Repressão em Hong Kong. Ativistas detidos, manifestações canceladas e exercícios militares na fronteira

Prachatai / Flickr

O ativista Joshua Wong

Três ativistas pró-democracia foram detidos em Hong Kong esta sexta-feira, no mesmo dia em que foi cancelada a manifestação que estava convocada para o próximo sábado – um sinal de que as autoridades da região autónoma chinesa podem estar a aumentar a repressão ao movimento.

A polícia de Hong Kong confirmou a detenção dos três ativistas, Joshua Wong, Agnes Chow e Andy Chan. Antes disso, já o partido Demosisto, do qual o primeiro é secretário-geral, tinha anunciado a detenção do seu líder no Twitter, noticiou a Rádio Observador.

“Joshua Wong foi detido esta manhã, por volta das 07:30 (00:30 em Lisboa), quando caminhava em direção à estação South Horizons MTR. Foi empurrado à força para uma pequena carrinha não identificada, no meio da rua, em plena luz do dia”, explicou o partido na publicação.

Este, indicado para o prémio Nobel da Paz em 2018 e uma das figuras de destaque nos protestos Occupy, em 2014, está acusado de organizar, incitar e participar em manifestações ilegais a 21 de junho, revelou o South China Morning Post. Agnes Chow, outra ativista do mesmo movimento, é acusada de incitar e participar na manifestação.

Andy Chan, ativista e fundador do Partido Nacional de Hong Kong (pró-independência), foi detido na noite de quinta-feira, quando ia embarcar num avião com destino a Tóquio, no Japão. É suspeito dos crimes de motim e de atacar um agente da polícia.

Em reação às detenções, o partido Demosisto afirmou que o objetivo da ação das autoridades de Hong Kong é o de “espalhar o medo”. “Querem apanhar os chamados ‘líderes’ do movimento para assustar as outras pessoas, que pensam que vão ser as próximas [detidas]”, afirmou Isaac Cheng, vice-presidente do partido.

As detenções ocorrem na mesma altura em que é conhecida a proibição da manifestação que estava marcada para o próximo sábado, dia 31 de agosto. A Frente pelos Direitos Civis e Humanos, organizadora do protesto, anunciou esta sexta-feira que o pedido de manifestação não foi autorizado pelas autoridades. Quem desobedecer pode enfrentar até cinco anos de prisão, alertaram as forças policiais.

“O nosso princípio mais importante é o de proteger os participantes e garantir que não terão consequências legais por participar no protesto”, explicou Bonnie Leung, da organização, citada pela CNN. “Por causa da decisão, não vemos forma de conseguir manter este princípio e, ao mesmo tempo, avançar com a marcha. Assim sendo, a Frente não terá outra opção senão a de cancelar o protesto”.

Contudo, Isaac Cheng, do Demosisto, reforçou na sua declaração desta sexta-feira que “o terror não é útil quando se tem esperança” e afirmou estar convicto de que os habitantes de Hong Kong irão à mesma manifestar-se este sábado, com ou sem autorização das autoridades. “Já não há espaço para o diálogo. Eles não respondem às nossas cinco exigências e continuam a utilizar a violência”, disse, numa radicalização de posições.

As cinco exigências a que Isaac Cheng se refere são a retirada do projeto de lei que permitira a extradição de habitantes de Hong Kong para a China continental – que deu origem aos protestos, em junho; a demissão da líder de Hong Kong, Carrie Lam; uma investigação à brutalidade policial; a libertação dos ativistas que foram detidos durante os protestos e maiores liberdades democráticas.

A ativista Agnes Chow

A situação em Hong Kong agrava-se pelo facto de a região fazer parte do chamado modelo “um país, dois sistemas”, em que Pequim concede mais liberdades à antiga colónia britânica face ao que acontece na China continental. Contudo, o movimento pró-democracia em Hong Kong tem estado cada vez mais ativo e uma série de manifestações intensas têm-se sucedido desde junho.

O aumento da repressão por parte de Pequim e das autoridades de Hong Kong, com a detenção de ativistas e cancelamento da marcha agendada para sábado, acontece um dia depois de as forças paramilitares chinesas terem realizado um exercício anti-motim em Shenzen, região que faz fronteira com Hong Kong.

De acordo com o Global Times – jornal chinês próximo do Partido Comunista Chinês -, os exercícios envolveram centenas de homens armados que simularam ataques com cassetetes e canhões de água a outros militares que se faziam passar por manifestantes.

Ainda esta semana, a líder de Hong Kong, Carrie Lam, deixou em aberto a possibilidade de ativar poderes de emergência para lidar com os protestos: “O Governo é responsável por analisar todas as leis em Hong Kong que puderem fornecer meios legais para travar a violência e o caos”, afirmou.

Segundo o South China Morning Post, a lei de emergência ou de “perigo público” dá às autoridades poderes reforçados para deter pessoas, censurar os media e suspender ou corrigir leis para lidar com a situação em causa.

Lam propôs ceder a algumas exigências. Pequim rejeitou

Também nesta sexta-feira, Carrie Lam sugeriu ceder a algumas exigências dos manifestantes, como a eliminação da lei da extradição, num relatório enviado a Pequim durante este verão. O Governo central chinês, contudo, rejeitou a proposta e ordenou-lhe que se mantivesse firme na sua posição, avançou a Rádio Observador.

A notícia foi dada pela Reuters, que falou com três fontes envolvidas no processo e que confirmaram a existência do relatório e a resposta de Pequim. Contactado pela agência, o gabinete de Carrie Lam confirmou que o seu governo fez esforços para considerar as preocupações dos manifestantes, mas não fez comentários sobre o relatório ou sobre a resposta do Governo central chinês. Este, por sua vez, não respondeu às perguntas.

Jerome Favre / EPA

A líder de Hong Kong, Carrie Lam

O relatório de Carrie Lam terá sido apresentado algures nos dois meses antes de uma reunião entre esta e representantes chineses, a 07 de agosto, em Shenzhen. Um representante chinês ouvido pela Reuters disse que o relatório foi apresentado pelo Grupo de Coordenação Central para os Assuntos de Hong Kong e Macau e o Presidente Xi Jinping tem conhecimento da sua existência.

No documento analisavam-se as cinco exigências dos manifestantes e, segundo as fontes ouvidas pela Reuters, Hong Kong ter-se-á mostrado disponível para retirar de vez a lei da extradição e abrir uma investigação à ação policial. O objetivo era ajudar a pacificar os protestos. Atualmente, a lei da extradição está suspensa, mas não foi retirada.

A resposta de Pequim, contudo, foi clara: Carrie Lam não deveria tomar nenhuma dessas iniciativas. “Eles disseram que não a tudo”, afirmou uma das fontes, próxima do governo de Hong Kong.

“A situação é muito mais complicada do que a maioria das pessoas pensam”. Outro dos responsáveis ouvidos pela Reuters, mais próximo de Pequim, confirmou que a China rejeitou as propostas e demonstrou que gostaria que o governo regional de Hong Kong tomasse mais iniciativa nesta questão.

Taísa Pagno TP, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Rebentem com a China! Já chega de regimes repressivos. Democracia já! Eles não podem matar os Chineses todos. A população da China continental deveria aderir em massa ao movimento.

    • Mas não vão aderir. A população da China não faz ideia do que Tiananmen. Pensam que os turcomanos são terroristas e em Hong Kong está tudo ok, excepto por uns arruaceiros que vão ser corrigidos. para eles o governo está agir muito bem. Desde que haja crescimento económico tudo é tolerável.

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