À entrada para o primeiro round, houve acusações de cinismo e falou-se do “papão” e “ciganofobia”

Miguel A. Lopes / Lusa

O secretário-geral do Partido Socialista, António Costa no final de uma ação de campanha eleitoral em Espinho.

O secretário-geral do Partido Socialista (PS), António Costa no final de uma ação de campanha eleitoral em Espinho.

Na antecipação do primeiro round destas eleições legislativas, os partidos disparam a primeira ronda de cartuchos para apelar ao voto.

Mais de 315 mil eleitores que se inscreveram para votar antecipadamente para as legislativas podem fazer hoje as suas escolhas. Este sábado, os partidos fizeram as últimas considerações e apelaram ao voto.

O secretário-geral do PS advertiu que Portugal não está em tempo de aventuras políticas, que ainda hoje mais 58 mil cidadãos foram infetados pelo SARS-CoV-2, e defendeu que desde 2016 há gestão responsável das contas públicas.

Estas mensagens foram transmitidas por António Costa no discurso com que encerrou o comício do PS que se realizou na Expocenter, em Viseu, após discursos do presidente da Federação, José Rui Cruz, e do cabeça de lista socialista por este círculo eleitoral, João Azevedo.

“Não estamos em tempo de aventuras, o país já sofreu muito nos últimos dois anos. O país ainda está a sofrer muito. Ainda hoje houve mais 58 mil pessoas que foram infetadas pelo vírus. Continuamos, infelizmente, a aumentar o número de pessoas que estão a falecer com covid-19”, apontou o líder socialista.

Ora, segundo o líder socialista, esta situação “já é suficientemente dura”, com “uma crise económica e social que é preciso ultrapassar e uma crise política que agora também é preciso resolver”.

Se Pedro Nuno Santos é o “papão”, vote Costa

O dirigente socialista Pedro Nuno Santos afirmou hoje que, se o líder social-democrata, Rui Rio, acha que ele é um “papão”, então vote em António Costa para evitar uma alegada radicalização à esquerda do PS.

“Se o doutor Rui Rio acha que eu sou um papão, então só tem uma solução: votar em António Costa”, afirmou Pedro Nuno Santos, com o líder socialista a seu lado a reagir com uma gargalhada.

No frente a frente televisivo com António Costa, o presidente do PSD advertiu que o atual primeiro-ministro pode não formar Governo mesmo em caso de maioria relativa do PS, dando então lugar a Pedro Nuno Santos, que classificou como fazendo parte de uma ala radical à esquerda.

Pedro Nuno Santos frisou que o “Governo tem objetivamente melhorado a vida das pessoas e aquilo que a direita e o PSD” prometem “é uma travagem brusca na melhoria das condições de vida dos portugueses”.

Questionado sobre o seu futuro na liderança do PS, Pedro Nuno Santos respondeu: “Por amor de Deus, estamos numa campanha muito importante com o melhor político português a candidatar-se a primeiro-ministro. O que temos de fazer é assegurar uma grande vitória no dia 30”.

Rio acusa Costa de “mentira”

O presidente do PSD, Rui Rio, acusou António Costa de mentir e de “enganar objetivamente as pessoas” relativamente à proposta social-democrata de aumentar a participação da sociedade civil nos conselhos superiores de justiça.

Na iniciativa “Conversas Centrais” que decorreu hoje em Aveiro e que foi dedicada ao tema da justiça, Rui Rio explicou que o documento proposto pelo PSD tem como “linha laranja” – ou linha vermelha – que, na composição dos conselhos superiores de justiça, “a maioria não deve ser de magistrados, devem ser de fora para que haja uma maior transparência”.

“Quando nós ouvimos o doutor António Costa vir dizer que isto significa por o poder político a controlar os tribunais, quem é investigado, como é investigado, quando é investigado e que sentença é dada, isto é uma mentira que ele sabe que é uma mentira, como é evidente, e que está a enganar, mas está objetivamente a enganar as pessoas”, afirmou o líder do PSD.

Rio acrescentou ainda que, num debate televisivo, o ainda primeiro-ministro disse ter “alguma vantagem” sobre si nesta área, da justiça.

“Claro que tem, ele é jurista e até já foi ministro da Justiça e eu nem sequer sou jurista, claro que tem essa vantagem. Mas a vantagem técnica que ele possa ter não chega para me enganar e para eu perceber que ele está a tentar enganar-me a mim e a enganar as pessoas todas”, sublinhou.

O presidente do PSD assegurou que, se vencer as eleições, não irá ficar de “braços cruzados” nem “ter medo” de reformar o setor da Justiça, e desafiou quem concorda que este setor funciona mal a votar no PSD.

