Pode Picasso ser “cancelado”? Na era do Me Too, as suas relações amorosas são vistas com outros olhos

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Entre raptos, traições, e espirais depressivas que levaram as suas musas ao suicídio, Pablo Picasso teve inúmeros relacionamentos tóxicos e abusivos ao longo da vida — e há quem não consiga separar a arte do artista.

Pode Pablo Picasso ser o próximo alvo da “cultura do cancelamento“? Bem, o historial do pintor espanhol com mulheres certamente não é dos melhores, especialmente numa era pós-Movimento MeToo, que veio despertado a sociedade para os perigos dos abusos de poder e assédio sexual.

Picasso foi casado duas vezes, teve pelo menos seis amantes e tinha uma tendência para abandonar as mulheres quando estas ficavam doentes. Para além disso, o cubista recorria a prostitutas frequentemente e algumas das suas relações tinham enormes diferenças de idades, lembra a AFP.

As musas de Picasso

A obsessão de Picasso com mulheres começou cedo, quando o pai do artista o levava a bordéis no sul de Espanha. A primeira mulher que marcou a vida do pintor e foi uma das suas musas foi Fernande Olivier.

Os dois conheceram-se em 1904 e tiveram uma relação de sete anos, sendo comum consumirem ópio juntos. A infidelidade de ambas as partes assombrou a relação, e os ciúmes de Picasso eram tantos que este alegadamente trancava Olivier no estúdio de ambos quando saía.

No verão de 1906, Picasso chegou a raptar Irene Lagut, uma mulher por quem nutria uma obsessão. Lagut acabou por conseguir fugir, mas acabou por voltar para o pintor de livre vontade, uma semana depois.

Os dois tiveram uma relação conturbada com muitas separações pelo meio e chegaram a decidir que se iam casar em 1916 — mas, em cima da hora, Lagut mudou de ideias e fugiu para Paris para se reencontrar com uma ex-namorada sua.

Já em 1917, o espanhol conheceu Olga Khokhlova, uma bailarina russo-ucraniana, com quem acabou por casar. Os dois tiveram uma relação tumultuosa e Picasso traiu a esposa com Marie-Thérèse Walter, sendo que este caso acabou por ditar o fim do casamento de ambos em 1935, quando a amante ficou grávida do pintor.

Olga pediu o divórcio, que Picasso recusou dar, tendo o pintor expressado a sua raiva contra a ex-mulher ao retratá-la em várias pinturas sob a forma de um cavalo a ser chifrado pela figura mitológica do Minotauro, que representava o artista.

Depois do desmoronamento do seu casamento, Picasso continuou a relação com Marie-Thérèse Walter. Dora Maar e Françoise Gilot seguiram-se, com a primeira a ter uma crise de saúde mental e a precisar de ajuda psiquiátrica quando o pintor a deixou para ficar com a segunda.

Jacqueline Roque foi o próximo alvo, tendo o pintor casado ela aos 79 anos quando esta tinha apenas 27. Os dois ficaram juntos até à morte de Picasso em 1973.

As revelações sobre o comportamento de Picasso nas suas relações amorosas começaram a ser públicas no início dos anos 2000, pela voz de Marina Picasso, neta do artista, que se queixou do sofrimento que o narcisismo do pintor trouxe à família.

“Ele submetia-as à sua sexualidade animal, domava-as, enfeitiçava-as, ingeria-as e esmagava-as nas suas telas. Depois de passar muitas noites a extrair a essência delas, depois de as ressacar, livrava-se delas”, descreveu Marina.

E há alguns sinais que comprovam estes comportamentos abusivos do pintor levaram a que duas das mulheres mais submissas com quem se relacionou — Marie-Thérèse Walter e Jacqueline Roque — entrassem numa espiral depressiva e acabassem por cometer o suicídio.

O artista tinha também uma tendência para abandonar as parceiras nos seus momentos mais difíceis, tendo começado a trair a primeira mulher depois desta ficar doente. Fernande Olivier ou Eva Gouel também sofreram o mesmo destino, sendo descartadas quando ficaram doentes ou deixaram de inspirar Picasso.

Para além disto, algumas das suas frases sobre o sexo feminino eram menos que simpáticas, com o artista a dizer que há apenas “dois tipos de mulheres: deusas e tapetes”, a comparar as mulheres a uma “máquina de sofrimento” ou quando afirmou que quando se separa de uma, tem de a “queimar” e “destruí-la”.

“Picasso, abusador de mulheres”

Há quem consiga separar a arte do artista, mas num mundo cada vez mais preocupado com questões de igualdade de género e saúde mental, há também grupos que protestam nos museus que exibem obras de Picasso.

No ano passado, uma professora de arte e os seus alunos fizerem um protesto silencioso no Museu Picasso, em Barcelona, ao usarem t-shirts com frases como “Picasso, abusador de mulheres” ou “Picasso, a sombra de Dora Maar“.

Já em 2018, a artista Emma Sulkowicz protestou ao usar um fato feito com asteriscos em frente a uma pintura de Picasso, numa referência ao movimento Explain The Asterisk, que combate a violência sexual.

“Obviamente, o movimento Me Too manchou o artista. Os ataques são sem dúdiva mais violentos porque Picasso é a figura mais famosa e popular na arte moderna — um ídolo que deve ser destruído”, afirma Cecile Debray, directora do Museu Picasso em Paris.

Para responder a este problema, os Museu de Paris está a promover debates enquanto que o de Barcelona está também a organizar workshops com historiadores e sociólogos sobre a relação de Picasso com as mulheres e, no geral, sobre como o mundo da arte encara o papel das “musas” na criação artística.

  Adriana Peixoto, ZAP //

2 Comments

  1. O que se passou no passado já lá foi. Não deve ser cancelado ou apagado, mesmo porque deve servir de exemplo para que se evitem certas situações no futuro. A história não deve ser apagada, para que os do futuro possam melhorar e aprender.
    As mulheres do picasso já devem estar todas mortas e elas é que tinham direito de protestar porque foram as visadas.

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