Presidenciais no Chile. Millennial e esquerdista, Boric derrota Kast, o adepto de Pinochet

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Elvis Gonzalez / EPA

Gabriel Boric, vencedor das eleições no Chile

Os candidatos na segunda volta representavam um Chile polarizado entre a extrema-direita e o grito de revolta pelo fim do neoliberalismo que começou em 2019. No fim, o esquerdista Gabriel Boric levou a melhor.

Antecipava-se um confronto renhido, mas Gabriel Boric vai mesmo ser o novo Presidente do Chile. O jovem deputado esquerdista, apoiado pela Frente Ampla e pelo Partido Comunista, venceu a segunda volta das presidenciais, tendo conseguido 55,87% dos votos com 99,95% das mesas de voto apuradas.

O adversário de Boric, o advogado de extrema-direita e adepto de Jair Bolsonaro Jose Antonio Kast, ficou-se pelos 44,13% dos votos. Um católico devoto e pai de nove filhos, Kast cresceu nas sondagens depois de ter conseguido apenas 8% dos votos em 2017 com um discurso baseado nos valores conservadores e anti-imigração.

O seu registo político marca também ataques à comunidade LGBT e o apoio a leis do aborto mais restritivas. O irmão de Kast era também um dos principais conselheiros de Pinochet, tendo o candidato já manifestado a sua admiração pelas políticas da antiga ditadura chilena.

As eleições marcavam assim a escolha entre um futuro de viragem à esquerda ou uma continuação do status-quo neoliberal e ainda mais conservador, tendo o ex-líder estudantil e um dos rostos da contestação dos enormes protestos que começaram em 2019 saído vencedor. Gabriel Boric, de 35 anos, vai tomar posse a 11 de Março.

No seu discurso de vitória, o novo Presidente eleito falou dos mesmos temas que já tinham marcado a sua campanha eleitoral e que eram bandeiras das manifestações contra as políticas neoliberais do país, como a saúde, o ambientalismo, o feminismo ou as pensões.

Entre as “mudanças profundas” que os chilenos podem esperar, está a luta contra as alterações climáticas com o bloqueio a um novo projecto de uma mina naquele que é o maior produtor de cobre do mundo.

Perante uma multidão de jovens apoiantes em Santiago, Boric também prometeu acabar com o sistema privado de pensões do Chile, uma medida onde ainda se nota o legado das políticas económicas neoliberais da ditadura de Pinochet.

“Somos uma geração que emergiu da vida pública a exigir que os nossos direitos sejam respeitados enquanto direitos e não sejam tratados como bens de consumo ou um negócio. Sabemos que continua a existir uma justiça para os ricos e uma justiça para os pobres e não vamos continuar a permitir que os pobres continuem a pagar o preço da desigualdade no Chile”, discursou.

O político, que vai ser o mais jovem Presidente moderno do Chile e apenas segundo Presidente millennial da América Latina, depois de Nayib Bukele, do El Salvador, também sublinhou o papel das mulheres na sua campanha, prometendo que vão ser “protagonistas” no novo governo que vai “deixar para trás de vez a herança patriarcal da sociedade”.

No tradicional diálogo que marca as eleições chilenas, em que o Presidente cessante, Sebastián Piñera, felicitou o vencedor das eleições, Boric também garantiu que vai unir o país e ser “o Presidente do Chile de todos os chilenos e chilenas“.

Numa mudança de tom depois de uma campanha polarizada e tensa e onde atacou a inexperiência de Boric, Kast reconheceu a derrota. “Acabei de falar com Gabriel Boric e felicitei-o pelo seu grande triunfo. Hoje é o Presidente eleito do Chile e merece todo o nosso respeito e a nossa colaboração construtiva. O Chile está sempre em primeiro lugar”, escreveu no Twitter.

Além da tarefa de unir um país polarizado, o novo Presidente tem já alguns desafios à sua espera, com as mudanças nas regras políticas que se antecipam com redacção de uma nova Constituição às mãos de uma convenção, depois de um plebiscito nacional ter votado para rasgar o actual documento, ainda da era de Pinochet.

