Boato nas redes sociais provocou linchamento de pai de jovem acusado de violação

(dr)

A casa do acusado de violação foi incendiada pelos vizinhos.

Tudo começou com um crime horrendo: um menino de 12 anos voltava da escola num bairro pobre da cidade de Comodoro Rivadavia, no sul da Argentina, quando foi atacado por um homem com uma faca. A criança foi levada para um terreno, onde foi violada.

Horas mais tarde, um grupo de 50 moradores da cidade foi até a casa do suposto agressor, um jovem de 21 anos, mas não o encontraram. O pai do suspeito, um homem de 48 anos, acabou por ser espancado pela multidão e, depois, atirado para uma fogueira. O homem ainda tentou fugir, mas acabou por morrer.

O grupo de moradores reuniu-se depois de mensagens nas redes sociais e grupos de Whatsapp identificarem o rapaz de 21 anos como autor da violação. O jovem conseguiu esconder-se, já que tinha sido alertado que uma pequena multidão se dirigia até à sua casa para se vingar do crime.

No entanto, a multidão não sabia que a vítima da violação, a criança de 12 anos, tinha negado que o jovem era o autor do crime. O episódio aconteceu na segunda-feira e, nesta sexta-feira, a polícia afirmou que quatro pessoas foram detidas — três homens e uma mulher. A polícia argentina ainda não identificou quem foi o autor da violação.

Dois agentes da polícia estavam presentes durante o linchamento do pai do jovem, mas, segundo o chefe da polícia local, os agentes “nada puderam fazer para impedir a fúria da multidão”.

“A informação de quem era o violador da criança começou a circular de forma distorcida”, disse Martín Cárcamo, Procurador da República, ao site de notícias Infobae.

Segundo o Procurador, moradores do bairro Fracción 14 receberam a informação de que o violador era um jovem de 21 anos, vizinho da região onde ocorreu o crime, e que já tinha entrado várias vezes em confrontos com os habitantes locais.

A multidão acreditava que o autor do crime tinha antecedentes por crimes sexuais, mas, segundo o Cárcamo, o jovem apontado como violador não tinha nada no seu registo criminal. Segundo Martín Cárcamo, o rapaz precisou de ser escoltado pela polícia e depois levado à esquadra para evitar que também fosse atacado pela multidão.

O suspeito “estava a trabalhar” na hora do crime

A polícia também negou que ele tivesse violado a criança de 12 anos. “Confirmamos que, no momento do abuso contra a criança, o jovem estava a trabalhar“, disse Federico Massoni, ministro do governador da província de Chubut, na Patagónia.

Segundo Federico Massoni, “o que aconteceu foi uma loucura total, produto do uso irresponsável das redes sociais, que apontou uma pessoa de forma errada”.

O subchefe da polícia de Chubut, Néstor Gómez Ocampo, detalhou a crueldade com que a multidão agiu. Segundo o agente policial, as pessoas conseguiram retirar o pai do jovem das mãos da polícia — os polícias teriam impedido que o homem fosse atropelado. Ocampo disse que um dos agressores “tentou amarrar o homem com uma corda para arrastá-lo pela rua”, mas a polícia impediu que tal acontecesse.

O Ministério Público de Comodoro Rivadavia realçou que o linchamento “dificultou” as investigações da violação da criança, podendo inclusivamente ter eliminado provas. Enquanto isso, as autoridades de Chubut informaram que iniciaram uma investigação “para determinar a responsabilidade da polícia” no incidente.

Esta sexta-feira, o jornal Clarín informou que uma juíza de Comodoro Rivadavia decidiu suspender as saídas temporárias de um recluso condenado por violação, que tinha permissão para sair da prisão para frequentar a universidade. A juíza tinha recebido ameaças de linchamento. A magistrada destacou ainda que as mensagens que circularam nas redes sociais “pediam para matá-lo“.

ZAP // BBC

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5 COMENTÁRIOS

  1. Esta humanidade está cada vez mais corrompida. Querem fazer “justiça” pelas próprias mãos, sem procurarem saber primeiro a realidade dos factos. Morre pessoas inocentes assim… Acham justo? Para quê tanto sofrimento e morte?
    Se existe polícias, advogados e juízes (e me refiro aos que merecem realmente ser assim designados, pois há muitos que confiáveis, porém não creio que sejam a maioria) para alguma cousa é, certo?
    Então sendo assim que direito temos nós (que é como quem diz, certos indivíduos!) de fazer linchamentos?
    Haja mais respeito pelas pessoas, pelas autoridades competentes (quando o são…), pois nada justifica aquele tipo de atitudes.
    Não sou a favor de violações sexuais, mas tampouco sou a favor dos crimes de linchamento ou de honra! Da mesma maneira sou contra a morte de pessoas inocentes.
    Basta de ódio, preconceito, violência, bullying, assassinatos, vinganças, tortura… Basta!

  2. Talvez sejahora de re-instituir a censura e bloquear alguns sítios / aplicações. Mas isso sou só eu que não entendo nada do assunto

  3. Não controlem as redes sociais e continuem a ver este tipo de coisas a acontecer. Todo e qualquer ignorante pode tentar uma destas para se vingar de quem quiser. E às vezes pega e acontecem estes crimes horrendos.

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