“A grande diferença relativamente ao PS nesta matéria é esta; nós dizemos que a justiça está muito mal, eles dizem que a justiça está bem. Se o PS acha que a justiça está bem e com umas coisitas pequenas vai ao sítio, está desde já aqui uma razão fundamental para votar no PSD e não votar no PS, a não ser que as pessoas achem mesmo que a justiça está bem”, desafiou Rui Rio, numa sessão de esclarecimento em Aveiro.

Pedidos a Ventura para “deixar de ser racista”

A arruada do Chega em Braga foi interrompida por uma mulher cigana que pediu a Ventura para “deixar de ser racista”, com o líder do Chega a alegar que “muitos ciganos” não trabalham, apesar de estudos apontarem no sentido contrário.

“Não pode ser racista para os ciganos, que somos seres humanos como os outros. Todos trabalhamos”, disse Fátima Romero, que decidiu furar a comitiva do Chega, com algumas dezenas de pessoas, para confrontar André Ventura.

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O líder do Chega insistiu que não é racista e que o que o seu partido quer é “que os ciganos trabalhem” como “todos os outros”.

“Mas nós trabalhamos. A sua etnia também tem uns que trabalham e outros que não trabalham”, respondeu a mulher, de 58 anos.

“Sabe que isso não é verdade”, contrapôs André Ventura, insistindo que “há muitos ciganos que não trabalham”, apesar de um estudo de 2015 encomendado pelo Alto Comissariado para as Migrações concluir que a maioria das pessoas daquela etnia trabalha e de um relatório do Instituto da Segurança Social de 2008 referir que apenas 3,9% das famílias beneficiárias de Rendimento Social de Inserção (RSI) à época eram de etnia cigana.

O presidente do Chega reafirmou que é contra “uma privatização selvagem” da TAP “à moda da Iniciativa Liberal”, mas defende que a companhia tem de servir não apenas Lisboa, mas todo o território nacional.

“Dissemos desde o início que não aceitaríamos uma total destruição da TAP nem uma privatização selvagem da TAP, que não olhasse aos interesses nacionais”, afirmou o líder daquele partido de extrema-direita, que falava aos jornalistas à chegada ao jantar-comício do Chega na Alfândega do Porto.

André Ventura frisou que o partido sempre defendeu que o plano de reestruturação da companhia que foi entregue em Bruxelas não tornasse a TAP “numa companhia de Lisboa, mas que fosse uma companhia bandeira para o país todo, nomeadamente com rotas estratégicas no Porto, mas também em Faro”.

Convicções da IL “não estão à venda”

O presidente da Iniciativa Liberal (IL) garantiu hoje que as suas convicções “não estão nem nunca estarão à venda” e que, a 30 de janeiro, há uma escolha “clara” entre a estagnação e arrogância ou o crescimento e mudança.

Num comício no Mercado de Santa Clara, em Lisboa, e perante uma sala repleta de militantes, João Cotrim Figueiredo explicou que, nas eleições legislativas, de um lado está a estagnação e a resignação e do outro o crescimento e a ambição que os liberais defendem, sendo uma “escolha óbvia”.

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Continuando a demonstrar as diferenças, o liberal reforçou que há aqueles que são “arrogantes e achavam que as eleições estavam ganhas” e os “humildes” que trabalham para conquistar cada voto, sublinhando que é nestes últimos que a IL se enquadra.

Há ainda, acrescentou, aqueles partidos que se querem “agarrar ao poder com todas as forças” e aqueles que veem no exercício do poder uma oportunidade para colocar Portugal a crescer que, disse, é aquilo que a IL propõe.

“Há alguém que defende o futuro e esse alguém é a Iniciativa liberal”, sublinhou.

CDU acusa PS de “enorme cinismo”

O dirigente comunista João Oliveira acusou o PS de “um enorme cinismo e hipocrisia”, por falar sobre a semana de trabalho de quatro dias em período eleitoral, e insistiu que há “arranjinhos” em curso com o PSD.

“Vir agora, em tempo de campanha eleitoral, dizer que se quer refletir sobre a semana de quatro dias de trabalho é de um enorme cinismo e hipocrisia, quando ao mesmo tempo se empurram milhares de trabalhadores para bancos de horas que lhes roubam tempo roubam tempo para a família, desorganizam a vida e prejudicam a saúde”, disse João Oliveira, durante um comício em Almada.

Na segunda-feira, durante encontro organizado pelas Mulheres Socialistas, em Lisboa, o secretário-geral do PS e primeiro-ministro, António Costa, considerou que a semana de quatro dias de trabalho é um “debate que é necessário fazer”.

Para o PCP, não é só na semana de trabalho de quatro dias que se vê a “hipocrisia” no discurso dos socialistas, apontou o membro da Comissão Política do Comité Central do PCP.

Na opinião de João Oliveira, há uma dissonância entre as palavras e as intenções de António Costa: “Não se combate a direita dizendo mal em palavras, ao mesmo tempo que se admite vir a fazer arranjinhos com a mesma direita que se diz querer combater”.

