Música portuguesa para “atrasados mentais”. Após “momento infeliz”, Fernando Tordo pede desculpa

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Pedro Ribeiro Simões / Flickr

Fernando Tordo

Fernando Tordo está no centro de uma polémica, depois de ter concedido uma entrevista à revista Blitz na qual afirmou que “90% da música portuguesa que se ouve, atualmente, não tem qualquer dignidade”. “É para atrasados mentais.”

Fernando Tordo foi convidado do podcast Posto Emissor, da Blitz, onde partilhou as suas opiniões sobre o atual estado da música portuguesa.

Durante a entrevista, aquela que é uma das mais respeitadas vozes portuguesas admitiu que a grande maioria da música feita atualmente não o conquista.

“Salvo raras exceções, o que temos é gente que não cresce porque não ouve, porque não aprende. Têm que aprender. A minha geração aprendeu”, atirou.

“A música vai reganhar a sua dignidade porque, atualmente, 90% do que ouvimos não tem qualquer dignidade. É uma coisa para atrasados mentais. Eu tenho de dizer isto porque eu agora digo tudo como os malucos. Digo em consciência, digo por experiência”, acrescentou ainda.

As críticas estenderam-se também às editoras: “Nalguns que eu oiço, está o talento mas não está a alma aprendiz. E a alma do aprendiz é uma coisa fantástica. É muito o jogo que as editoras usam […] é descartável. ‘Ah, tenho aqui uma miúda com umas pernas giras, deixa cá ver o que é que acontece’. E é isto que temos.”

As recentes declarações do músico, que venceu o Festival da Canção em 1973 com a canção “Tourada”, não estão a ser bem acolhidas nas redes sociais, nomeadamente por colegas de profissão.

O músico Agir, filho de Paulo de Carvalho, lamentou as palavras de Fernando Tordo e ofereceu-se para dar a conhecer a nova geração de artistas portugueses.

“Terá sido um momento infeliz mas acredite que o que não falta, hoje em dia, são autores e intérpretes que só prestigiam a nossa língua e a nossa música. Terei todo o gosto em dá-los a conhecer ao Fernando, de preferência à mesa. Tenho a certeza que irá gostar, tanto da nova música como da refeição”, escreveu, no Instagram.

 

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Na mesma rede social, Miguel Cristovinho, músico dos D.A.M.A., marcou a sua posição e lembrou que “viver da música em Portugal é muito difícil“.

“Há artistas geniais a viver na pobreza, a passar fome, a terem de trabalhar noutras áreas pois a música não lhes põe comida na mesa, há músicos incríveis que nunca tiveram a sua oportunidade de fazer vida a tocar, há artistas que estavam a começar a ter tração e não conseguiram aproveitar estes dois anos…”, escreveu.

“Até para alguns de nós – artistas que já têm alguma estrada e algum nome no panorama nacional – se não fossem os direitos de autor e as campanhas digitais teria sido IMPOSSÍVEL sustentarmos as nossas famílias. Por isso é que fico mesmo muito triste e desiludido ao ver declarações destas terem antena”, acrescentou.

Luísa Sobral também comentou a entrevista, assumindo ter ficado “bastante triste”. À semelhança de Cristovinho, destacou as dificuldades que este setor tem enfrentado durante a pandemia de covid-19.

“Estivemos muito tempo parados com concertos constantemente adiados. Muitos tiveram discos guardados na gaveta durante todo este tempo à espera de dias melhores. Estávamos e estamos todos no mesmo barco. Temos de nos apoiar uns aos outros e não denegrirmo-nos“, lamentou.

 

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Também o diretor da rádio Comercial, Pedro Ribeiro, manifestou a sua desilusão, numa publicação entretanto eliminada. “Tudo isto é triste, tudo isto é mau. Depois de dois anos em que os músicos deste país lutaram com tanta dificuldade, sem concertos e com gravações adiadas sabe Deus para quando.”

“Quando, apesar das dificuldades, estamos a viver um momento extraordinário da música portuguesa, em vários estilos tão diferentes, de criatividade, novos valores, diversidade… ler isto, vindo de alguém que tanto se respeita, dói. E revolta. Porque é injusto, ofensivo é só destrói, não constrói nada”, escreveu ainda.

Após a polémica, Fernando Tordo deixou um pedido de desculpas no Facebook.

“Um mau momento tem de dar origem a algo construtivo. Apercebi-me da injustiça que as minhas palavras foram para todo um universo de colegas que, tal como eu, trabalham diariamente para levar o seu melhor aos palcos e às rádios deste país, principalmente nesta fase tão complicada para todo o setor cultural”, começou por escrever.

