Sons dos rituais de acasalamento dos mosquitos podem ajudar a combater a malária

(dr) Envato Elements

Investigadores fizeram descobertas sobre os sons dos rituais de acasalamento de mosquitos que podem ajudar a combater a malária.

Em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que quase metade da população mundial estava em risco de malária, enquanto cerca de 627.000 pessoas morreram da doença.

Embora uma vacina contra a malária possa estar disponível em breve (a OMS recomendou para crianças no ano passado), a malária é apenas uma das várias doenças transmitidas por mosquitos.

E o número total de infeções relacionadas com mosquitos deve aumentar à medida que as alterações climáticas aumentam as populações de mosquitos. Assim, para reduzir o fardo da malária e outras doenças transmitidas por mosquitos, precisamos de continuar a desenvolver ferramentas eficazes para controlar as suas populações.

Um alvo principal é a sua acasalamento no ar. O ritual de acasalamento dos mosquitos envolve um macho identificando e perseguindo uma fêmea voadora, detetando o seu fraco tom de voo.

Se o macho não consegue ouvir a fêmea corretamente, a perseguição falha e não acasalam. A reprodução nos mosquitos depende crucialmente do sentido de audição.

Cientistas estudaram o comportamento dos mosquitos causadores da malária (a espécie Anopheles gambiae) para entender mais sobre como é que os machos escutam as fêmeas para garantir um parceiro sexual. Os resultados foram publicados recentemente na revista Science Advances.

O mecanismo de audição dos mosquitos é único, mas pouco compreendido. Os ouvidos de ambos os sexos são quase surdos aos sons de voo um do outro, cujas frequências são simplesmente altas demais para serem audíveis. Para se ouvirem, usam um truque da física.

Quando os tons de voo masculinos e femininos se combinam num ouvido de mosquito, eles criam “tons fantasmas” de baixa frequência – e, portanto, audíveis – chamados produtos de distorção. Os produtos de distorção existem apenas dentro do ouvido do mosquito e não podem ser ouvidos ou gravados fora dela.

Um mosquito macho, portanto, precisa de voar para ouvir uma fêmea a voar. E o seu próprio tom de voo precisa de estar dentro de uma faixa de frequência específica para gerar produtos de distorção audíveis com uma determinada fêmea.

Os investigadores gravaram os tons de voo (ou “batidas de asas”) dos mosquitos em incubadoras equipadas com microfones altamente sensíveis.

Nas incubadoras, os cientistas procuraram emular as condições do seu ambiente natural com iluminação, controlo de temperatura e humidade. Os autores conseguiram medir a frequência das batidas das asas dos mosquitos ao longo de vários dias e em diferentes momentos do dia.

Os peritos descobriram que os mosquitos machos, mas não as fêmeas, alteravam os seus tons de voo diariamente. Ao bater as suas asas cerca de 1,5 vezes mais rápido do que as fêmeas, os machos otimizam a sua capacidade de detetar uma única fêmea numa mosquitada.

Os cientistas descobriram também que os machos batem as asas mais rápido ao entardecer do que noutras horas do dia. Isto faz sentido porque nos mosquitos Anopheles gambiae, os machos voam predominantemente ao entardecer quando formam grupos de acasalamento, geralmente de 1.000 mosquitos ou mais.

Esses grupos são esporadicamente visitados por algumas fêmeas virgens. Como pode imaginar, encontrar um parceiro de acasalamento não é fácil.

O que é que isto significa?

Será importante replicar experiências semelhantes fora do laboratório, especificamente entre grupos de mosquitos no seu habitat natural. A equipa de investigadores já começou a trabalhar nisso na Tanzânia.

Ainda assim, estas descobertas abrem novos caminhos para pesquisas sobre a ecologia evolutiva da audição, o sistema auditivo único em mosquitos e o comportamento dos mosquitos de forma mais ampla.

Também pode contribuir para os esforços de controlo de mosquitos. Como parte dos programas de controlo de vetores, machos mutantes serão soltos na natureza para reduzir as populações locais de mosquitos. Os mosquitos machos mutantes são geneticamente modificados para que, quando acasalam com uma fêmea, as crias não sejam viáveis e morram.

Os resultados sugerem que, para criar um programa de sucesso, pode ser importante avaliar as distribuições de tons de voo masculinos e femininos, juntamente com as faixas de audição masculinas, antes de libertar os mosquitos mutantes.

Isto fortaleceria qualquer intervenção, garantindo que a eficiência de acasalamento dos mutantes seja ótima – essencialmente, que possam competir com os mosquitos machos residentes para identificar e acasalar com as fêmeas residentes.

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  ZAP // The Conversation

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