E se a resposta para a prevenção do cancro for lavar os dentes?

Vários estudos indicam que uma bactéria oral pode aumentar o risco do desenvolvimento de cancro na boca e no pescoço. Quando entra na corrente sanguínea, a Fusobacterium nucleatum também pode influenciar o surgimento de tumores noutras partes do corpo.

Parece que a cada dia que passa, sai mais um estudo sobre algum alimento ou hábito que causa cancro – e também sobre o que podemos fazer para o evitar. Há agora uma nova hipótese que podemos juntar a esta longa lista: e se lavar os dentes puder ajudar a prevenir o cancro?

Esta ligação aparentemente estranha explica-se com a presença de uma bactéria oral em vários tumores, revela a The Scientist. Um exemplo são os cancros da cabeça e do pescoço, muito ligados ao tabaco e consumo de álcool.

No entanto, muitos pacientes destas doenças não têm esses hábitos, estando agora os cientistas a apontar para uma possível relação com a gengivite, já que vários estudos concluíram que a periodontite – uma infecção bacteriana nos tecidos à volta dos dentes – é um factor de risco nestes cancros.

Um estudo publicado no ano passado também mostrou que ratos infectados com bactérias orais também desenvolveram mais e maiores tumores do que aqueles que não tinham sido infectados.

Das cerca de 700 bactérias que vivem nas nossas bocas, já uma suspeita principal, a Fusobacterium nucleatum, mas faltam mais estudos para se ter provas concretas da sua relação com um maior risco de cancro.

Estima-se que cerca de 20% dos tumores humanos estejam ligados a bactérias, depois de ter sido descoberta uma relação entre o cancro do cólon e a bactéria H. pylori nos anos 90. A presença de bactérias orais em doentes com cancro também é maior nos tumores do que nos tecidos normais.

Não há ainda certezas sobre se esta relação é causal ou apenas uma correlação, mas há pistas, com estudos a mostrar que há números elevados de F. nucleatum e de cancro em partes do corpo onde normalmente não se encontram bactérias.

Os cientistas supõem que a bactéria chega da boca até às outras partes do corpo onde se detectam cancros, como o cólon ou a mama, quando entram na corrente sanguínea através de sangramentos nas gengivas.

Outro mecanismo importante é a ligação da F. nucleatum à molécula de açúcar Gal-GaINAc que é abundante na superfície de muitas células de cancro. Quando se liga, a bactéria pode ajudar o cancro a progredir de várias formas.

Também há provas que as proteínas exprimidas pela bactéria interferem com processos de sinalização celular, o que pode influenciar a progressão dos tumores. Alguns estudos mostram que a bactéria pode acelerar a proliferação das células do do cancro e diminuir os níveis das proteínas que reparam o ADN.

A inflamação também pode ter um papel, já que a F. nucleatum cria uma resposta imunitária inflamatória forte, e a inflamação crónica está associada ao cancro em várias partes do corpo.

Mesmo sem provas ainda concretas de causalidade, nada impede a aplicação de tratamentos contra a F. nucleatum. Um dos maiores desafios é criar um antibiótico específico contra esta bactéria e que não elimine outras que nos beneficiam e que até ajudam o nosso corpo na luta contra o cancro.

A criação de uma vacina também pode ser a solução. Se a bactéria estiver mesmo a causar o desenvolvimento de tumores por todo o corpo, uma vacina poderia ser revolucionária e ajudar a prevenir vários tipos de cancro ao mesmo tempo, desde a boca, a mama ou o cólon.

  Adriana Peixoto, ZAP //

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