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“Mais do que um pedido de desculpa, quero que este meu erro me leve a construir pontes e a potenciar o diálogo com os meus colegas de profissão. Todos, sem exceção! Semanalmente, vou dar a conhecer as novidades de lançamentos de novos discos ou singles, sugestões de concertos ou eventos culturais, novos projetos e artistas emergentes”, prometeu.

“Gostaria, também, de poder contar com a vossa ajuda. Para o efeito, nos próximos dias, vou disponibilizar um e-mail para me enviarem as vossas sugestões. Ouvir e dar a conhecer novos projetos, de tantos que emergem no nosso país, passa agora, também, a ser a minha missão”, escreveu na mensagem.

  Liliana Malainho, ZAP //

23 Comments

  1. Leonel, caramba, adiantou-se e agora já não posso comentar, isto é, posso, mas não consigo acrescentar melhor.
    Então não é verdade que a maioria da música que se produz actualmente é para atrasados mentais? Só não entendo é que forças maiores levaram o senhor Fernando Tordo a desmentir-se posteriormente..

  2. Gostos não se discutem…
    Ele falou de musica mas podemos ter o sexo oposto, a comida, a politicas, tudo…
    Uns/umas gostam de pessoais “mais Cheiinhas” outros de “ossos”…
    Uns de comida de plástico outros de comida tipica portuguesa…
    Uns do PS outros do PSD e outros até do Chega…

    Por isso qual é o problema de não se gostar de fado ou musica classica e gostar-se de musica pimba!!!
    O Sr. se não gosta que desligue o rádio…

    Enfim… deve ser por isso que ele vende milhões de cópias das musicas que escreve…

    Agora, infelizmente, quanto menor a literacia maior é a tendência para se ouvir musica pimba, ver programas tipo BigBrother, etc., etc… e nesse ambito a situação é deveras preocupante porque hoje em dia não se aprende nas escolas… dá-se diplomas…
    Não se pode reprovar alunos porque depois o professor é obrigado a “prestar contas”… fazem-se cursos de novas oportunidades para se atribuir o 12.º ano e a unica coisa que se faz é apresentar um trabalho informático, enfim… isto é que está mal… o ensino é cada vez pior e cada vez + aligeirado…

    • Tem toda a razão, caro Armindo.
      E o Tordo também.
      Mas sabe como são as pressões mediáticas. Ainda acaba por ser acusado de elitista.
      É o preço de se pressupor o que é qualidade.
      Mas para mim não há dúvidas que há uma diferença qualitativa entre, por exemplo: a música brasileira que se ouvia nos anos 70 e 80, e esta ‘porcaria’ de ‘forós’ e afins…

    • Factos são factos. Não tem nada a ver com gostos. A música hoje em dia está mal. Cá em Portugal ainda vai escapando, no Brasil é uma vergonha pegada.

      • A música brasileira já teve imensa qualidade, ao ponto de justamente se ter tornado numa referência mundial. Hoje, é insuportável.

  3. FT tem razao, é musica de mentecaptos para mentecaptos, aliás, compreende-se a correcção. É que na realidade não é musica aquilo a que ele se refere, é mera salganhada e gritaria por isso pediu desculpa de nada…

  4. Penso que o Fernando Tordo deve ser da minha idade. Eu também fui músico e cantor durante mais de 50 anos (comecei aos 10 anos (1956) numa troupe de uma Sociedade Recreativa do meu bairro), actuei com Conjuntos de Música para Baile em Hotéis, Restaurantes, Clubes, Academias, Sociedades Recreativas, Festas e Romarias de Aldeias, Vilas e Cidades de Portugal, Dancings, etc.. E não é escândalo nenhum o FT dizer que actualmente a música portuguesa é para “atrasados mentais”. Admito que existam gostos diferentes, quer para a música, quer para a culinária, quer para a política, quer para os futebóis, etc., mas qualquer um, seja ele quem for, tem o pleno direito de se expressar LIVREMENTE (chama-se LIBERDADE DE EXPRESSÃO, em democracia) e apenas lamento o Fernando ter pedido desculpa pela verdade que proferiu. Será que todos gostam da música que o Fernando produz? E isso, é algum pecado capital? Tem que se proferir ámen a tudo o que nos aparece pela frente?

  5. Quis antena, teve antena, e ainda se quer “pseudoredimir”, ajudando, quando deve ser ele o necessitado da ajuda?…

    Enfim, a Idade não vale para tudo (como refere no texto), falou sem saber, apenas porque sim, agora é que vai começar a ouvir os novos projectos?

