Um dos maiores painéis de arte rupestre do mundo foi descoberto em Foz Côa

Miguel Pereira da Silva / Lusa

Uma equipa multidisciplinar acredita ter colocado a descoberto um dos maiores painéis de arte rupestre ao ar livre, com cerca de 10 metros de comprimento, no sítio da Fariseu, no Vale do Côa, com a descida do caudal do rio.

Todo o trabalho começou em abril do ano passado, com a descoberta da maior gravura ao ar livre, representativa de um auroque (boi selvagem), gravada numa rocha no sítio do Fariseu, no Parque Arqueológico do Vale do Côa (PAVC), datada do Paleolítico Superior.

A ampliação da área de trabalho permitiu, como agora os investigadores sublinham, “perceber a relação da vida quotidiana do Paleolítico Superior com a arte do Côa”.



No ano passado, os trabalhos tiveram de ser suspensos devido à pandemia da covid-19, mas foram retomados em junho último, e o auroque começou a ser visitado por pequenos grupos que faziam o percurso a pé, a nado ou de canoa.

Os arqueólogos sempre acreditaram no potencial rupestre da designada “rocha 09” do PACV, que fica a cerca de 50 metros do rio Côa.

Os investigadores, para continuarem aos trabalhos arqueológicos, tiveram a colaboração da EDP, que baixou o caudal do rio Côa em dois metros, o que ajudou a colocar a descoberto aquilo que hoje é considerado um dos maiores painéis de arte rupestre ao ar livre de todo o mundo.

A última vez que o rio Côa baixou para a realização de sondagens arqueológicas foi em 2007.

“Aproveitamos os três dias de abaixamento das águas do rio Côa para dar continuidade aos trabalhos de descoberta da ‘rocha 09’ do Fariseu. Este trabalho deu-nos a oportunidade única de escavar sedimentos que por norma estão por baixo da água do rio”, explicou à Lusa o arqueólogo Thierry Aubry, da Fundação Côa Parque (FCP).

Segundo o arqueólogo, o painel onde se encontra ‘picotado’ o maior auroque do mundo, que inicialmente tinha 3,5 metros visíveis, com estas sondagens revelou uma extensão de 10 metros de comprimento.

“Este é o maior painel gravado com motivos rupestres existentes no Vale do Côa, com uma composição que demonstra um outro interesse científico, porque estamos num sítio privilegiado ao nível da arte rupestre”, vincou o investigador.

Outro dos passos dados foi perceber a composição do sítio rupestre e a forma de como os sedimentos taparam a rocha e todo o seu processo de datação geológica.

“Obtivemos resultados arqueológicos de que ninguém estava à espera, já que temos um painel de cerca de 10 metros de rocha gravada, o que é excecional. Esta escavação deu-nos a oportunidade de perceber a relação da vida quotidiana do Paleolítico Superior e arte do Côa, vincou Thierry Aubry.

Segundo o arqueólogo da FCP, os próximos passos vão no sentido de se fazer o diagnóstico de todo material recolhido, para “saber exatamente” o que a ocupação humana de milhares de anos foi deixando nestas camadas de sedimentos nas margens do rio Côa.

Durante os trabalhos de prospeção, todos os materiais extraídos das escavações foram minuciosamente analisados, lavados e catalogados, para se perceber a sua importância histórica, arqueológica e científica.

“Ao contrário das outras rochas, temos muitas fêmeas de auroque que caminham em sentido diferente do grande auroque macho, ou seja, em direção ao leito do rio Côa. Ficamos com [a impressão de] que estamos num desenho animado datado do Paleolítico Superior”, explicou.

Por seu lado, Cristina Gameiro, investigadora da Universidade de Lisboa, disse que foi importante reforçar a equipa de arqueólogos, já que conhece todo este potencial do sítio do Fariseu.

“Tivemos muito pouco tempo e tivemos de aproveitar estes três dias em que a EDP baixou o caudal da albufeira do Pocinho, porque se trata de um sítio muito importante do ponto de vista arqueológico, e encontrar artefactos que identificassem vários níveis de habitat do período do Paleolítico Superior”, indicou a investigadora.

Para Cristina Gameiro, há artefactos que “são difíceis de datar”, mas em compensação foram encontradas mais gravuras rupestres.

“São achados únicos num local único como é o Vale do Côa. Agora, é preciso identificar o modo de vida dos caçadores recoletores do Paleolítico Superior, que ocuparam este espaço”, disse a investigadora.

Já Cristina Araújo da Direção Geral Património Cultural (DGPC), da equipa de investigadores, é da opinião de que estas escavações “são importantes para identificar o imaginário e as qualidades humanas destas comunidades que ocuparam o Vale do Côa”.

“O importante é que estas comunidades reservaram parte do seu tempo para deixar o cunho pessoal nestas pedras de xisto, que têm um significado muito importante para a espécie humana”, enfatizou.

A chamada “rocha 09” do Fariseu representa um dos principais núcleos de arte rupestre do Vale do Côa, classificados como Monumento Nacional, e inscritos na Lista do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

A escavação surgiu no contexto do estudo do contexto arqueológico da arte paleolítica do Vale do Côa, que se vem desenvolvendo há mais de 25 anos.

O PAVC detém mais de mil rochas com manifestações rupestres, identificadas em mais de 80 sítios distintos, sendo predominantes as gravuras paleolíticas, executadas há cerca de 30.000 anos, cada vez mais expostas a adversidades climatéricas e geológicas.

O PAVC foi criado em agosto de 1996. A arte do Côa foi classificada como Monumento Nacional em 1997 e, em 1998, como Património da Humanidade, pela UNESCO.

// Lusa

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