Roma está novamente a ser invadida. Desta feita, a ameaça são as trotinetes elétricas

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Piazza di Spagna, em Roma

Desde que foram autorizadas na cidade, em 2020, as trotinetes elétricas estão ligadas à morte de quatro pessoas, levando muitos habitantes a pedir medidas de controlo ao município.

Ao longo da sua história, Roma foi conquistada e saqueada inúmeras vezes, com cada ataque a deixar cicatrizes por toda a cidade, desde as ruínas do Fórum Romano até à caverna do Circo Maximus. A degradação moderna também tende a deixar os cidadãos chateados, fartos do que muitas vezes entendem ser complacência no que respeita à gestão e preservação de uma das mais belas cidades do mundo.

No entanto, desta vez, a atual invasão da capital italiana não foi feita por homens acompanhados de setas, arcos, tanques ou outro tipo de armas. Na realidade, a ameaça provém das famosas trotinetas elétricas — mais de 14.000 — que bloqueiam passeios, desencorajam os condutores e, nos casos mais extremos, matam.

Desde que o meio de transporte foi introduzido há dois anos, durante a pandemia de covid-19, quatro pessoas foram mortas enquanto se movimentavam nelas, segundo Eugenio Patane, vereador de mobilidade da Câmara Municipal de Roma. As salas de emergência da cidade tratam pelo menos um ferido grave relacionado com as scooters a cada três dias, acrescentam as autoridades de saúde. No entanto, apenas 2% (cerca de 270) das trotinetes são utilizadas diariamente.

A Câmara Municipal de Roma concedeu licenças a sete empresas responsáveis pela mudança de baterias, realização de reparações, deslocação das trotinetes para zonas de grande tráfego cidade. Na realidade, são as trotinetes que não estão em uso que representam o maior desafio, especialmente para as pessoas com dificuldades de locomoção.

Em declarações à CNN Internacional, Giuliano Frittelli, representante da União Italiana de Cegos e Deficientes Visuais, descreveu que navegar com a sua bengala em torno de meia dúzia de trotinetes espalhadas pelas ruas é uma armadilha mortal.

“O primeiro problema é o estacionamento selvagem“, aponta Frittelli, explicando que a sua forma invulgar também torna fácil para alguém com visão reduzida tropeçar nos ditos objetos. Ele também diz que, por as trotinetes serem elétricas, são silenciosas, o que também constitui uma ameaça para aqueles que não conseguem ver.

Não as ouvimos, o que nos impede de as contornar”, diz Frittelli, recordando um incidente em que uma trotinete passou tão perto de uma pessoa cega que o seu cão-guia assustado saltou do passeio, causando aquilo o que ele caracterizou como “uma série de sustos” que, felizmente, não acabou em danos físicos.

O organismo de Frittelli está a trabalhar com a Câmara Municipal de Roma para tornar obrigatório que os veículos sejam estacionados apenas em espaços designados. Outro objetivo passa por fazer com que estes produzam um nível de ruído de pelo menos 30 decibéis, para que possa servir de aviso da sua abordagem. O ativista diz que não são apenas os deficientes, incluindo os que se encontram em cadeiras de rodas, que lutam para utilizar as ruas quando as calçadas estão cheias de trotinetes. Os idosos e os pais que empurram carrinhos de bebé também são afetados.

O vereador da Câmara Municipal de Roma Eugenio Patanè concorda. À mesma fonte explicou que a partir de 1 de Janeiro de 2023, a cidade renovará a licença para apenas nove mil trotinetes elétricas e reduzirá para três o número de empresas autorizadas a alugá-los.

O responsável acrescentou que a cidade também planeia exigir que uma percentagem das scooters seja colocada nos subúrbios e outras áreas para que os cidadãos regulares possam usá-las como transporte das estações de metro até às suas casas ou fazer recados rápidos sem usar o carro. “São um perigo para as pessoas, mas são também um problema para a cidade, para a beleza da cidade”, reconheceu Patanè. “O centro da cidade é um património da UNESCO e é muito frágil e nós temos de cuidar dele”.

No início de junho, dois americanos foram multados em cerca de 800 dólares por atirarem trotinetes pelos degraus da Piazza di Spagna , causando cerca de 26.000 dólares em danos no frágil mármore que constitui o monumento. O incidente foi captado pelas câmaras de segurança e por transeuntes que viram um dos turistas a atirar a pesada lambreta de metal, capturando o som da mesma a chocar com os degraus.

  ZAP //

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