    Quiçá comece a ter com isto, um pouco de trabalho, ou talvez fosse este, o real objectivo…

    Se fosse eu, eu enviava-lhe-ia, ZERO

  6. E tem muita razão ao dizer o que disse. A música portuguesa, e muita da mundial que se faz hoje, tem péssima qualidade. E não devia ter pedido desculpa nenhuma. Constatou um facto.

  7. Detesto este cantor. Mas pela primeira vez na vida dou-lhe razão. Muita da música que vemos ou ouvimos nos shows da tv é mesmo para atrasados mentais. Bingo!!!…

  8. Tirando a percentagem, Fernando Tordo disse algo realmente verdadeiro. É confrangedor o nível de certa música que, sabe-se lá porquê, passa nas nossas rádios. É de uma pobreza extrema, principalmente quando se fala do auto proclamado hip hop português, como se isso existisse. Falar do hip hop português, é como falar do fado americano. Depois, temos os monocórdicos e enfadonhos rappers portugueses, mais uma espécie de pseudo músicos/cantores que tem vindo a proliferar. Mas claro, não concordo com a percentagem de 90% que o Tordo referiu. Sejamos realistas e honestos, 90% é um exagero obviamente. Só não entendo porque razão Fernando Tordo veio depois a pedir desculpa. As desculpas evitam-se. Se aquela era a opinião dele, tinha que a assumir e mais nada. Aí sim, Fernando Tordo esteve mal. De repente, os 90% da música portuguesa que se ouve deixou de ser para atrasados mentais, e passou a interessar a Fernando Tordo. Realmente, o ser humano é mesmo um animal conveniente.

    • Hip hop é música?!
      Isso é outro lixo americano que se espalhou pelo mundo… boa parte desses “músicos” mais conhecidos (alguns milionários!), também conhecidos por serem cidadãos exemplares…
      “Melhor” do que isso só aqueles DJ’s que, com uma pen USB (e com a outra mão no ar) – e que nem sequer sabem o que é um acorde – “valem muito mais” do que uma Orquestra Filarmónica de Viena…

      A nível mundial, os artistas mais bem pagos do mundo da musica, de músicos tem pouco ou nada!…

  9. A música actual, é simplesmente medíocre, insuportável, de mau gosto, que me faz mudar de canal mal ouço um pouco, por irritar de tão má – mesmo a nivel internacional raríssimas excepções. Tenho felizmente muitos discos em vinil ou os cds para apreciar música feita em melhores tempos. A música portuguesa neste momento atravessa mesmo um dos seus piores períodos. Ao contrário do que acontecia há uns anos, ninguém mas mesmo ninguém se lembrará ou dará um cêntimo de alguma música produzida agora. Por até a música dita “pimba” de há 40/40 anos soa melhor – e o quando ridícularizavamos o género. Andam a nivelar por baixo em todos os produtos culturais, podemos comprovar em qualquer História da Cultura, ou avaliar por nós mesmos, as músicas, pinturas, cinema e livros, que, nunca existiu um momento tão mau. Chamam “cultura” à aberração intelectual – cheia sim, de ideologia que ninguém pediu – que anda por aí hoje. Nem para rir.

  10. Estou completamente de acordo com o Fernando Tordo, excepto na percentagem que obviamente é exagerada. As músicas dos programas televisivos com os quais tropeço sempre que vou picando, são uma verdadeira lástima, e o que mais me confrange e preocupa, é que parece que têm audiências, aquilo não é nada, efectivamente vamos no mau caminho, parecendo-me que a cada dia que passa se sente mais o analfabetismo que grassa na sociedade portuguesa.
    São os Big Brothers, as telenovelas, os convites (que me enojeiam), para efectuar chamadas de valor acrescentado no sentido de se “inscreverem”, atentemos nos termos, em algo que lhes pode dar um prémio em cartão, e neste caso específico julgo que estes procedimentos deviam ser bem punidos, não conseguindo entender como determinadas figuras da nossa televisão se aprestam a tal, e outros, que vão poluindo as nossas vidas e sobretudo as dos nossos filhos e netos, pois o padrão que passam a conhecer é aquele, e assim sendo, aquela será doravante a sua referência.
    Lamento imenso tal estado de coisas.

  11. Este também já está meio avariado” das ideias mas não é novidade nenhuma que 90% da música, do cinema, das séries, etc, etc (principalmente o que vem dos EUA) são lixo para atrasados mentais!…

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