Boric quer também introduzir um modelo económico semelhante à social-democracia europeia no Chile, com um maior foco no combate às desigualdades e na criação de um Estado social mais forte.

Depois de um aumento na popularidade dos líderes de direita na América Latina na última década, as eleições no Chile juntam-se a outros sufrágios recentes nas Honduras, no Peru ou na Bolívia, que estão a assinalar o regresso das forças de esquerda ao continente.

  Adriana Peixoto, ZAP //

19 Comments

  1. «o grito de revolta pelo fim do neoliberalismo»

    O neoliberalismo que transformou o Chile no país com melhor qualidade de vida de toda a América Latina (não é opinião, é um dado estatístico).

    • Melhor qualidade de vida… em média. O sol não nasce para todos no Chile. E se até há uns anos parecia que o neoliberalismo era um retumbante sucesso, crises como a das aposentadorias mostraram o que já todos deveríamos saber: políticas muito à direita ou muito à esquerda até podem brilhar no curto e médio prazo, mas um dia os exageros são cobrados.

    • Hahahahaaa… não fazes mesmo ideia do que se passa no Chile!…
      Eles até as pensões privatizaram (primeiro país a privatizar o fundo de pensões!) e, correu tão bem que agora, milhões de chilenos practicamente não têm pensão!!
      Os neoliberais fizeram desaparecer o dinheiro do fundo e, como acontece sempre, tem que ser o Estado a resolver o problema e a pagar a conta – daí o resultado destas eleições.
      Entretanto, muita gente no Chile (e nos EUA, etc) ficou (ainda) mais rica com a desgraça dos trabalhadores chilenos aposentados!…

      • Não há qualquer problema com o sistema de pensões chileno. É aliás muito mais sustentável do que o sistema de pensões português.
        O que se passou é que, como medida de alívio durante a crise pandémica, o governo chileno autorizou as pessoas a levantarem parte do seu fundo de pensão. A corrida aos fundos foi grande e fez com que estes tivessem perdido 25% da sua capitalização. Mas todos os pagamentos foram honrados, e continuarão a ser honrados. O sistema de pensões chileno é sólido.

        • “Não há qualquer problema com o sistema de pensões chileno”
          “O sistema de pensões chileno é sólido.”
          Ehehehe… afinal estás mesmo a concorrer para a piada do ano!
          Melhor só o M. Mendes a “garantir” na SIC que o BES era sólido!…
          As revoltas sociais e o resultado destas eleições já dizem tudo sobre como correram as privatizações das pensões (etc, etc)… mas vai lá tentar explicar essa tua teoria aos chilenos e pode ser que acordes para a realidade…

  2. O Chile é o país da OCDE com um maior índice de desigualdade, com o rendimento do segmento mais rico 13,6 vezes superior ao do segmento mais pobre. Como de costume, o neo-liberalismo é bom para os ricos e mau para os pobres. Mas quem só se interessa pelos ricos está-se nas tintas.

    • Cuba é o país da América Latina com mais igualdade.
      No entanto, pergunte a qualquer latino-americano onde prefere viver: se em Cuba ou no Chile…

      • É possível que não saibas mas Cuba é uma ditadura… o Chile já não é…
        Provavelmente o país da América Latina com mais igualdade é o Uruguai e, é melhor do que Chile em practicamente TUDO!!
        Actualmente até tem um PIB per capita superior ao do Chile – o que mostra mais uma vez o belo resultado do neoliberalismo chileno!!

        • O próprio facto de estarmos a discutir se o Chile é o primeiro ou o segundo país com melhor qualidade de vida de toda a América Latina já é, em si, uma demonstração que as políticas económicas aplicadas no Chile foram bem sucedidas. Se o “neoliberalismo” fosse assim tão mau, o Chile andaria, quando muito, pelo meio da tabela.

          No mais recente Índice de Desenvolvimento Humano publicado pela ONU, o Chile estava em 43ª posição enquanto que o Uruguai estava em 55ª (consultar https://en.wikipedia.org/wiki/Human_Development_Index).

          Por isso não, não é evidente que o povo uruguaio viva melhor do que o chileno.

