A Grande Mancha de Lixo do Pacífico tornou-se a casa de novas espécies marinhas — e isso é um problema

Há cada vez mais espécies costeiras a expandirem-se para o território formado por resíduos do consumi humano. Isto traz desequilíbrios a um ecossistema já de si carente de recursos.

A Grande Mancha de Lixo do Pacífico é um mal por si só. Representa o falhanço da humanidade em reverter os seus hábitos quando a ciência apresenta provas de que esses mesmos hábitos estão a contribuir para a destruição do único planeta que até agora o Homem conheceu como seu. A Mancha é composta por 1.6 milhões de metros quadrados de lixo à tona do Oceano, cerca de 79 mil toneladas de restos de plástico.

Num estudo recente, Linsey Haram, ecologista e investigadora, apontou outra consequência inerente a este fenómeno e que tem que ver com a migração de espécies habitualmente costeiras para a Mancha, território que estão a colonizar. No artigo académico que discute os resultados da pesquisa, a autora sugere ainda que as espécies decidiram chamar a Mancha de Lixo “casa“.

A investigadora nota ainda que se está a registar uma mudança na composição das espécies oceânicas invertebradas, face ao aparecimento de mais diversidade de espécies costeiras capazes de ocupar o território formado por resíduos de plástico.  Entre estas espécies estão, por exemplo, anémonas, os hidróides e os anfípodos — semelhantes aos camarões.

A equipa chama a estas novas comunidades neopelágicas, com neo a significar “novas” e “pelágicas“, referindo-se ao oceano aberto, em oposição à costa. Historicamente, as espécies invertebradas oceânicas eram, em grande parte, neustónios: pequenos organismos que se prendem à parte superior ou inferior da película se superfície do oceano. Tal como nota o Science Alert, o aparecimento destes novos organismos costeiros terão a capacidade de desequilibrar ainda mais um ecossistema que, já de si, é delicado e carece de recursos.

A introdução destas novas espécies costeiras a águas oceânicas e abertas representa uma mudança paradigmática na biogeografia marinha, por inúmeras razões. Primeiramente, as vastas extensões de águas abertas há muito que são consideradas barreiras físicas e biológicas para a dispersão de espécies, com alguns eventos climáticos esporádicos a desencadearem algumas oportunidades de expansão.

“Esta situação já não parece ser o cenário real, já que existe um habitat apropriado a elas no alto oceano e os organismos costais conseguem sobreviver no mar durante anos e reproduzir, o que origina comunidades auto-sustentáveis nos mares altos”, explica a autora. Adicionalmente, a existência de comunidades de espécies auto-sustentáveis no alto oceano pode dar a estas espécies — e a outras espécies marinhas — uma espécie de “ambiente trampolim” antes de estas se propagarem para novos habitats costeiros.

Ainda assim, a autora nota que muitas das questões que surgiram durante a pesquisa permanecem por responder, pelo que são precisas mais investigações para se ter um conhecimento aceitável sobre o que são verdadeiramente os ecossistemas neopelágicos. “Precisamos de saber até que ponto as comunidades neopelágicas se auto-sustentam ou exigem a entrada contínua de barcos, propágulos, e fluxo de genes frequentes na costa”, afirmam os autores no artigo. Perceber o conjunto de fatores abióticos que podem afetar o sucesso das comunidades costais em águas oceânicas abertas é também importante.

  ZAP //

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