A “pandemia” silenciosa. Morte de Amélie deixou o país em choque (e “todos temos responsabilidade”)

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A morte da jovem Amélie Barros, de 16 anos, deixou o país consternado por estar em causa uma situação relacionada com problemas mentais. Entre anónimos e famosos, muitos falam de uma outra “pandemia” silenciosa e há quem note que “todos temos responsabilidade”.

O corpo de Amélie foi encontrado na Praia dos Ingleses, no Porto, nesta terça-feira, algumas horas depois de os pais da jovem de 16 anos terem dado conta do seu desaparecimento, alertando para a depressão a que estava a ser tratada há cerca de um ano.

Um trágico desfecho num caso que está a deixar muitos portugueses em choque, com várias figuras públicas a manifestarem a tristeza pela morte prematura de Amélie.

Catarina Furtado, apresentadora de televisão, aproveitou o seu perfil do Instagram para alertar que “todos, de alguma forma, temos responsabilidade” neste tipo de casos.

“A saúde mental é para cuidar sem preconceitos, sem olhares de lado, com empatia e real sensação de que não existe perfeição e de que as conquistas e os sucessos fazem parte de um caminho individual”, escreve ainda a apresentadora da RTP1.

“A sociedade pode estar ao serviço do bem e perde tanto tempo a provocar o mal”, refere ainda Catarina Furtado, apelando à promoção de “conteúdos que despertem o melhor de nós” para que cuidemos “melhor uns dos outros”.

Também a deputada Cristina Rodrigues, eleita pelo PAN, mas entretanto desfiliada do partido, lamenta a morte de Amélie, notando que “a depressão mata”.

A jurista Inês Melo Sampaio do Serviço Jurídico da Comissão Europeia e a directora da revista Visão, Mafalda Anjos, são outras personalidades que lamentam a triste morte, com a segunda a confessar “a dor imensa” que sentiu “toda a noite”.

A “pandemia” silenciosa

Mas o caso de Amélie também está a despoletar uma onda de testemunhos de pessoas anónimas que reportam que, quando tinham a idade da menina, também pensaram em suicídio.

Há, inclusive, um relato que associa este tipo de problema de saúde mental ao abuso sexual de que foi alvo em criança.

Contudo, há ainda muitos anónimos a notar que “é urgente investir na saúde mental“, uma área que “muita gente desvaloriza” e que é uma outra “pandemia” a que os media não dão a devida atenção.

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O corpo de Amélie foi encontrado ao final da tarde de terça-feira, depois de a menina ter saído de casa, para a escola, levando “todos medicamentos, incluindo os calmantes que lhe receitaram para tomar só em caso de emergência”, como revelou a mãe.

“Deixou a chave de casa em casa, que não é costume. Despediu-se de mim de manhã de uma forma especial e tem o telemóvel desligado desde ontem à noite”, lamentou ainda a mãe de Amélie quando anunciou o desaparecimento nas redes sociais.

Confinamentos com impacto “significativo”

Um relatório divulgado pela UNICEF, em Outubro do ano passado, alertou para o impacto negativo e duradouro da actual pandemia na saúde mental das crianças e jovens, denunciando também a falta de investimento público nesta área.

Intitulado “A Situação Mundial da Infância 2021 — Na minha Mente: promover, proteger e cuidar da saúde mental das crianças”, o relatório global salientava que esta temática já era um desafio antes da pandemia, mas que esta veio complicar.

“Com os confinamentos e todas as restrições relacionadas com a pandemia, as crianças perderam anos fundamentais das suas vidas longe da família, dos amigos, das escolas, das brincadeiras — elementos-chave da própria infância”, sublinhava o documento.

“O impacto é significativo, e é apenas a ponta do icebergue“, referia, na altura, a directora-executiva da UNICEF, Henrietta Fore.

Quase 46 mil adolescentes morrem todos os anos

De acordo com os dados da UNICEF, calcula-se que, a nível mundial, mais de um em cada sete jovens com idades entre os 10 e os 19 anos vivam com um distúrbio mental diagnosticado.

Quase 46 mil adolescentes morrem anualmente de suicídio, uma das cinco causas principais de morte neste grupo etário, aponta ainda a agência das Nações Unidas.

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A UNICEF vincava ainda, no relatório de 2021, que uma em cada sete crianças foi directamente afectada pelos confinamentos que foram decretados para tentar travar a propagação do novo coronavírus, enquanto mais de 1,6 mil milhões de crianças sofreram alguma perda ao nível da educação.

“A perturbação das rotinas, da educação, do lazer, assim como a preocupação com o rendimento familiar e a saúde, está a deixar muitos jovens com medo, revoltados e preocupados com o seu futuro”, notava também o relatório, frisando que uma média de um em cada cinco jovens dos 15 aos 24 anos se sente frequentemente deprimido ou com pouco interesse em fazer as coisas.

UNICEF pede “investimento urgente”

“É necessário que as autoridades estejam atentas e que ajam activamente, que se envolvam e comprometam, com as soluções necessárias para melhorar a qualidade da saúde mental das nossas crianças e jovens. É necessária uma maior atenção sobre este tema e um maior investimento“, salientava também a representante da UNICEF Portugal, Beatriz Imperatori.

“Os governos estão a investir muito pouco para fazer face a estas necessidades críticas. Não está a ser dada a devida importância à relação entre a saúde mental e os resultados da vida futura”, apontava ainda Henrietta Fore.

A UNICEF apelava, assim, a um “investimento urgente” na saúde mental das crianças e adolescentes em todos os sectores, desde a prevenção aos cuidados prestados.

Se estiver a sofrer de algum problema de saúde mental ou precisar de falar com alguém, procure ajuda.

SOS Voz Amiga (das 16 à meia-noite) – 213 544 545 (Gratuito)

Conversa Amiga (das 15 às 22 horas) – 808 237 327 (Gratuito) e 210 027 159

SOS Estudante (das 20 à 1 da manhã) – 239 484 020

Telefone Esperança (das 20 às 23 horas) – 222 080 707

Telefone Amizade (das 16 às 23 horas) – 228 323 535

  Susana Valente, ZAP // Lusa

6 Comments

  1. “…levou todos os medicamentos…”

    O que eu não consigo compreender é que os médicos receitem MEDICAMENTOS QUE MATAM a uma pessoa que já está deprimida. E que além de matarem, ainda têm como efeitos secundários “potenciar o suicídio”.
    NÃO COMPREENDO!

    E este caso não é único.

    • O problema das medicações antidepressivas mais usadas pelos médicos psiquiatras e existentes no momento, levam a uma euforia inicial, que pode levar aqueles depressivos graves a se sentirem que ” tem mais força”, podendo sair da apatia total para uma tentativa real de suicídio. Por isso devem ser muito bem acompanhados pelos médicos e familiares no início de qualquer tipo de medicação ante depressiva.

  2. Descansa em Paz!
    É muito complicado estar com uma depressão grave .
    Eu própria tentei o suicídio mas liguei para alguém porque sabia
    que os medicamentos que tinha tomado se não me ajudassem na hora
    eu neste momento não estava a relatar a minha história.
    Sim continuo dependente dos químicos mas tenho Deus ao meu Lado.

  3. Sinto muito a morte desta jovem e espero que se de finalmente atencao a verdadeira pandemia que Portugal e o mundo atravessam. Sao mais as mortes devido a “palermia” e a tudo o que a ela esta associado (confinamentos, retricoes, solidao, ansiedade, tristeza, isolamento, anos perdidos que nao voltam nunca mais…do que as mortes por covid. Acordemos!!!! Deixemos viver pois viver, ja por si, e um grande risco.

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