          Também não é por ser uma ditadura que as pessoas não querem ir viver para Cuba. O Qatar, os Emiratos Árabes Unidos e até a China também são ditaduras e há muitas pessoas interessadas em irem morar para lá. Ninguém quer ir morar para Cuba porque é uma economia que simplesmente não oferece boas condições de vida à população.

          • É cada vez mais claro que tu não fazes minima ideia da realidade chilena (e não só)…

            O Uruguai é melhor que o Chile e em TUDO e tal como referi antes, até no pib per capita está à frente do Chile!

            Há rankings para todos os gostos. Eu conheço minimamente a realidade de ambos os países e, na verdade nem são comparáveis… o povo uruguaio vive MUITO melhor do que o povo chileno!!

            Um ranking mais actual:
            America: Quality of Life Index by Country 2021
            1 United States
            2 Canada
            3 Puerto Rico
            4 Uruguay
            5 Costa Rica
            6 Mexico
            7 Ecuador
            8 Panama
            9 Brazil
            10 Argentina
            11 Colombia
            12 Chile
            13 Peru

            Não conheço (nem nunca conheci/vi) uma ÚNICA pessoa interessada em viver nos Emirados, no Qatar e muito menos na China; quando muito podem querer ir lá trabalhar para ganhar algum dinheiro e voltar!
            Desses conheço alguns…

            • Um índice do Numbeo? Como contraponto ao Índice de Desenvolvimento Humano da ONU? LOL!
              Percebes zero do que falas.

              Estar interessado em trabalhar nos Emiratos, Qatar e China implica estar interessado em viver lá. Ou julgas que a maioria dos portugueses que vive na Alemanha não preferiria viver em Portugal com os rendimentos que aufere na Alemanha?!

  3. De enaltecer o reconhecer da derrota por parte de Kast, mostra ser mais conectado com a realidade e/ou ter mais escrúpulos do que Trump o Bolsonaro.

    • Meu caro
      Bolsonaro não perdeu nenhuma eleição.
      Pelo contrário, ganhou mesmo com fraudes a favor do Haddad.

      Sobre Trump, está muito mal informado sobre EUA.
      As FRAUDES a favor de Biden foram gigantescas, milhões, quer pelo software da empresa de voto eletrônico, quer por votos por email ( nem no quinto mundo) e votos sem eleitores em Biden descarregados por carrinhas.
      Há vídeos dessas fraudes.
      Vários Estados têm analisado as fraudes, e não é fácil porque a empresa do software recusa fornecer passwords e põe processos em tribunal.
      Claro que os governadores e Senado estaduais democratas têm criado muitos obstáculos.
      Mas já há decisões sobre as fraudes.
      Alguns eleitos para cargos menores em vários estados já foram substituídos por eleitos legais sempre mudando de democratas para republicanos.
      Há várias pessoas condenadas e presas por fraudes.
      E mais importante.
      O ESTADO DO ARIZONA JÁ CONCLUIU QUE AS FRAUDES DERAM A VITÓRIA A BIDEN, E QUE SEM VOTOS FRAUDE, TERIA GANHO D. TRUMP.
      isto são dados oficiais.
      Já fizeram saber ao colégio eleitoral em Washington que os onze votos do Arizona foram ilegalmente atribuídos a Biden.
      Pesquise os sites oficiais do Arizona.
      Outros estados têm lutado contra a máfia da empresa de software e vão ganhando a guerra.
      Obviamente, essa empresa arrisca biliões de indemnização e prisão para os donos e autores das tecnologias de fraudes.
      Ainda só passou um ano.
      Muito ainda se vai saber

  4. Pelos vistos se bem não estavam pior ficarão a médio prazo nas mãos de uma extrema-esquerda, ainda não vi nenhuma brilhar em qualquer parte do mundo!

  5. Mais um país a caminho da FOME MISÉRIA tipo Venezuela.

    Podem ter a sorte da Argentina e mudar depois de abrirem os olhos…
    Eleger um lunático acéfalo com ideias arcaicas que só provocaram miséria fome e matanças em TODOS os países onde foi implantado… só mesmo com intoxicação intensa dos media e o papão do Pinochet..

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