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Os EUA estão a desperdiçar o melhor recurso para vencer a corrida tecnológica ​​à China

À medida que a corrida tecnológica entre a China e os EUA se intensifica, os norte-americanos parecem estar a dar de borla uma grande vantagem ao seu arquirrival. Ter-se-ão esquecido de que o melhor trunfo é a inteligência humana?

O recém-nascido DeepSeek foi um lembrete para os norte-americanos de que não são os líderes garantidos do desenvolvimento da inteligência artificial (IA).

Após as notícias de que o modelo de IA da China atingiu resultados comparáveis ou melhores do que os melhores modelos de IA norte-americanos, os EUA enfrentaram subitamente a dura realidade de que o país não tinha a garantia de ser um precursor na corrida da IA.

O presidente Donald Trump, por um lado, considera a imposição de controlos de exportação ainda mais rigorosos e a proibição da utilização do DeepSeek em dispositivos governamentais.

Por seu turno, a OpenAI acusou o DeepSeek de copiar o seu ChatGPT.

A atual abordagem política norte-americana parece destinar-se a restringir a capacidade da China para desenvolver a IA, mas, como escreve, na Live Science, Akhil Bhardwaj (especialista em Estratégia e Organização na Universidade de Bath, no Reino Unido), “o tiro pode sair pela culatra”.

Os EUA e a China têm paradigmas de pensamento fundamentalmente diferentes.

Desde o fim da II Guerra Mundial, os norte-americanos tentaram impor uma postura mundial dominante. A China, por seu turno, sonha ocupar essa posição.

Para os chineses, o domínio da IA é o caminho para atingir esse objetivo – por isso, tem investido fortemente no setor ao longo da última década.

Minerais: China na vanguarda

Quanto ao “afamados” minerais críticos, a China foi mais inteligente e agiu rapidamente para obter minerais de terras raras em todo o mundo.

Em 1993, a China e os EUA extraíam quase a mesma quantidade de elementos de terras raras, produzindo cada um deles um terço do total mundial. Mas em 2011, a China era responsável por 97% da produção mundial de elementos de terras raras.

Os EUA só recentemente reagiram, tentando garantir direitos de exploração de minerais – por exemplo, na Ucrânia.

Capital humano: China investe

A China também tomou medidas para trazer os seus jovens formados nos EUA de volta ao país, oferecendo-lhes alojamento, benefícios fiscais, educação para os filhos e um ambiente regulamentar pouco rigoroso, ao mesmo tempo que criou novas escolas de IA no seu país.

Por seu turno, com Donald Trump no poder, “os EUA parecem estar a minar a base da sua vantagem competitiva: o capital humano” – escreve Bhardwaj.

Para responder à China, os EUA têm-se limitado a impor restrições à entrada e difusão de IA chinesa no país, para limitar o desenvolvimento chinês da IA.

Tiro: pela culatra

Como aponta Bhardwaj, a tradicional vantagem competitiva dos EUA resulta da “inovação constante e de uma estrutura institucional de apoio que promove a concorrência leal, protege os direitos de propriedade, incentiva a participação alargada e desafia a autoridade”.

Em contrapartida, a estrutura institucional chinesa tende a proteger a autoridade, a concorrência desleal e a insegurança dos direitos de propriedade – o que, a longo prazo, não favorece a inovação radical.

No entanto, agora, o cenário parece estar a mudar. Ao restringir a entrada de “pequenos génios” nos EUA, sob a administração Trump, os EUA parecem estar a negligenciar o melhor do modelo norte-americano: o capital humano.

Silicon Valley [a base tecnológica norte-americana] continua a atrair as mentes mais brilhantes do mundo – incluindo ‘génios’ chineses. No entanto, as recentes medidas para restringir a sua entrada equivalem a reduzir a importação de capital humano para os EUA e a sua exportação inadvertida para outros países – que podem beneficiar.

As restrições ao financiamento das universidades – por exemplo, ao reduzir a contratação de estudantes de doutoramento, que têm um papel fundamental na promoção da investigação – também prejudicam a atratividade dos EUA.

“Diluir a base da concorrência parece-me míope”, escreve Akhil Bhardwaj.

“Ironicamente, ganhar a corrida da IA assenta na inteligência humana, que os EUA parecem estar ativamente a subestimar”, conclui.

Miguel Esteves, ZAP //

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