Nova tradução da Bíblia trata Deus por “tu” e altera orações como o Pai Nosso

A nova tradução da Bíblia, da responsabilidade da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), já chegou às livrarias – em versão incompleta, experimental e sujeita a alterações. Uma das novidades mais visíveis é que Deus é tratado por “tu” e não por “vós”, o que altera orações como o Pai Nosso.

De acordo com um artigo do Público, divulgado no domingo, na nova tradução oficial da Bíblia, o Pai Nosso passa de “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal” para “não nos leves até à provação, mas livra-nos do Maligno”. A Igreja ainda não decidiu se a segunda pessoa do singular será adotada também nas celebrações oficiais.

“É uma questão ainda por resolver”, adiantou ao Público o presidente da comissão coordenadora deste projeto, o bispo de Viana do Castelo D. Anacleto Oliveira. O também biblista remeteu uma decisão “o mais tardar, para quando a tradução da Bíblia se tornar completa, definitiva e oficial e, como tal, passar a ser lida nas celebrações litúrgicas”.

Admitiu ainda como “provável que nessa altura em todas as outras orações se adote o mesmo tratamento”. “Nem teria sentido haver dois géneros de tratamento nas mesmas celebrações”, salientou.

Por outro lado, e ainda que não haja data para esta tradução definitiva, D. Anacleto Oliveira admitiu que “é possível que não se espere até lá”. Está para sair uma nova tradução do Missal Romano, para as celebrações da missa, e o biblista disse saber que também aqui “há quem pugne pelo tratamento de Deus na segunda pessoa do singular”.

Menos assertivo, o diretor do Secretariado Nacional de Liturgia, Pedro Lourenço Ferreira, precisou que o novo Missal “não será apreciado antes de setembro”. Embora tenha confirmado que “o texto da versão final da Bíblia, uma vez aprovado pela CEP, será utilizado na liturgia”, ressalvou que “os textos litúrgicos precisam de uma aprovação específica da CEP, porque nem sempre utilizam as mesmas palavras dos textos bíblicos”.

Daqui se depreende que a transposição do “tu” da Bíblia para o dia-a-dia da Igreja “será obra para alguns anos”.

Segundo o responsável, este trabalho terá de ser concertado entre a CEP, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé e Príncipe e demais conferências de bispos dos países africanos de língua portuguesa, entre as quais há um acordo para manter “a unidade nos textos usados pela assembleia, como sejam as respostas nas aclamações e nos diálogos”. Acordo do qual o Pai Nosso faz também parte.

Numa atitude inédita em Portugal, a comissão de tradução da Bíblia decidiu sujeitar esta versão preliminar ao escrutínio dos leitores, tendo criando um endereço de correio eletrónico para a recolha de correções e sugestões (biblia.cep@gmail.com).

Jesus tratava Deus por “papá” ou “paizinho”

A opção por passar a tratar Deus por “tu” – que os bispos portugueses aprovaram por maioria – enquadra-se, em primeiro lugar, no propósito de permanecer o mais fiel aos textos originais, avançou o Público.

“O próprio Jesus assim o tratava: por ‘Abba’ (em aramaico), um diminutivo a que corresponderia hoje o nosso ‘papá’ ou ‘paizinho’. E foi esse o mesmo tratamento que ele ensinou aos seus discípulos e era usado pelos primeiros cristãos”, enquadrou D. Anacleto Oliveira, para lembrar que esta forma de tratamento terá, de resto, configurado “mais um dos ‘escândalos’ perpetrados por Jesus em relação ao ambiente judaico em que viveu”.

“Não consta que até então houvesse algum judeu que se atrevesse a tratar Deus desse modo. O tratamento estava restringido ao ambiente familiar”, concluiu o biblista.

Mas há um segundo argumento a legitimar esta opção. “São muito raros os filhos que ainda tratam o pai ou a mãe por ‘vós’, ‘você’ ou, como quando eu era pequeno, ‘vossemecê'”, sustentou D. Anacleto Oliveira.

E acrescentou: “Se nenhum pai ou mãe se escandaliza por ser tratado por ‘tu’, antes fica muito mais feliz, na medida em que assim se exprime a desejada e salutar intimidade entre filho e pai/mãe, com muito mais razão [se adoptará o tratamento por ‘tu’] entre o crente e Deus”.

“Se a ideia é que a tradução vá ao original e seja literal, o plural majestático tem de cair”, reforçou o biblista D. António Couto, para recordar que já é assim há muito nas traduções oficiais da Bíblia “no inglês, no italiano, no alemão, no francês…”.

O também bispo de Lamego admitiu, porém, que a alteração poderá suscitar estranheza, até por poder soar algo desrespeitosa para os mais conservadores. “É um risco que estamos a correr, mas penso que, num segundo momento, as pessoas irão perceber”.

“Há 50 anos era impensável um filho tratar um pai por ‘tu’. Hoje, é impensável um filho tratar um pai por ‘vossemecê’ ou ‘senhor’. Portanto, é natural que na liturgia o tratamento por ‘tu’ acabe por acontecer”, antecipou, por seu turno, o padre Mário Sousa, presidente da Associação Bíblica Portuguesa (ABP).

