Política chinesa torna uigures reféns nas suas próprias casas

A China introduziu, em 2016, uma política de parentesco para promover a harmonia nacional e a unidade étnica, levando a que, desde então, mais de 1,1 milhões de funcionários do Estado ocupassem periodicamente as casas de 1,6 milhões de pessoas de diferentes grupos étnicos, em Xinjiang.

Esses dados foram publicados pela agência de notícias estatal chinesa Xinhua, em fevereiro. A medida, contudo, faz parte de uma repressão mais ampla aos uigures e às minorias étnicas em Xinjiang, que os Estados Unidos (EUA) e outras nações classificam como “genocídio”, acusação rejeitada pela China, noticiou a CNN.

Imagens do programa de estadia em casas de famílias, promovido na media estatal chinesa, retratam essa política como uma combinação de serviço comunitário e educação. Vídeos e publicações partilhados nas redes sociais de contas dos funcionários do Governo mostram estes e as famílias anfitriãs a cozinhar refeições juntos e a partilhar dormitórios.

Mas, de acordo com várias pessoas que fugiram de Xinjiang, os anfitriões são reféns no que diz respeito a esse programa. Um dos casos apontados pela CNN é o de Zumrat Dawut. De etnia uigur, fugiu da China em 2019 para escapar à repressão.

Segundo o seu relato, quatro “convidados” – funcionários do Governo chinês – ficaram em sua casa durante 10 dias, todos os meses, pelo período dois anos, antes de a família fugir. “Devíamos fingir que estávamos felizes”, explicou. “Se não o fizéssemos, o governo concluiria que éramos contra a política de ‘parentes'”.

Ex-residentes contaram que, no âmbito da medida, os funcionários são enviados para viver, trabalhar e dormir com famílias em Xinjiang por vários dias. A cada residente é designado um “parente” oficial. No caso de Dawut, hospedava quatro funcionários em sua casa, que seguiam a família pela moradia, fazendo perguntas e tomando notas.

Os EUA estimam que dois milhões de pessoas de minorias muçulmanas passaram pelos centros de detenção. Em janeiro, o Departamento de Estado acusou a China de genocídio, apontando para uma vasta documentação que confirmava a escalada da campanha contra essas minorias. O Canadá, a Holanda e o Reino Unido concluíram o mesmo.

O Governo chinês, por seu lado, insiste que os campos são “centros de treino vocacional”, voltados para o alívio da pobreza e combate ao extremismo religioso.

Rian Thum, investigador da Universidade de Nottingham, em Inglaterra, especializado em história uigur, disse que o programa de estadia nas casas de famílias é uma parte importante da campanha da China em Xinjiang.

(dr) End Uyghur Forced Labour

Trabalho forçado dos uigures na província de Xinjiang, na China

Anteriormente, a Human Rights Watch já havia documentado casos de funcionários masculinos enviados para ficar em casas ocupadas por mulheres e crianças, tornando-as alvos para a violência sexual.

Em dezembro de 2017, a iniciativa do Governo ganhou outras proporções, quando funcionários de todos os níveis e departamentos foram enviados a Xinjiang para viver, trabalhar e aprender “com as massas”, de acordo com a media estatal.

Timothy Grose, professor de Estudos da China e especialista em política étnica do Instituto de Tecnologia Rose-Hulman, nos EUA, disse que documentos oficiais sugerem que os quadros não estão lá apenas para ensinar os habitantes locais a serem “mais civilizados”.

“Quando se examinam os documentos oficiais, fica muito claro que esses são, na verdade, programas para coleta e vigilância de inteligência humana”, referiu, apontando para um manual sobre a campanha, publicado pela Câmara de Kashgar em 2018, no qual os funcionários são instruídos a pregar leis antiterrorismo e antiextremismo para as famílias anfitriãs, e também ensiná-las a detetar possíveis sinais de atividade extremista.

“Há uma espécie de componente étnico-racial, já que as famílias uigures são vistas como retrógradas”, disse Darren Byler, investigador de pós-doutoramento do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade do Colorado, nos EUA. “É assim que são descritas no discurso do Estado chinês e no discurso popular”, completou.

E acrescentou: “Do ponto de vista dos anfitriões desses parentes, está muito claro que essas pessoas enviadas para as suas casas estão lá para os monitorizar, que os espionam, que estão a certificar-se de que cumprem as regras”.

Para Thum, o programa é um “projeto combinado de doutrinação e monitorização”, removendo o último resquício de privacidade que resta nas casas dos uigures e de outras minorias em Xinjiang. “Eles vivem com medo, sob o sistema em que estão sujeitos a julgamento político em todos os aspetos da sua própria casa”, notou.

Já Grose sublinhou que essas estadias “são parte de um esforço mais amplo e violento” para alterar a cultura e “assimilar os uigures”.

Taísa Pagno //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Durante 4 anos os media estiveram calados perante os abusos, económicos, financeiros, sociais, imperialistas da China. Agora que Trump, o maior crítico da China, saíu, já é legítimo e permitido criticar a China, que é das maiores ameaças à estabilidade e paz mundial. Falta porem a limpo também a promiscuidade da família Biden com a China.

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