Septicemia: descoberta de investigadores portugueses pode salvar milhões

Marcos Santos / USP

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Investigadores portugueses conseguiram controlar a sépsis, ou septicemia (uma infecção geral grave do organismo) em animais através de um medicamento usado no tratamento do cancro, uma descoberta que em breve será testada em pessoas e que se apresentar os mesmos resultados pode salvar milhões de vidas.

Luís Ferreira Moita, que dirige a Unidade de Imunidade Inata e Inflamação do Instituto de Medicina Molecular (IMM), é o investigador responsável pela descoberta e explicou à agência Lusa que o objetivo foi encontrar uma forma de compreender a sépsis e os seus mecanismos porque se trata da “principal causa de morte nas unidades de cuidados intensivos e a terceira causa de morte hospitalar”.

Investigador Luís Ferreira Moita (foto: r.Facebook)

Investigador Luís Ferreira Moita (foto: r.Facebook)

Apesar da dimensão desta doença (que consiste numa infeção generalizada que leva à falência de órgãos), o tratamento médico continua a usar “os mesmos princípios de atuação de há 50 anos, baseados no controlo imediato do foco de infeção por antibióticos – cada vez mais potentes – e medidas de suporte de órgãos”.

“A sépsis é uma área de medicina que continua órfã de soluções eficazes”, disse Luís Ferreira Moita, que se propõe alterar este quadro.

Os investigadores começaram por “basear-se nos mecanismos da doença. Sabemos que há mediadores inflamatórios (substâncias no organismos) que são importantes para o início da sépsis, ou seja, a doença não acontece sem eles”, explicou.

“Pensámos que, se, de alguma forma, pudéssemos bloquear a produção destes mediadores, poderíamos modificar a progressão natural da doença”, adiantou.

Para tal, foram testados cerca de 2.300 fármacos aprovados para uso clínico num ensaio “in vitro” (em cultura de células), com o objetivo de observar os que modificavam a produção dos mediadores.

Os investigadores encontraram vários fármacos com estas características, dos quais dez foram posteriormente testados no modelo animal (ratos).

Para isso foi provocada uma infeção abdominal muito grave nos animais, capaz de lhes provocar a morte em 48 horas, e depois administrado um medicamento citoestático (usado no tratamento de cancros, nomeadamente no da mama), mas em doses muito mais baixas (cerca de 10 por cento da dose normalmente usada nos tumores).

O fármaco em questão revelou um efeito anti-inflamatório e de proteção de órgãos e tem a vantagem de já ser aprovado – ainda que para outra indicação terapêutica – o que permite ultrapassar algumas fases de testes iniciais de tolerância e segurança.

Os animais “ficaram completamente protegidos”, contou, revelando que o artigo que descobre em pormenor a descoberta e os mecanismos de atuação dos fármacos foi publicado em novembro na revista Immunity.

A descoberta – que está patenteada e protegida em mais de 140 países – satisfez os investigadores que estão, contudo, prudentes: “Não estamos à espera de reproduzir totalmente o efeito que observámos no modelo animal, porque se isso fosse verdade estaríamos a falar de mais de um milhão de vidas que poderiam ser salvas anualmente”.

“Mesmo que se consiga apenas uma percentagem pequena, na ordem dos 10%, em todo o mundo, se esta terapia for aplicada estamos a falar de dezenas de milhares de pessoas que, todos os anos, podem ver as suas vidas melhoradas ou a sua vida salva”, disse.

Ângelo Chora, outro investigador que fez parte do projeto, disse à Lusa que o “ponto de viragem” se deu quando foram testados os fármacos nos animais em choque sético e estes sobreviveram todos, enquanto o grupo de controlo morria em 48 horas.

“Percebemos que tínhamos algo de potente, bom e especial”, contou.

O próximo passo vai ser dado em breve, quando o fármaco for testado em 20 doentes, num ensaio clínico no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que também será inovador porque “normalmente os ensaios clínicos são patrocinados pela indústria farmacêutica e oriundos de outros países. Este tem origem na investigação básica e é patrocinado pela universidade”, disse.

Numa primeira fase, que deverá durar um ano, será envolvido um pequeno grupo de doentes e, se os resultados forem promissores, este número vai ser alargado rapidamente para uma população muito maior.

/Lusa

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