Militares norte-americanos mataram dezenas de civis ao bombardear laboratórios de metanfetamina

The U.S. Army / Flickr

Pelo menos 30 civis, incluindo mulheres e crianças, foram mortos pelas forças norte-americanas em ataques aéreos que ocorreram em maio, informou uma agência da ONU na quarta-feira. Os ataques visavam atingir supostos laboratórios de metanfetamina, localizados no oeste do Afeganistão.

De acordo com o relatório publicado pela agência, citado pela VICE, a maioria dos mortos ou feridos não trabalhava em laboratórios de drogas.

A Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA) informou que recebeu relatórios sobre 145 vítimas civis resultantes dos ataques aéreos. Dessas, a UNAMA verificou 39 vítimas civis (30 mortos, cinco feridos e quatro em estado grave ou indeterminado), incluindo 14 crianças. O relatório afirma que 17 desses civis estavam a trabalhar em laboratórios de drogas na época.

Além disso, “a UNAMA recebeu informações confiáveis ​​e credíveis para comprovar pelo menos mais 37 baixas civis (30 mortes e sete feridos), incluindo 30 crianças”. A organização “está a trabalhar para verificar se há mais vítimas civis”. As 69 baixas restantes sobre as quais a UNAMA recebeu relatórios permanecem sem verificação.

O relatório também confirmou alegações de que alguns dos locais atingidos não eram laboratórios de drogas. “A UNAMA recebeu informações confiáveis ​​de que vários locais atingidos não estavam associados a atividades de produção de drogas, incluindo residências”, acrescentou o relatório da ONU.

Os Estados Unidos (EUA), contudo, rejeitaram o relatório da ONU. “As Forças dos Estados Unidos – Afeganistão (USFOR-A) contestam as conclusões, a análise jurídica e a metodologia do relatório da ONU”, afirmaram em comunicado.

As fontes da ONU foram também questionadas: “A USFOR-A está profundamente preocupada com os métodos e as descobertas da UNAMA. Fontes com informações limitadas, motivos conflituantes e agendas violentas não são credíveis. A USFOR-A segue os mais altos padrões de precisão e responsabilidade para evitar danos a não-combatentes e danos colaterais”, acrescentou em comunicado.

Esta não é a primeira vez que os militares dos EUA são acusados ​​de atingir alvos civis nas suas campanhas de bombardeio anti-drogas. A VICE já havia relatado incidentes anteriores, nos últimos dois anos dessas campanhas, incluindo uma investigação de pesquisadores da London School of Economics, que descobriram que alguns alvos escolhidos pelos militares não eram instalações de fabricação de drogas, mas casas civis.

David Mansfield, membro sénior da London School of Economics, liderou a primeira equipa que investigou uma campanha dos EUA de bombardeio, designada Operação Iron Tempest, que visou os laboratórios afegãos de ópio entre 2017 e 2018.

A equipa recorreu a relatórios no terreno, produzidos com especialistas locais, além de imagens de satélite de alta resolução e inteligência de código aberto para verificar se havia vítimas civis durante a Operação Iron Tempest.

Segundo a VICE, essa campanha pouco fez para interromper o fluxo de heroína no Afeganistão, que ainda é o principal produtor mundial da droga.

“A decisão de bombardear laboratórios sempre me pareceu excessiva”, disse David Mansfield. Porém, os EUA voltaram à sua estratégia fracassada em maio deste ano, desta vez visando as instalações de produção de metanfetamina, que a equipa de David Mansfield mais uma vez investigou.

Atualmente, os químicos do Afeganistão adotaram uma nova rota para a síntese de metanfetaminas, usando um arbusto de montanha selvagem – conhecido como oman -, que contém contendo ephedra – um precursor da produção de metanfetamina. Isso levou a um ‘boom’ na produção e no uso local.

“Gostaria de pensar que o tipo de pesquisa minuciosa que fizemos sobre os ataques a laboratórios e a produção de metanfetamina nos últimos anos ajudou a destacar o quão caro e contraproducente os bombardeios têm sido, auxiliando a apontar para respostas mais eficazes e compatíveis com o direito internacional”, frisou David Mansfield.

Ainda no seu relatório, a UNAMA indicou que aqueles que foram mortos dentro dos laboratórios não eram alvos militares legítimos.

“O pessoal que trabalha dentro das instalações de produção de drogas não desempenhava funções de combate. Eles tinham, portanto, direito a proteção contra ataques e só poderiam ter perdido essa proteção se participassem diretamente nas hostilidades”, afirmou o relatório da ONU.

Os dados da ONU mostram um aumento acentuado nas apreensões de metanfetamina no Afeganistão, passando de nove quilos apreendidas em 2014 para 127 em 2017. As apreensões anuais atingiram 180 quilos em 2018 e 650 quilos só no primeiro semestre de 2019, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

TP , ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. Desde o tempo dos soviéticos, o bom trabalho dos americanos no Afeganistão continua… curiosamente nunca foi produzia lá tanta droga como agora…
    E, por ironia, o povo é só o mais drogado do mundo!…

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