Sem água e entregue à má sorte. Nos EUA, teme-se uma “carnificina” na Nação Navajo

Wolfgang Staudt / Flickr

A Nação Navajo é a maior reserva índia dos EUA, abrangendo territórios dos Estados do Arizona, Utah e Novo México.

Os navajo, o maior povo indígena dos EUA, arriscam ser vítimas de uma verdadeira “carnificina humana” devido à pandemia de covid-19. Na Nação Navajo, a maior reserva índia dos EUA, é impossível cumprir a mais básica recomendação contra a covid-19 – lavar as mãos com frequência -, uma vez que muitas pessoas não têm sequer água potável.

A Nação Navajo é a zona dos EUA onde há mais casos de infectados per capita, com um número de contágios superior a Nova Iorque (em termos de proporção das respectivas populações residentes).

A CNN avança que a Nação Navajo, onde vivem cerca de 170 mil pessoas, tem 4 mil casos de infectados confirmados, o que significa à roda de 2,304 casos de covid-19 por 100 mil pessoas.

Em comparação, Nova Iorque tem uma taxa de 1,806 casos por 100 mil pessoas.

Uma prevalência de casos que muitos associam à pobreza e à falta de condições gerais, inclusive à escassez de água potável. Há quem tenha que percorrer 30 quilómetros para encontrar uma fonte de água potável para beber, cozinhar ou simplesmente lavar as mãos.

Abrangendo o território de três Estados (Arizona, Utah e Novo México), a extensão de terras da Nação Navajo é uma pequena parte do território que, outrora, foi dos índios. Se fosse um Estado, seria o mais pobre dos EUA.

Quase 40% dos navajos que vivem na reserva não têm água potável, segundo dados apurados pela BBC Mundo. Muitas pessoas reutilizam água para lavar as mãos, o que põe em causa a manutenção de boas condições de higiene.

A electricidade é outro luxo que não chega a todos.

O território tem elevados índices de pobreza, problemas de drogas, de violência sexual e de desemprego, além de baixos níveis de educação e condições de habitação precárias. A falta de serviços de saúde é outro dilema que os locais enfrentam.

“Somos um deserto de comida”

Mas até o acesso a comida saudável é complicado. Há quem tenha que se deslocar 65 quilómetros para chegar ao supermercado mais próximo.

Somos um deserto de comida, os supermercados são poucos e as ofertas são escassas. Isto faz com que o distanciamento social seja mais difícil” e “por estarmos mal alimentados, podemos fazer menos frente ao vírus”, destaca em declarações à BBC Mundo a delegada Kanazbah Crotty do Conselho da Nação Navajo, um órgão que faz parte do governo da reserva.

“A comida mais acessível é a de pior qualidade e isso leva a que tenhamos altos índices de diabetes, de obesidade, de doenças cardiovasculares, que são condições que sabemos que influenciam na mortalidade do coronavírus”, aponta Kanazbah Crotty.

“Também temos problemas respiratórios e cancro porque temos minas de carvão e de urânio que são coisas que impactaram os nossos corpos durante anos e que debilitaram a resposta que podíamos ter contra o vírus”, diz ainda a delegada do Conselho da Nação Navajo.

Cerca de metade da população da reserva é obesa e quase um quarto sofre de diabetes, o que pode ajudar a explicar que haja uma grande taxa de mortalidade na faixa etária entre os 55 e os 65 anos de idade, ao contrário da maioria dos países, onde as mortes ocorrem, sobretudo, em pacientes com mais de 70 anos.

“A tempestade perfeita” para “carnificina humana”

Na análise da directora do Centro Johns Hopkins para a Saúde dos Índios Norte-Americanos, Allison Barlow, a pobreza e as dificuldades da Nação Navajo que se têm arrastado ao longo dos anos criaram “a tempestade perfeita” para que uma crise como a do coronavírus provoque uma “carnificina humana”, como destaca na BBC Mundo.

“O que vemos hoje é resultado de um sistema falido e disfuncional que se manteve geração após geração”, critica Allison Barlow, apontando o dedo à “inacção do Governo federal que não respeitou, durante anos, as condições dos acordos com estas nações”.

Após a usurpação de terras aos índios, o Governo dos EUA assinou com a Nação Navajo um acordo, onde se comprometia a disponibilizar-lhes serviços de Saúde, Educação e Segurança Social.

Mas, “na prática, o Governo federal falhou em financiar adequadamente e apoiar estes programas”, refere Allison Barlow. “O mau trato às comunicados índias foi uma constante”, quer com democratas, quer com republicanos na Casa Branca, diz.

“A covid-19 só trouxe à luz o sistema falhado em que o Governo dos EUA os obriga a viver”, conclui Allison Barlow.

“Circunstâncias que são frequentes em nações de África”

Há relatos de pessoas que perderam grande parte da família em poucas semanas devido à covid-19.

“Nestas comunidades, às vezes há quatro gerações na mesma casa, pelo que se um fica doente, os demais membros da família também ficarão”, destaca à BBC Mundo a médica brasileira Carolina Batista que integra uma equipa dos Médicos Sem Fronteiras que presta ajuda na reserva.

“Como podes implementar a básica e elementar medida de lavar as mãos quando não tens água corrente”, questiona ainda, em jeito de resposta para o dilema que os médicos enfrentam diariamente.

“O que muitos não esperavam é que circunstâncias que são frequentes em nações de África ou nações pobres da Ásia ou América Latina, também possam encontrar-se no país mais desenvolvido do mundo”, critica ainda Carolina Batista.

“Os hospitais são escassos e carentes de recursos e de pessoal”, lamenta ainda a médica brasileira.

Já a médica Michelle Tom, ex-basquetebolista profissional que voltou à Nação Navajo para ajudar o seu povo depois de se formar em Medicina, fala dos desafios que enfrenta, no seu dia-a-dia, num hospital do Arizona, na fronteira com a reserva. Falta de testes e de cardiologistas ou outros especialistas necessários para atender os casos mais complicados são algumas das situações que Michelle Tom cita num testemunho à BBC Mundo.

“Para toda a Nação Navajo, há apenas 25 camas de cuidados intensivos, pelo que muitos pacientes precisam de ser transferidos por ar para outros hospitais, a centenas de milhas daqui, e nesta doença, o tempo pode também significar a vida ou a morte”, desabafa.

ZAP //

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