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Cientistas desenvolveram glândulas lacrimais (e fizeram-nas chorar)

Geralmente, não é bom sinal quando fazemos alguém chorar. Mas, neste caso, pode significar exatamente o contrário. Pela primeira vez, cientistas desenvolveram glândulas lacrimais a partir de células estaminais humanas e conseguiram induzi-las a produzir lágrimas.

As glândulas lacrimais são as responsáveis por manter os nossos olhos lubrificados e, caso haja algum problema com elas, podemos ficar com os olhos muito húmidos ou muito secos (de forma dolorosa).

Os atuais tratamentos variam entre colírios e cirurgias, contudo, as opções tendem a ser limitadas, até porque, como dizem vários investigadores, ainda é uma parte do nosso corpo pouco compreendida.

Agora, conta o site Science Alert, cientistas conseguiram fazer crescer glândulas lacrimais a partir de células estaminais humanas. Primeiro, desenvolveram organoides lacrimais (estruturas minúsculas e tridimensionais que replicam a função de todo o órgão).

Depois, para induzi-los a produzir lágrimas, a equipa expôs os organoides à norepinefrina – também conhecida como noradrenalina, um neurotransmissor que desencadeia as lágrimas -, e estes começaram a inchar como um balão à medida que as células libertavam as lágrimas no seu interior.

(dr) Marie Bannier-Hélaouët / Hubrecht Institute

Os organoides a inchar como um balão

Nestas células, os investigadores realizaram o sequenciamento mRNA para gerar um atlas de células na glândula lacrimal e foram, então, capazes de determinar que os dois tipos diferentes de células – ductal e acinar – produzem componentes diferentes das lágrimas produzidas na glândula.

De seguida, vieram os organoides de cobaias. Com estes, a equipa implantou o CRISPR-Cas9 para apagar um gene chamado Pax6, que desempenha um papel crítico no desenvolvimento embrionário de órgãos, incluindo os olhos e as glândulas lacrimais.

Com este gene de fora, os organoides perderam a expressão de recetores de neurotransmissores e de genes envolvidos na secreção, produção de lágrimas e metabolismo do retinol.

Por fim, os cientistas quiseram testar a possibilidade de usar os organoides lacrimais para transplante. Para isso, pegaram em algumas das células lacrimais humanas e transplantaram-nas numa glândula lacrimal de um cobaia. Em duas semanas, as células foram enxertadas e integradas na glândula, formando estruturas ductais.

Além disso, permaneceram na glândula por, pelo menos, dois meses e algumas das células continuaram a crescer e a dividir-se dois meses depois, estando até a produzir proteínas lacrimais.

Esta pode ser uma conquista gigante para ajudar a desenvolver novas terapias para distúrbios das glândulas lacrimais e ser mais um passo no longo caminho em direção às terapias regenerativas.

“Esperamos que os cientistas usem o nosso modelo para identificar novas opções de tratamento para pacientes com distúrbios das glândulas lacrimais, podendo testar novos medicamentos nos organoides de um paciente ou expandindo células saudáveis. E, um dia, ser possível usá-los para transplante”, disse o geneticista molecular Hans Clevers, do Instituto Hubrecht, na Holanda, e um dos autores do estudo publicado, esta terça-feira, na revista científica Cell Stem Cell.

  ZAP //

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