Campo de futebol só para meninas. Pai queixa-se da escola à Comissão para a Igualdade de Género

O horário do campo de jogos do Centro Escolar de Marinhais, em Salvaterra de Magos, que prevê um dia reservado apenas para as meninas, originou uma queixa de um pai à Comissão para a Igualdade de Género. A Escola fala em discriminação positiva.

Nuno Mário Antão, pai de uma criança do Centro Escolar de Marinhais, em Salvaterra de Magos, apresentou queixa na Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género depois de ter percebido que a escola divide rapazes e raparigas nos horários atribuídos para o uso do campo de jogos.

É comum as escolas estipularem regras para a utilização dos espaços de recreio, nomeadamente campos de futebol e parques infantis, para manter a ordem nestes locais. Mas Nuno Mário Antão ficou indignado quando percebeu que no Centro Escolar de Marinhais há um dia em que o campo de jogos fica reservado apenas para as meninas.

Este pai, que é militante do PS e que foi presidente da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Salvaterra de Magos, divulgou no Facebook o aviso afixado na escola com os horários, onde aparece assinalada a sexta-feira como o dia das meninas a cor-de-rosa.

“Explicaram-me que o que lá jogam é futebol e que os meninos não deixam as meninas jogar com eles”, conta Nuno Mário Antão em declarações ao Público. “Se não deixam, têm de ser ensinados a deixar”, acrescenta o encarregado de educação.

A adjunta da directora do agrupamento, Ana Arrais, explica ao Público que a medida é de discriminação positiva, motivada pelo facto “realista”, como diz, de os rapazes jogarem habitualmente futebol e as raparigas nem tanto.

Suécia aposta na neutralidade

Esta temática é controversa, no domínio da educação para a Igualdade de Género. Há especialistas como a ex-professora Ellie Mulcahy, que é investigadora na thinktank de educação LKMco, que defendem que “separar rapazes e raparigas não faz nada para enfrentar a desigualdade estrutural subjacente na sociedade” e que, pelo contrário, “reforça estereótipos de género prejudiciais“, como nota num artigo de opinião no The Guardian.

Neste sentido, o sistema educacional da Suécia aposta numa filosofia assente na abordagem de género neutra, em que os professores são incentivados a porem de lado diferenças entre os sexos – por exemplo, a chamarem as crianças por “amigos” ou pelos seus nomes em vez de usarem o “meninos e meninas”. Em 2012, surgiu mesmo o pronome de género neutro “hen que se tornou corriqueiro no dia-a-dia dos suecos.

O Currículo nacional da Suécia determina também que os professores devem contradizer os papéis de género tradicionais e que a hora do recreio deve ser organizada de modo a prevenir que haja uma separação entre meninos e meninas.

Islândia tem sucesso na separação de meninos e meninas

Contudo, na Islândia, país mundialmente elogiado como um dos melhores do mundo para se ser mulher, fruto das fortes políticas de Igualdade de Género, há um exemplo que tem sido elogiado de uma escola que separa meninas e meninos.

Na “Escola Hjalli”, um jardim de infância em Reiquiavique, a capital islandesa, rapazes e raparigas são separados, de modo a poder desenvolver com cada grupo traços que são tradicionalmente atribuídos ao outro sexo. Assim, as meninas são incentivadas a serem corajosas e independentes, enquanto os meninos são motivados a colaborarem mais em grupo e a serem mais carinhosos.

A fundadora da escola, Margret Pala Olafs, destaca em declarações numa reportagem da The Economist que a ideia é promover o afastamento das “qualidades extremas” de cada um dos sexos.

Com os rapazes “sempre fortes, sempre decididos, sempre a comandarem, eles vão acabar por fazerem bullying, lutarem, quebrarem as regras”, diz Margret. E no caso das raparigas, se “forem sempre prestáveis, cuidadosas, a pensar nos outros, sempre a olharem para um amigo à espera de aceitação, vão acabar por se esquecer de si próprias”, constata.

