Portugal “tem nível de rendimentos baixíssimo”. Muitos municípios perdem população desde o fim da II Guerra

(dr) Nuno A. Madeira / monsaraz360.pt

Portugal tem municípios que perdem população desde o final da II Guerra Mundial e dificilmente fenómenos como o teletrabalho irão alterar esta paisagem, na opinião do geógrafo Álvaro Domingues, da Universidade do Porto.

Em entrevista à agência Lusa, o geógrafo, professor na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, frisou que o teletrabalho abrange apenas uma franja da população portuguesa e que eventuais mudanças de residência para espaços fora dos grandes aglomerados urbanos, impulsionadas pela pandemia de covid-19, dependerão sempre de quem as pode pagar.

“Há municípios que estão a perder população desde o final da II Guerra Mundial. Não estou a ver que recuperem, porque durante séculos viviam de uma agricultura paupérrima e de condições sociais péssimas, de saúde, qualidade de vida, de tudo”, afirmou.

Os municípios do Douro estão entre os que perdem população desde os anos 50 e “continuam a perder”, apesar de nunca ter se ter produzido tanto vinho na região como agora, notou.

“Deixou de ser verdade aquela coisa que se dizia ‘se houver crescimento económico, se houver investimento, haverá atração populacional porque haverá emprego’”, disse.

De acordo com o geógrafo, as empresas da região são hoje “altamente tecnológicas” e recorrem a multinacionais para trabalho sazonal de contratação externa (Nepal, Índia, Bangladesh).

Além do mais, quando se trata de aferir tendências, é preciso ter em conta que a sociedade é muito heterogénea, vincou: “Aquilo que pode ser verdade para um determinado grupo social, pode ser irrelevante, ou o contrário, para outro”.

Viver no campo ou em áreas de fraca densidade populacional dependerá também de condicionantes como a escola dos filhos, infraestruturas, incluindo a rede tecnológica, e o acesso a serviços, muitos deles encerrados ou diminuídos, particularmente durante o período de intervenção da ‘troika’ em Portugal.

“Naqueles quase dois terços do território onde a população está muito envelhecida, depois de mais de um século de emigração, há muitas terras esvaziadas, há muitos lugares onde moram duas ou três famílias. Por muito confinamento que haja, aí é mais fácil sair à rua, porque não encontramos ninguém”, reconheceu.

Se já no século XIX os portugueses iam “massivamente para o Brasil”, depois da II Guerra foram “para todo o lado”, recordou. “Acho que há portugueses em todo o lado do planeta, desde a Austrália ao Norte do Canadá. Até desconfio que há mais portugueses fora de Portugal do que dentro!”, estimou Álvaro Domingues, especialista em geografia humana.

A sociedade portuguesa, apesar de tudo, tem um nível de rendimentos baixíssimo, tem uma distribuição de riqueza muito injusta, tem uma percentagem de pessoas que, em média, ganha o salário mínimo que é altíssima”, advertiu.

“Como sempre, há mudança para quem a pode pagar, quem tem possibilidade de escolher, porque a maior parte não escolhe”, observou quando questionado sobre a procura de um novo estilo de vida, na sequência da pandemia.

Álvaro Domingues frisou que o território é uma construção social, “muda a sociedade mudará o território”.

“Se a mudança social for expressiva, por exemplo de procura de alternativas de residência que não são as habituais…, mas não tenho notícia disso. Estatisticamente, mesmo aqueles municípios que dizem que tiveram alguma recuperação de população ou de procura de alojamento, estão a falar de pequenos números”, assegurou.

“Só que como a situação tem sido de décadas de esvaziamento, de repente, uma estagnação parece um sinal positivo e dá-se muito valor a isso”, considerou.

Para Álvaro Domingues, Portugal padece de uma tradição de políticas “muito centralizadas” desde D. Afonso Henriques e durante “a época dura da ‘troika’” foram tomadas decisões “desastrosas” a nível setorial, que deixaram o mapa “ainda pior”.

// Lusa

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4 COMENTÁRIOS

  1. O Xuxalismo rebentou com as zonas rurais… Já ninguém pode cultivar os minifúndios… Para se puder comer umas batatas do nosso quintal são necessários meia dúzia de cursos. Ele são cursos para plantar batatas, cursos para tratar das batatas, cursos para arrancar as batatas, cursos para descascar as batatas, cursos para cozinhar as batatas… Ninguém sobrevive a tanta formação e a tanto gasto de dinheiro… Aquela que deveria ser a actividade mais apoiada, pois é aquela que garante a sobrevivência, é afinal uma actividade proibida. Mas não é só a questão das batatas, é tudo o que envolve a pequena agricultura. É a utilização de equipamentos para a limpeza dos terrenos, é o uso de fertilizantes é a criação de porcos e até de galinhas… Tudo foi proíbido!! Agora querem o quê??
    E isto não tem nada a ver com a troika!! Isto tem que ver com as políticas do socialismo soviético que se enraizaram no nosso país. Quando o governo português teve que transpor as diretivas da UE que restringiram a prática da pequena agricultura, onde estava o PCP?? O PCP nada disse e porquê? Porque o PCP considera o pequeno proprietário, como um burguês, uma espécie de “proto-capitalista”. E o sonho do PCP é ter “a valentia para alimentar a sanha de esganar a burguesia”.O problema vai ser quando não houver batatas para comer… Terão que comer parafusos!

    • Ahahahaaaa… que grande “filme”; os amigos do Cavaco, do Durão, do Sócrates, do Passos, etc, até se riram…
      Mas quando foi mesmo que o PCP esteve no governo?!
      Também é o PCP também manda na UE?
      Esses malandros mandam mesmo em tudo…

  2. Uma perguntinha aos senhores do ZAP: Se a notícia é sobre Portugal porque é que a fotografia é de uma cidade do norte da Europa?? Não tinham mais nenhuma??

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