Inédito: mãe condenada por homicídio de quatro estudantes mortos pelo filho

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Jennifer Crumbley

Mãe de assassino de 15 anos foi considerada culpada de homicídio involuntário esta terça-feira — uma decisão sem precedentes nos EUA. O veredicto pode ter grandes implicações no sistema jurídico norte-americano.

Numa decisão sem precedentes, um júri nos EUA responsabilizou criminalmente esta semana a mãe de um atirador em massa de 15 anos pela morte de quatro estudantes numa escola secundária, num ataque em que outras sete pessoas ficaram feridas.

Jennifer Crumbley, de 45 anos, tornou-se a primeira mãe nos EUA a ser condenada por homicídio por negligência devido a um tiroteio orquestrado pelo seu filho. A acusação afirmou que a mãe foi negligente ao permitir que o seu filho tivesse acesso a uma arma e por ignorar os sinais do seu comportamento.

O pai do jovem, James, enfrenta um julgamento separado pelas mesmas acusações. Declarou-se inocente.

Já o seu filho, agora com 17 anos, foi condenado em dezembro a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional por matar quatro colegas na Escola Secundária de Oxford, no estado de Michigan, a 30 de novembro de 2021.

Jennifer Crumbley não mostrou qualquer emoção durante o julgamento e olhou sempre para baixo enquanto o veredicto era lido no tribunal do condado de Oakland esta terça-feira.

Acusada de quatro crimes de homicídio por negligência, cada um sujeito a uma pena máxima de 15 anos de prisão, Crumbley foi considerada culpada de homicídio involuntário na terça-feira — é a primeira vez que um pai ou mãe são condenados pelo papel do seu filho num tiroteio em massa.

O caso levantou questões sobre quem mais pode ser responsabilizado por um ataque em massa quando uma criança dispara uma arma. Foram mesmo os pais de Crumbley que lhe deram a arma usada poucos dias antes do ataque. Ambos tentaram fugir após serem acusados de homicídio por negligência.

A escola também enfrenta críticas — há quem diga que a instituição poderia ter evitado a tragédia.

Passado conturbado

Antes do tiroteio em Oxford, uma amiga da família Crumbley, Kayla LeMieux, nunca tinha prestado muita atenção a Ethan, o autor do tiroteio que vitimou outros quatro jovens. Conhecia-o desde que este era um menino de 9 anos que vivia do outro lado da rua da sua casa, nas proximidades de Lake Orion, no estado de Michigan.

LeMieux trabalhou com a mãe de Ethan, Jennifer, num restaurante em 2015, e aproximou-se da família depois de eles se mudarem para um apartamento perto no Lago, antes de se estabelecerem em Oxford. Confessou que o casal Crumbley deixava o filho sozinho em casa várias vezes quando ele tinha 9 anos, durante horas, enquanto iam beber na cidade.

Durante esse período, Ethan ia até casa dela, onde as interações eram perturbadoras, conta.

“Ele era muito apático, muito distante, manipulador. Mentia muito”, disse LeMieux, que recorda um episódio em que o viu retirar um ninho de pássaros de uma árvore e pisá-lo — um comportamento chamou a atenção de LeMieux e do seu namorado.

“Nós dissemos: ‘Um dia, ele vai matar alguém'”, recorda.

No tribunal, os advogados de Ethan Crumbley descreveram uma infância semelhante, com testemunhos de um especialista em psicologia que disse que o jovem era uma “criança selvagem” negligenciada pelos pais e vítima de doenças mentais.

No caso contra os seus pais, a acusação argumentou também que os Crumbleys estavam, por vezes, mais focados nos seus casos extraconjugais e em passar tempo com os seus cavalos do que em cuidar do declínio da saúde mental do seu filho.

Tudo isto levou LeMieux a contactar os Serviços de Proteção à Criança.

“Ele foi tão negligenciado. Era apenas um bebé. Estava preocupada com ele. Essa não é a forma de uma criança crescer”, disse.

O caso contra os Crumbleys

A lei dos EUA é normalmente concebida para responsabilizar apenas os indivíduos pelas suas próprias ações, garantem especialistas jurídicos. Contudo, vários aspetos do caso Crumbley permitiram que a procuradora do condado de Oakland, Karen McDonald, avançasse com acusações contra os pais.

A família comprou a arma especificamente para Ethan como presente de Natal antecipado e não assegurou a sua segurança adequada, alegam os procuradores.

Os pais também se recusaram a levar o filho da escola para casa no dia do ataque, como foi sugerido pelos funcionários escolares, que encontraram desenhos de uma arma e figuras ensanguentadas da autoria de Ethan.

Caitlin Cavanagh, professora da Escola de Justiça Criminal da Universidade Estadual de Michigan, afirma que a cultura popular tende a retratar os pais como os principais responsáveis pela delinquência juvenil, mas refere que vários fatores podem contribuir para que alguém cresça e se torne violento.

“Normalmente não é apropriado sugerir que os pais assumam total responsabilidade pelos crimes dos seus filhos”, disse. “Mas cada caso é diferente e, certamente, entender o contexto familiar de uma criança pode ajudar-nos a compreender as suas ações”.

No entanto, apesar de os Crumbley serem os primeiros a enfrentar acusações de homicídio por negligência pelo ataque em massa perpetrado pelo seu filho, os procuradores têm tentado cada vez mais responsabilizar terceiros por homicídios.

Em novembro, o pai de um homem acusado de matar sete pessoas num desfile de 4 de julho em Highland Park, no Estado do Illinois, admitiu ser culpado de conduta negligente por ajudar o seu filho adulto a obter a arma usada no ataque.

No mesmo mês, a mãe de um rapaz de 6 anos que disparou contra a sua professora foi condenada a 21 meses de prisão na Virgínia, após declarar-se culpada de negligência infantil.

ZAP // BBC

5 Comments

  1. Se ele não pode ser responsabilizado, é perfeitamente normal que esta recaia sobre os pais (educadores).
    Assim, ficando sozinho e por conta própria, pode ser que aprenda, e até ser “maior” …

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