Um estudo analisou 63 pessoas que controlaram a infeção VIH sem o recurso a drogas. As conclusões ditam que pode haver possibilidade do tratamento da doença, ser feito sem recurso a tratamentos agressivos para o corpo humano. A descoberta sugere que estes doentes podem ter alcançado uma “cura funcional”.

A pesquisa, apresentada num artigo publicado no dia 26 de agosto na revista Nature, descreve um novo mecanismo pelo qual o corpo pode eliminar o VIH. O estudo trás a esperança de que um pequeno número de pessoas infetadas, que fizeram terapia anti-retroviral por muitos anos possam suprimir o vírus, e parar de tomar os medicamentos.

Steve Deeks, especialista em VIH da Universidade da Califórnia, e um dos autores do estudo, garante que esta descoberta “sugere que o próprio tratamento pode curar as pessoas”.

Loreen Willenberg, de 66 anos, já é famosa entre os investigadores. O seu corpo conseguiu livrar-se do vírus, após viver décadas com a infeção. Apenas outras duas pessoas – Timothy Brown e Adam Castillejo – foram declaradas curadas do VIH. Contudo, os dois homens foram submetidos a rigorosos transplantes de medula óssea, que os deixaram com os sistemas imunológicos resistentes ao vírus.

Apesar disso, e segundo o The New York Times, os transplantes podem não ser uma boa opção pois são muito arriscados para a maioria das pessoas infetadas com VIH. Daí a importância de ser descoberto um novo método que não obrigue os doentes a passarem por este processo.

Sharon Lewin, diretor do Instituto Peter Doherty para Infeção e Imunidade em Melbourne, considera esta descoberta incrível, mas o verdadeiro desafio “é conseguir analisar se este novo método é eficaz nos vários doentes que vivem com SIDA”.

A investigadora Rowena Johnston (que não fez parte do estudo) com Loreen Willenberg (dir.)

 

“Controladores de Elite”

Os participantes da pesquisa foram chamados “controladores de elite”, pois apenas 1% das pessoas com VIH pode manter o vírus sob controle sem medicamentos anti-retrovirais.

Em alguns pacientes, o sistema imunológico, ao longo do tempo, absorve as células nas quais o vírus ocupou o genoma. Mas a análise a estes participantes mostrou que os genes virais podem ser isolados em certas regiões “bloqueadas” do genoma, onde a reprodução não pode ocorrer – explicou Xu Yu, autora principal do estudo.

Os investigadores acreditam que é possível que algumas pessoas que fazem a terapia antirretroviral durante muitos anos, também possam chegar ao mesmo resultado, especialmente se receberem tratamentos que podem estimular o sistema imunológico.

Willenberg já participava deste tipo de estudos há mais de 15 anos. Agora, a Xu Yu e os seus colegas analisaram 1,5 mil milhões de células sanguíneas da ex-portadora do vírus, e não encontraram nenhum vestígio de VIH.

Lewin acredita que o caso desta paciente “pode ser considerado uma cura, mas por um caminho muito diferente”.

 

“Controladores excecionais”

Outros 11 infetados incluídos no estudo, foram batizados pelos investigadores de “controladores excecionais”.

Estes pacientes têm o vírus apenas numa parte do genoma, que é contudo tão densa e remota que a maquinaria da célula humana não consegue replicá-lo.

A equipa de cientistas descobriu que algumas pessoas que conseguem eliminar o vírus não têm anticorpos detetáveis ​​ou células imunológicas que respondem rapidamente ao VIH. Porém o seu sistema imunológico carrega uma memória do vírus.

As poderosas Células T – constituintes importantes do sistema imunológico – eliminam células em que os genes virais se instalaram. As que permaneceram infetadas, correspondem a células que se situavam em regiões remotas do genoma, onde o vírus VIH não conseguia reproduzir-se.

Depois de os investigadores terem concluído o estudo, foram analisadas mais 40 amostras de “controladores de elite”, e encontrados mais alguns casos que poderiam ser qualificados como curas. Yu garante que “acreditamos que hajam muitos casos destes por aí”.

Agora, a equipa está a reunir doentes que tomaram medicamentos antirretrovirais durante 20 anos ou mais, e que podem ter conseguido eliminar o vírus para partes remotas dos seus genomas.

Os medicamentos anti-retrovirais poderem ter efeitos colaterais severos, incluindo doenças cardíacas e danos a órgãos, sobretudo quando são tomados por muitos anos. Uma cura funcional, a ser confirmada por pesquisas futuras, transformaria a vida dos pacientes com VIH.

Yu sonha com esta cura para os doentes, pois desta forma “podem interromper o tratamento antirretroviral e ficar curados, assim teriam uma vida muito mais saudável”.

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