que proporciona uma rede de segurança social maior.

Medir exatamente quanto o direito à licença não remunerada contribuiu para isso é complicado. Embora a tendência tenha sido observada por académicos, sindicatos e empregadores, não há bancos de dados nacionais que detalhem quantas pessoas registadas para tirar uma licença de trabalho iniciam um negócio.

Mas o que os números confirmam é que a crescente procura por todos os tipos de licenças – incluindo a licença parental remunerada – coincide com o aumento do número de suecos que começam as suas próprias empresas.

Em 2017, 175 mil pessoas entre 25 e 54 anos de idade foram licenciadas, em comparação com 163 mil em 2007, de acordo com dados oficiais. O escritório de registo de empresas suecas diz que 48.542 empresas limitadas foram registadas em 2017, em comparação com 27.994 em 2007.

De acordo com Claire Ingram Bogusz, a tendência de se licenciar para abrir uma empresa precisa ser vista no contexto das leis trabalhistas notoriamente rígidas do país nórdico. Elas tradicionalmente dificultam mais que patrões demitam funcionários em comparação com muitos países. A especialista argumenta que isso pode encorajar alguns funcionários a permanecerem nos seus empregos quando têm segurança.

“As pessoas não desistem facilmente de um emprego depois de o conquistar”, referiu. “É análogo a ter uma casa ou um apartamento. Uma vez que é o proprietário de um imóvel, não desiste dele facilmente.”

Samuel Engblom, chefe de política da Confederação Sueca para Empregados Profissionais, explica que o governo, sindicatos e empregadores na Suécia apoiam o direito de se afastar como “uma forma de promover a mobilidade no mercado de trabalho“. “A maioria dos funcionários hesita em deixar um emprego que consideram seguro por algo tão inseguro como começar um negócio”.

“Talvez seja uma visão bastante sueca – quero dizer, poderia promover o empreendedorismo tornando-o mais lucrativo, e fazemos isso até certo ponto, mas também pode promover o empreendedorismo tornando-o menos inseguro.”

Ting Xu, professor da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, cujo trabalho se concentra em finanças empresariais, argumenta que a ampliação do direito à licença não remunerada pode desempenhar um papel crucial no fomento do empreendedorismo, mesmo em países com mercados de trabalho muito mais flexíveis.

Ele cita um estudo de 2016 sobre como ajudar os futuros empreendedores de tecnologia a romper as barreiras geradas pelo medo do fracasso. A investigação descobriu que, embora o risco financeiro fosse a principal preocupação, o risco para a carreira estava em segundo lugar.

Alguns observadores argumentam que pode ser mais difícil para os empregadores fora da Suécia permitir que os trabalhadores voltem aos seus antigos cargos depois de se ausentarem para administrar um negócio. Os trabalhadores podem enfrentar discriminação em perspetivas futuras de carreira ou salário. No entanto, na Suécia, esse tipo de preconceito é contra a lei.

Ainda assim, o direito à licença não remunerada para funcionários permanentes parece ter vindo para ficar. Vários sindicatos chegaram a acordos coletivos com empregadores que expandem os direitos dos trabalhadores à licença não remunerada, oferecendo-lhes 12 meses de folga para tentar iniciar um negócio, em vez do requisito padrão de seis meses.

ZAP // BBC

 

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