Itália arrisca ser a primeira democracia ocidental governada pela extrema-direita

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Matteo Salvini, vice-primeiro ministro italiano, ministro do Interior e líder da Liga

Uma série de batalhas serão travadas nos próximos dias em Itália para formar um novo governo ou convocar eleições antecipadas. O Partido Democrático pode sofrer uma cisão, o Movimento 5 Estrelas uma pesada derrota eleitoral e a Liga passar a dominar a política italiana em caso de eleições antecipadas.

Segundo noticiou o Público, o primeiro combate foi travado na segunda-feira em conferência de líderes parlamentares no Senado. O segundo decorre nesta terça-feira, com os senadores a votarem o calendário da moção de desconfiança apresentada por Matteo Salvini, líder da Liga e vice-primeiro-ministro.

Na segunda-feira, os líderes parlamentares decidiram, por maioria de votos, agendar a intervenção do primeiro-ministro, Giuseppe Conte, para 20 de agosto. Porém, por falta de unanimidade, a presidente do Senado, Elisabetta Casellati, deliberou que os senadores terão de votar individualmente o calendário da moção de desconfiança.

Provável aliado da Força Itália de Silvio Berlusconi, Matteo Salvini exigia que o debate e votação fossem agendados já para esta terça e quarta-feiras, enquanto os restantes partidos defenderam que fossem no dia 20.

Para o ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, os poucos dias de diferença são a chave para se negociar a formação de um governo institucional, enquanto o Movimento 5 Estrelas quer avançar com a votação prévia de uma emenda constitucional para reduzir o número de deputados, que, caso seja aprovada, impedirá eleições antes da próxima primavera, pois obriga a consultar os italianos em referendo.

Além disso, esperar até 20 de agosto daria tempo a Giuseppe Conte, aliado do Movimento 5 Estrelas, para poder explicar a crise ao povo italiano.

Perante a situação do Governo, Matteo Salvini exigiu eleições imediatas e a demissão de Giuseppe Conte, mas ambas foram recusadas. Decidiu então apresentar uma moção de desconfiança contra o executivo, numa altura em que os deputados e senadores estão, normalmente, de férias.

Alessandro Di Meo / EPA

O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte

Perante a derrota anunciada, Matteo Salvini tem uma última cartada ao seu dispor: forçar os ministros do seu partido a demitirem-se. O Governo cairia de imediato e o Movimento 5 Estrelas teria de agir contra o tempo para formar novo executivo.

Isto no caso de o Presidente italiano, Sergio Mattarella, o aceitar, visto que o chefe de Estado detém o poder de dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas ou permitir a Luigi Di Maio, líder do partido mais votado, tentar formar uma nova coligação para governar.

Na sondagem de 29 de julho do La Repubblica, a Liga surgia na liderança destacada com 38% dos votos, permitindo-lhe formar um Governo com maioria absoluta com o Irmãos de Itália (6,6%) e a Força Itália (6,5%). O Partido Democrático surgia em segundo, com 22%, e o Movimento 5 Estrelas, que ganhou as eleições em 2018, em terceiro com 17,3%.

A jogada de Matteo Salvini para acabar com a legislatura que deveria durar até 2023 é também uma tentativa de definir que Parlamento eligirá o próximo Presidente, se o atual ou um futuro por si controlado. Dominando Governo e Parlamento, ficaria bem posicionado para as eleições municipais de maio de 2020, referiu o Público.

A ser bem-sucedido, o vice-primeiro-ministro conseguirá liderar o primeiro Governo composto exclusivamente da extrema-direita na Europa Ocidental.

Manobras à esquerda

É precisamente esta hegemonização da política italiana que o antigo primeiro-ministro Matteo Renzi diz querer evitar a todo o custo. “Um governo institucional é a resposta para aqueles que querem plenos poderes para orbanizar Itália”, afirmou no Twitter, em referência à transformação do regime húngaro pelo líder de extrema-direita Viktor Orbán. E sublinhou: “É uma loucura ir a votos”.

A ideia de Matteo Renzi pode ter números para resultar. Em minoria, Matteo Salvini terá do seu lado 259 deputados (em 630) e 149 senadores (315), segundo contagem do Corriere della Sera, enquanto o campo do governo institucional detém 322 deputados e 166 senadores. Contudo, o campo institucional dá sinais de fragilidade e as divisões no Partido Democrático vêm à tona.

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Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro italiano

Sem nunca lhe chamar cisão, Matteo Renzi ameaçou com a criação de um novo partido – o Ação Civil -, caso a liderança do Partido Democrático não adira à ideia do governo institucional. Controla grande maioria da bancada parlamentar, fruto das legislativas do ano passado, contra o secretário-geral, Nicola Zingaretti, que deseja novas eleições.

“Não é credível que um governo faça a manobra económica e depois dispute eleições, seria um presente para uma direita perigosa que toda a gente quer travar”, argumentou Nicola Zingaretti, apelando à união no partido que lidera.

Nicola Zingaretti vê o cenário de eleições como oportunidade de afastar os apoiantes de Matteo Renzi de futuras listas, mas também receia que Matteo Salvini saia vencedor ao ficar de fora de um governo apoiado por esta legislatura.

É provável que o futuro executivo tenha de subir os impostos e, por isso, venha a gerar descontentamento. Além disso, os dois principais partidos desse hipotético executivo, o Partido Democrático e o Movimento 5 Estrelas, estão hoje em minoria nas intenções de voto, permitindo a Matteo Salvini acusá-los de golpe.

Porém, Matteo Renzi mostra-se irredutível, mesmo quando as hipóteses são escassas. Hipóteses enterradas na segunda-feira, no Facebook, por Luigi Di Maio: “Ninguém se quer sentar à mesa com Renzi”.

Ao aceitar as políticas da Liga, o Movimento 5 Estrelas caiu nas sondagens, perdeu votos nas europeias e Luigi Di Maio ficou sem muito do seu capital político, e nem todos dão sinais de alinhar na sua posição.

“Depois de termos governado com a Liga, acho que até somos capazes de fazer um acordo com Belzebu”, admitiu a deputada do Movimento 5 Estrelas Roberta Lombardi, em entrevista ao La Repubblica.

TP, ZAP //

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