Plantas fósseis (perfeitamente) preservadas indicam que a Gronelândia esteve sem gelo num período recente

Mark Garten / UN Photo

Icebergs em Ilulissat Icefjord, Gronelândia

Durante uma operação militar secreta, no decorrer da Guerra Fria, foi recolhida uma amostra de solo congelado que mais tarde acabou por revelar um segredo inesperado: plantas que podem ter um milhão de anos, mas que estão tão bem preservadas que “parecem que morreram ontem”. A descoberta pode fornecer novos detalhes sobre a Gronelândia.

Os cientistas do Exército dos EUA desenterraram o núcleo de gelo no noroeste da Gronelândia em 1966, no âmbito do do Projeto Iceworm, uma missão secreta que tinha como objetivo construir uma base subterrânea, onde os americanos conseguiriam estariam mais perto os movimentos estratégicos da União Soviética.

O Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA começou a construir Camp Century em 1959, e os cientistas supervisionaram a extração de um núcleo de gelo que media cerca de 3,4 metros de uma profundidade.

No entanto, o projeto Iceworm acabou por fracassar, por isso a base foi abandonada e o núcleo de gelo ficou esquecido num refrigerador na Dinamarca até ser redescoberto em 2017.

Em 2019, os cientistas investigaram o núcleo e descobriram fragmentos de plantas fossilizadas que podem ter florescido no local há mais de um milhão de anos.

O que isso significa?

“Encontrar os fósseis foi totalmente inesperado “, disse Andrew Christ, autor do novo estudo. O cientista contou ao Live Science que quando a equipa analisou o solo congelado conseguiu observar “coisinhas pretas” a flutuar na água, sendo que quando as analisou com o microscópico percebeu que eram plantas que “pareciam ter morrido ontem”.

Dorothy Peteet, Columbia University / Andrew Christ / UVM

Plantas fósseis foram preservadas debaixo do gelo da Gronelândia

Segundo o investigador, as plantas apenas podem ter crescido na Gronelândia se a camada de gelo tivesse praticamente desaparecido.

Com base nas taxas de isótopos, os autores do estudo perceberam que o solo – e as plantas que nele cresceram – viram a luz solar pela última vez há cerca de um milhão de anos, o que os leva a acreditar que “tínhamos um noroeste da Gronelândia sem gelo naquele período”, referiu Christ.

Com base em registos geológicos e na geoquímica oceânica, os cientistas afirmam que a atual camada de gelo da Gronelândia persistiu com o mesmo tamanho durante 2,6 milhões de anos.

No entanto, as novas descobertas indicam que o gelo desapareceu quase inteiramente da Gronelândia durante pelo menos um período no congelamento profundo mais recente, apresentando um limite até então desconhecido para a estabilidade do manto de gelo.

Atualmente, acredita-se que a cobertura de gelo da Gronelândia tenha quase 3 milhões de anos, mas os pequenos fragmentos da planta indicam o contrário, mostrando que em algum momento, nos últimos milhões de anos, grande parte da Gronelândia esteve livre de gelo. Nos dias de hoje, grande parte da Gronelândia é coberta por uma manta de gelo que se estende por 1,7 milhão de quilómetros quadrados.

Se a nova pesquisa for confirmada, e a maior parte do gelo da Gronelândia realmente desapareceu há relativamente pouco tempo, esse não é um bom sinal para a estabilidade da sua camada de gelo atual em resposta às mudanças climáticas causadas pelo homem.

De recordar que caso o gelo da Gronelândia derreta, os níveis do mar podem subir cerca de 7 metros, alertou a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) em 2019.

Esta situação seria capaz de inundar cidades costeiras em todo o mundo, explicaram os investigadores no novo estudo, publicado a 15 março na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

  Ana Isabel Moura, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Isso também nos informa que a dinâmica do clima terrestre pode ser bem mais complexa do que se pensava e também pode servir de argumento para relativizar o peso do impacto humano nessas variações climáticas, embora seja muito evidente que estamos a dar cabo disto tudo.

    • A humanidade esta atingindo numeros alarmantes. Estamos invando, destruindo, aniquilando e matando especies de plantas, animais e aves que por agora nao se da por isso… amanha e tarde.
      Concordo consigo.
      As guerras e doencas no passado controlaram a humanidade mas hoje com apoio da medicina, a populacao tem vindo a crecer exponencialmente em conta-mao com desaparecimentos de especies animais e plantas.
      Futuro e muito negro para todos…
      Minha questao e: porque sera que a Europa e estados unidos estao tao enteressados em explorar outos planetas e luas??? Porque somos muitos ca. Temos de enviar para fora alguns.

  2. Uma escavação tão improvável que foi abandonada, um resto de escavação tão sem importância que foi negligenciado, uma ‘sujeirinha’ que, por pouco, passaria desapercebida, podem levar a reavaliar a idade da cobertura de gelo de 3 para 1 milhão… Uma afirmação dada como “certeza científica”, subitamente desmentida… E se houver uma outra sujeirinha no gêlo a 2 metros de distância, que nunca descobriremos, indicando que são 100 mil e não 1 milhão?
    Em cima de “certezas convenientes”, constroem-se narrativas que não aceitam questionamento e impõem-se decisões sem direito de discussão.
    Ciência é a humildade de entender que o que sabemos é, SEMPRE, muito menos do que o que ainda não sabemos. Essa humildade nos obriga a não apenas tolerarmos mas valorizarmos os questionamentos e divergências. Mesmo quando erradas, nos obrigam a repensar, aprofundar, validar e estar abertos a mudanças de entendimento.

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