A ideia “foi fazer uma tradução o mais literal possível, mas num português escorreito, que se entenda, e sem esquecer que a Bíblia tem como finalidade tornar-se a palavra de Deus, o que só acontece quando é acolhida por aqueles que a escutam”, disse.

Daí a opção “pioneira” de abrir esta tradução ao escrutínio dos crentes. “Já recebemos sugestões e observações de outros biblistas. Serão encaminhadas para as subcomissões científicas que as analisarão e verão da sua pertinência, tendo em vista o texto final que depois se destina a ser o texto oficial para a liturgia, para a catequese e para todas as acções da Igreja em Portugal e nos países de língua portuguesa que seguem a tradução dos livros litúrgicos”, referiu.

Para o padre Fernando Calado, seria “uma pena” desperdiçar esta oportunidade para mudar a forma como rezam os católicos em português. “Se assumem na Bíblia que o mais adequado é o tratamento por ‘tu’, não faz sentido que não se dê também esse passo, tanto na liturgia como na oração”, defendeu.

A manutenção de “uma linguagem arcaica e que muitas vezes já não é compreendida” só poderá traduzir uma opção por “manter uma perspetiva de distanciamento em relação a Deus”, frisou.

Traduzida diretamente do hebraico, do aramaico e do grego, esta versão que chegou às bancas restringe-se por ora aos Evangelhos e aos Salmos. E o Pai Nosso não foi o único a “sofrer” por causa desta preocupação em destapar “o que está por detrás do texto”, como sublinhou Mário Sousa, presidente da ABP.

Quem folhear as mais de 600 páginas do livro não encontrará as célebres palavras “Em verdade em verdade vos digo” que tinham múltiplas referências, em particular no Evangelho de S. João. Em vez delas, surge a expressão: “Amen, amen vos digo”. É uma palavra hebraica que significava verdadeiro, certo, que os tradutores optaram por manter.

Do mesmo modo, no diálogo com a mulher adúltera, surge uma nova palavra: promiscuidade. A partir do grego porneia, tanto surge como sinónimo de ligações ilícitas como adultério, infidelidade.

“Pareceu-nos que a palavra promiscuidade seria mais abrangente”, justificou D. Anacleto Oliveira, à Ecclesia, na mesma entrevista em que, e voltando ao Pai Nosso, justificou a substituição da velhíssima expressão “Não nos deixeis cair em tentação/ mas livrai-nos do mal” pelo atual “Não nos leves até à provação/mas livra-nos do Maligno”.

Curiosamente, esta opção contraria aquilo que o Papa Francisco confessou, no início de 2018, quando assumiu, numa entrevista à televisão da Conferência Episcopal italiana, que não gosta da tradução do Pai Nosso em italiano [‘E non c’indurre in tentazione’] e elogiou a Igreja francesa que, em 2017, adotara a formulação “Não nos deixeis cair em tentação”. A mesma que agora desaparece desta bíblia oficial em português.

TP, ZAP //

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7 COMENTÁRIOS

  1. estórias???. Deixo duas!

    deus para s. pedro: olha lá bacano, onde é que a malta vai de férias este ano?
    s. pedro: que tal júpiter?
    deus: nopes, agora lá é época baixa!
    s. pedro: então e que tal neptuno?
    deus: nah… que faz lá frio!
    s.pedro: então e que tal a Terra?
    deus: dass!!!! a Terra é que não!!!
    s.pedro: então, qual o stress?
    deus: porra, engravidei lá ums virgem há dois mil anos e os gajos ainda não se calaram com essa estória!

    ——-

    nossa senhora: estou a pensar marcar as minhas férias, onde será que devo ir? Alguém tem sugestões?
    fiel 1: ó nossa senhora, que tal Roma?
    ns: Roma!?!!? Jamais! Há dois mil anos atiravam lá os cristãos aos leões!!! Fora de hipótese!!
    fiel 2: então, e que tal Jerusalém!?!!!
    ns: Jerusalém!?!?!?! – indignou-se – que insensibilidade! O meu filho foi lá crucificado há dois mil anos!!! Aí é que jamais!!
    fiel 3: ó nossa senhora – diz timida e hesitantemente – e que tal Fátima, em Portugal?
    ns: Fátima?!!??! Ora aí está uma excelente ideia! Um sítio aonde nunca estive!!!

  2. Já existe há anos uma tradução do evangelho de Mateus que diz assim: ” Pai nosso, que estás no Céu, santificado seja o teu nome, venha o teu Reino; faça-se a tua vontade, como no Céu, assim também na terra. Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia; perdoa as nossas ofensas, como nós perdoámos a quem nos tem ofendido; e não nos deixes caír em tentação, mas livra-nos do mal. “

    • muito melhor do que a apresentada, que chega a mudar o sentido da oração, por exemplo quando dizem: “Não nos leves até à provação/mas livra-nos do Maligno”…

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