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Poesia está de novo nas ruas sob a face de angústia colectiva

Escritora Maria Velho da Costa recebe o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores (foto: presidencia.pt)

Escritora Maria Velho da Costa recebe o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores (foto: presidencia.pt)

A escritora Maria Velho da Costa afirmou hoje que a poesia está actualmente nas ruas portuguesas sob “a terrível face de angústia colectiva” e vincou que todos os regimes totalitários consideram “perigosa” a literatura.

Estas ideias foram transmitidas por Maria Velho da Costa, após receber o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores, na Cultugest – cerimónia que contou com a presença do Presidente da República, Cavaco Silva, e do secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, ao qual a escritora não se referiu quando apresentava os agradecimentos.

“Aguentei os desconcertos do ‘verão quente’ de 1975 e suas sequelas. A poesia já não estava na rua, nem voltou a estar, excepto hoje sob a sua terrível face de angústia colectiva”, disse Maria Velho da Costa no final do seu discurso.

No final da cerimónia, a escritora aprofundou essa referência e explicou aos jornalistas como encara a situação social actual do país.

“As manifestações são uma forma de poesia de rua – uma poesia negra, tristíssima. É a voz do povo como foi no 25 de Abril”, defendeu.

Na sua intervenção, Maria Velho da Costa surpreendeu boa parte dos presentes na cerimónia ao dizer que pretendia abandonar o labor da escrita, mas nunca a sua ligação profunda à literatura.

No entanto, instantes depois, já em declarações aos jornalistas, a escritora relativizou o alcance da sua ideia de parar de escrever, usando então o humor para frisar que essa sua posição vale tanto como “o irrevogável” do actual vice-primeiro-ministro Paulo Portas.

Num discurso curto, que antecedeu o do Presidente da República, Maria Velho da Costa salientou que a literatura não é só a escrita, mas, igualmente, “o poder da palavra e o seu gosto, descrita ou dita por aqueles que a falaram, escreveram e inscreveram em nós um modo de ser para a escrita”.

“A literatura é por certo uma arte, um ofício, com o seu tempo de aprendizagem, treino, de escuta incansável, mas também a palavra no tempo, na história, no apelo do entusiasmo do que pode ser lido ou ouvido, a busca da beleza ou da exactidão ou da graça do sentir”, disse, antes de aludir ao carácter repressivo dos regimes totalitários.

“Os regimes totalitários sabem que a palavra e o seu cume de fulgor, a literatura e a poesia, são um perigo. Por isso queimam, ignoram e analfabetizam, o que vem dar à mesma atrofia do espírito, mais pobreza na pobreza”, acrescentou.

 

Cavaco Silva: Obra de Maria Velho da Costa é extraordinária

O Presidente da República classificou hoje como “extraordinária” a obra literária de Maria Velho da Costa, vincando que já condecorou a escritora em 2011 com o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.

Cavaco Silva falava na cerimónia de entrega à escritora Maria Velho da Costa do Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores (APE), que se realizou na Cultugest e que teve a presença do secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier.

Após os discursos dos presidentes da Caixa Geral de Depósitos, José de Matos, e da APE, José Manuel Mendes, o chefe de Estado salientou que o percurso de intervenção cultural de Maria Velho da Costa, ao longo de quase meio século, “é, de facto, extraordinário”.

“Os escritores como Maria Velho da Costa não têm uma carreira, têm uma obra. A sua história confunde-se com as histórias que nos deram através da palavra”, apontou o chefe de Estado.

Na sua intervenção, o Presidente da República referiu-se ao significado do primeiro romance de Maria Velho da Costa, Maina Mendes, considerando que retratou de forma apurada o ambiente social no final da década de 1960.

“Tive, por isso, o grato prazer de a condecorar em 25 de abril de 2011 com grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade”, disse.

Para o Presidente da República, os prémios atribuídos a Maria Velho da Costa, nomeadamente o Prémio Camões, em 2002, “são suficientemente eloquentes a respeito de uma obra que é de vanguarda, mas que, ao mesmo tempo, está profundamente enraizada na nossa história e dialoga com os textos maiores da literatura portuguesa”.

“A homenagem que lhe prestamos é também o testemunho da gratidão que lhe devemos pelo contributo que a sua obra representa para a vitalidade e a projeção da nossa cultura”, acrescentou.

/Lusa

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