Pela primeira vez, uma pessoa viva com VIH doou um rim para transplante

Cirurgiões do Hospital Johns Hopkins, nos Estados Unidos (EUA), transplantaram um rim de um doador vivo com VIH positivo para um recetor também com VIH positivo, um avanço médico que esperam expandir para todos os órgãos e ajudar a mudar a perceção das pessoas sobre o vírus.

Segundo avançou o Science Alert no domingo, a doadora, Nina Martinez, de 35 anos, e o destinatário – que preferiu permanecer anónimo – estão a recuperar no hospital após a cirurgia, que ocorreu na passada segunda-feira. Pela primeira vez num ano, o recetor deixou de precisar de diálise renal.

Este procedimento é mais um passo na evolução do VIH – considerado como morte certa quando a epidemia de SIDA começou, em 1981 – e um avanço para 1,1 milhões de pessoas portadoras do vírus, indica a notícia, primeiramente divulgada pelo Washington Post.

Atualmente, a medicação pode suprimir a infeção a níveis indetetáveis ​​em muitas pessoas. Recentemente, o presidente dos EUA, Donald Trump prometeu acabar com a transmissão do vírus no país até 2030. Contudo, o estigma associado ao vírus ainda permanece.

“A sociedade vê pessoas como eu como indivíduos que trazem a morte”, disse Nina Martinez numa entrevista antes da operação. “E eu não consigo encontrar uma maneira melhor de mostrar que pessoas como eu podem trazer vida”, frisou.

A mulher, que contraiu o VIH numa transfusão de sangue quando era bebé, esteve presente numa conferência de imprensa para anunciar a cirurgia, a primeira do género. Aos jornalistas, contou que se sentia bem e que estava ansiosa para se preparar para a Maratona de Fuzileiros Navais, que decorre em outubro, em Washington.

“As pessoas com VIH não podem doar sangue, mas agora são capazes de doar um rim”, referiu Dorry Segev, professor de cirurgia na Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, que liderou a pesquisa e removeu o rim esquerdo de Nina Martinez.

“Têm uma doença que há 30 anos era uma sentença de morte. Hoje, são tão saudáveis ​​que podem dar vida a outra pessoa”, acrescentou.

Desde 2016, já foram transplantados 116 órgãos de doadores seropositivos falecidos para recetores com VIH, quando uma nova lei passou a permitir a cirurgia. Entre as pessoas sem VIH, mais de 152 mil rins de doadores vivos receberam transplantes nos últimos 30 anos e algumas centenas de fígados são transplantados a cada ano, lê-se no artigo.

Mais de 113 mil pessoas estão na lista de espera dos EUA para transplantes de órgãos, a maioria em busca de rins. Outros estão doentes demais para fazerem parte dessa lista ou são retirados da mesma quando a doença progride.

Até agora, deixar uma pessoa seropositiva com apenas um rim era considerado muito perigoso porque a infeção e os medicamentos que a controlam aumentam as ‘chances’ de desenvolver doença renal.

No entanto, um estudo realizado em 2017 com 42 mil pessoas, lideradas por pesquisadores da Universidade de Hopkins, mostrou que, para alguns portadores do VIH positivo o risco de desenvolver doenças renais graves não é muito maior do que para muitas pessoas VIH negativas, especialmente aquelas que têm determinados hábitos, como fumar.

O órgão de Nina Martinez foi implantado no recetor por uma equipa separada de cirurgiões, o procedimento normal no transplante. A operação foi realizada por Niraj Desai, professor assistente de cirurgia no Hospital de Hopkins.

O rim foi implantado próximo à pélvis do recetor, através de uma pequena incisão no abdómen, embora os seus rins não tenham removidos, ao contrário do que é a prática comum, declarou Niraj Desai.

Os recetores de rins podem esperar de 20 a 40 anos por um desses órgãos, apontou Dorry Segev, com aqueles que recebem doações de rins vivos a aguentar um pouco mais do que aqueles que recebem os órgãos de doadores falecidos. Após um determinado período, o recetor necessita de outro transplante ou volta a fazer diálise.

Nina Martinez e o destinatário permanecerão a tomar medicação anti-retroviral indefinidamente para controlar o vírus. Como podem ter diferentes variações do vírus e distintas resistências à medicação, os médicos vão monitorizar de perto o recetor nos próximos meses.

Este tomará igualmente medicamentos para evitar a rejeição do órgão, não se esperando que estes interfiram significativamente com os fármacos supressores do VIH.

Nina Martinez está com saúde física quase normal e a sua carga viral é indetetável. “A sua saúde é excelente. O seu vírus está bem controlado e o seu sistema imunológico é essencialmente normal”, disse Christine Durand, professora de medicina na Hopkins e membro da equipa que a avaliou.

Em 1983, Nina Martinez e sua irmã gémea nasceram prematuras, com 28 semanas, tendo desenvolvido anemia. Filha de um oficial da Marinha, foi levada para um hospital militar onde recebeu uma transfusão de sangue, nos dias que antecederam o teste para o VIH. Acabou por contrair o vírus, que só descobriu antes de uma cirurgia ao olho, aos oito anos.

Na escola, era observada para garantir que não representava perigo para as outras crianças, contou. Mais tarde, soube que um diretor perguntou: “Por que a estamos a educar com dinheiro público se vai morrer?”. Quando um colega de casa descobriu que Nina Martinez tinha VIH, saiu, deixando os seus pertences para trás.

“É uma grande alegria saber que estou a colocar uma história como essa por aí, porque essas pessoas precisam de reinício mental”, indicou.

Consultora de saúde pública em Atlanta, Nina Martinez estava ciente da lei que permite a cirurgia, aprovada em 2013. No ano seguinte, assistiu a um episódio da série televisiva “Grey’s Anatomy”, no qual os escritores inventaram uma história sobre um transplante de um doador VIH positivo vivo.

Quando um amigo seropositivo precisou de um rim, contactou o Hospital Hopkins para se voluntariar ao programa, que permitiu que se tornasse o primeiro doador no teste clínico. Mas o seu amigo acabou por morrer antes que ela pudesse doar o rim. Nina Martinez acredita que a sua escolha irá repercutir na lista de espera de transplantes.

Taísa Pagno TP, ZAP //

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