“Chicão” não se preocupa com liderança do partido

O presidente do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, considerou que estas legislativas vão ser uma “prova de vida” do partido mas rejeitou estar “preocupado com a liderança”, afirmando-se “completamente solto e completamente livre” nas funções.

Em declarações aos jornalistas no final de uma ação de contacto com a população em Caminha, distrito de Viana do Castelo, o líder centrista considerou que “o CDS vai ter uma prova de vida nestas eleições legislativas”.

“Mas estamos claramente com muito ânimo, com muita confiança de uma vez mais crescermos e afirmar-nos nas urnas com os votos dos portugueses, como sempre fizemos ao longo da nossa história”, salientou.

Questionado se esta é também uma prova de vida para a liderança do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos deixou uma garantia: “Eu não estou preocupado com a liderança do CDS, nunca estive. Eu estou completamente solto e completamente livre nestas funções”.

E defendeu que quando vai “a votos, vai o partido inteiro, e o sucesso da liderança do partido é o sucesso do CDS”.

PAN admite aproximação a partidos

A líder do PAN, Inês Sousa Real, admitiu hoje que “a linha da sensibilidade” que permita a concretização de medidas na área da proteção animal pode aproximar o partido de outras forças políticas.

“É, sem dúvida, uma linha da sensibilidade”, afirmou Inês Sousa Real, depois de questionada pelos jornalistas sobre se o apoio ao PAN para o avanço de medidas de proteção animal pode permitir um possível entendimento com outros partidos.

Falando à margem de uma visita à sede da Sociedade Protetora dos Animais, em Lisboa, a porta-voz do Pessoas-Animais-Natureza (PAN) disse que existe agora “um marco temporal” na história para se darem “saltos civilizacionais”.

“Portugal deve estar e pode estar na vanguarda da proteção animal”, sublinhou.

Catarina Martins contra “lei da selva” da direita

A coordenadora bloquista, Catarina Martins, garantiu que, “onde a direita quer a lei da selva”, será “a força do BE que vai defender quem trabalha”, recusando que a legislação laboral trate os jovens como “carne de canhão”.

No Porto, círculo eleitoral pelo qual Catarina Martins volta a ser cabeça de lista nas eleições legislativas de 30 de janeiro, o BE promoveu esta tarde um dos maiores comícios até agora desta campanha, com um discurso duro apontado à direita e com foco nos mais jovens e na legislação laboral.

“A mentira da direita de que o que falta às gerações mais jovens para não viverem com o coração nas mãos, do contrato de trabalho que nunca chega ou do salário que nunca chega, depende do mérito ou da qualificação ou de ser um colaborador disponível, é só mesmo isso: uma mentira para o abuso, uma mentira para manter quem trabalha sem direitos, para manter quem trabalha sem salário e é contra a mentira que aqui estamos”, afirmou, prometendo lutar “por um país com direitos”.

Para Catarina Martins, “um estágio é um estágio” e depois deste “tem de vir um contrato de trabalho”, criticando ainda o longo período experimental em vigor e os contratos a prazo sucessivos.

Tavares alerta para “ciganofobia”

O dirigente do Livre Rui Tavares alertou hoje em Almada para o perigo de propostas que pretendem aumentar os níveis de preconceito contra a comunidade cigana em Portugal.

Sem mencionar o nome de nenhum partido, o cabeça de lista do Livre por Lisboa, que esteve hoje numa sessão pública no Parque da Paz, em Almada, começou por lembrar a “importância do legado de Joaquim Benite”, fundador do Teatro de Almada falecido em 2012, que se orgulhava das suas raízes ciganas.

“Sabemos que há partidos que têm propostas de exclusão que são muitas vezes centradas no aumento do preconceito contra uma das comunidades que já sofre de mais preconceito secular em Portugal. Têm propostas que pretendem aumentar os níveis de ‘ciganofobia’ neste país”, disse no discurso que fez na sessão com os seus apoiantes.

O fundador do Livre fez questão de aludir à última vez que conversou com o encenador e diretor, dando-o como exemplo de alguém que muito contribuiu para a cultura. “Na última conversa que tivemos demonstrava um grande orgulho na sua autoidentificação e nas suas raízes como pessoa cigana. Nos anos 90 tive a sorte de conhecer uma pessoa muito importante para a cultura de Almada e que tem o seu nome no Teatro desta cidade. Joaquim Benite foi alguém que fez cultura e ajudou a construir a esfera pública e política desta cidade”.

Rui Tavares, que teve ao seu lado Paulo Muacho, cabeça de lista por Setúbal do Livre, considerou que nas últimas legislativas foi “esbanjada” a maior maioria de esquerda de sempre.

  ZAP // Lusa

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