Já se sabe porque é que o nosso rosto é completamente diferente do dos nossos antepassados

O rosto dos humanos modernos é completamente diferente do nossos antepassados – e os cientistas quiseram saber porquê.

Uma equipa internacional de investigadores, entre os quais o paleoantropólogo espanhol Juan Luis Arsuaga, co-diretor dos depósitos de Atapuerca, propõe que a evolução dos nossos rostos poderia ter sido direcionada, pelo menos em parte, pela necessidade que os humanos tiveram em desenvolver uma ampla gama de habilidades sociais.

Como hominídeos de cérebro grande e de rosto pequeno, os nossos rostos são muito diferentes dos outros hominídeos extintos, como os neandertais.

Conforme explicado pelos investigadores num artigo publicado na revista Nature Ecology and Evolution, a necessidade de comunicar socialmente nunca foi considerada um fator importante na evolução das características faciais dos humanos modernos. Mas os rostos devem ser considerados como o resultado de uma combinação de influências muito diversas, variando de biomecânico ao fisiológico e, também, ao social.

Para demonstrar isso, os cientistas traçaram as mudanças que os nossos rostos sofreram desde os primeiros hominídeos africanos até aos nossos dias.

“Acredito que, entre outras funções, o rosto humano também cumpre a da comunicação social. O rosto de alguns fósseis antigos parece-nos sem expressão, enquanto um crânio moderno tem expressão. Por mera intuição, comecei a perguntar se o rosto era algo mais que um órgão para apoiar a visão, a mastigação e o cheiro. E se fosse também um órgão que serve para comunicar?“, explicou à ABC Arsuaga.

Para os cientistas, os nossos rostos não só evoluíram devido a fatores como dieta ou clima, mas para fornecer mais oportunidades para gestos e comunicação não-verbal, habilidades que eram vitais ao estabelecer os grupos que, acreditam, ajudaram a espécie a sobreviver.

De acordo com Paul O’Higgins, da Universidade de Nova York, “hoje podemos usar os nossos rostos para indicar mais de 20 diferentes categorias de emoções, através da contração ou relaxamento dos músculos faciais. É improvável que os nossos primeiros ancestrais humanos tivessem a mesma destreza facial”.

Por exemplo, em vez da crista frontal afiada presente noutros hominídeos, os humanos modernos desenvolveram uma frente suave, com sobrancelhas visível e cheias de pelo, capaz de uma maior variedade de movimentos.

A cara mudou antes do cérebro

“Quando se trata de estudar um crânio”, explica Arsuaga, “adotamos uma perspetiva modular. Ou seja, não estudamos tudo, mas decompondo-o em partes, assumindo que cada um desses componentes tem uma função diferente. Concluímos que, pelo menos nos neandertais, a evolução da face é anterior à evolução do cérebro. Cérebro e face são módulos diferentes e não relacionados”.

Pouco tempo depois, descobriu-se que, no caso do Homo sapiens, aconteceu exatamente a mesma coisa. “Em ambas as espécies existem diferentes unidades morfofuncionais, ou módulos, que não evoluem ao mesmo tempo. O que nos ensina que nem tudo na evolução muda ao mesmo ritmo. Podemos decompor todo o corpo em módulos independentes que evoluem e combinam-se em taxas diferentes. Aplicando esta abordagem modular à evolução humana, a própria perspetiva da evolução muda completamente“.

O rosto humano poderia evoluir como um “módulo independente” do resto dos outros “módulos” que compõem o corpo. O rosto foi moldado, em parte, para lidar com as mudanças nas demandas mecânicas de alimentos durante os últimos cem mil anos. Desta forma, os rostos foram reduzidos à medida que a capacidade de cozinhar e processar alimentos tornou a mastigação mais fácil.

Ao mesmo tempo, porém, e especialmente desde o surgimento da agricultura, os grupos humanos tornaram-se cada vez mais numerosos e estáveis. Com isso aumentaram, também, as necessidades de comunicação com os outros. Um rosto capaz de expressar emoções e sentimentos instantaneamente seria, nesse contexto, uma grande vantagem evolutiva.

ZAP //

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