E a segregação estará a surtir bons resultados, com os estudantes desta escola a revelarem “um melhor entendimento da Igualdade de Género” mais tarde nas suas vidas, em comparação com crianças de outras escolas, segundo um estudo citado pela The Economist.

SV, ZAP //

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7 COMENTÁRIOS

  1. A Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas de Marinhais vem por este meio pronunciar-se sobre a notícia publicada na página online do Jornal Público do dia 8 de Janeiro de 2019 e que tem por título “Escola reserva campo de jogos para meninas e pai queixa-se à comissão para a igualdade de género”, da autoria de Ana Cristina Pereira. Pretende também mostrar o seu apoio à Direção do Agrupamento de Escolas de Marinhais.
    A Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas de Marinhais tem conhecimento do horário que regula a utilização do campo de jogos do Centro Escolar de Marinhais. O mesmo já está em vigor há vários anos e vem da anterior direção do Agrupamento.
    Está organizado para que cada ano possa usar, em dia específico, o espaço. A sexta-feira está reservada às meninas, para estas terem a oportunidade de o usar.
    Não o consideramos como uma forma de discriminação de género – nem positiva, nem negativa – mas sim como uma forma de regulamentar o uso de um espaço desportivo, abrindo-o a todos os alunos da escola.
    A Direção do Agrupamento de Escolas de Marinhais promove o pluralismo e a igualdade de oportunidades entre os alunos. E esse documento comprova-o. Não consideramos que se estejam a reproduzir estereótipos e preconceitos dentro do espaço escolar.
    Aliás, consideramos que o mito de que os rapazes são melhores no futebol que as meninas persiste, e louvamos que a presente direção, assim como a anterior, encorajem as meninas a participarem, capacitando-as e aumentando a sua auto-estima desportiva.
    No entanto, entendemos que as escolas têm outros problemas mais prementes para resolver, nomeadamente, o número insuficiente de assistentes operacionais para todo o espaço escolar, a dotação financeira que a escola tem para fazer face a todas as despesas, incluindo a manutenção do espaço escolar da Escola Sede do Agrupamento, que tem mais de 25 anos.
    Sim, as escolas em Portugal têm muitos problemas e precisam de muita ajuda dos pais para os resolver, mas este, no entender da Associação de Pais não é um problema real. Apenas mediatização de uma “não notícia”! Um exagero!

    • É esta democracia que devia incomodar. Quando não dá jeito, é um não assunto, há outros problema prioritários. Já agora para quando a igualdade de género nas escolas com quotas para professores do Sexo Masculino, bem como para funcionários do sexo masculino ? Também é um não assunto …

      • O tal dia de sexta-feira para meninas parece-me um não assunto na minha modesta opinião. Já o que refere acerca de quotas para professores e funcionários do sexo masculino parece-me absolutamente relevante e tenho a certeza seria altamente benéfico para a qualidade do ensino, além de garantir igualdade de género no acesso à profissão.

    • Antes de outras considerações os meus sinceros parabéns pela prosa escorreita. O Miguel Queiroz, aqui comentador, poderia aproveitar para aprender qualquer coisa.
      Quanto aos problemas que a escola apresenta (e muitas outras apresentam a nível nacional) deveriam ter sido resolvidos por esse caso de polícia, sob o nome de Parque Escolar. Inicialmente, previa-se a intervenção em mais de 300 escolas. No fim, apenas cento e poucas foram intervencionadas e pelo triplo do dinheiro inicialmente previsto para as mais de 300 escolas. Candeeiros de 2500 euros, torneiras de 500 euros, comissões,… e muitas outras coisas que nunca chegaram ao público, delapidaram uma vez mais o erário público.
      Depois, promoveu-se a ideia que o problema da educação estava das escolas privadas. Não. O problema está na forma como a coisa pública sempre foi gerida em Portugal. O dinheiro de todos rapidamente se transforma no dinheiro de alguns. E esse problema estrangulará sempre qualquer esperança de um dia podermos vir a ter a educação, a saúde, a justiça,… com os recursos que necessitam.
      Deixo para concluir uma frase de César das Neves e que em grande medida ilustra o nosso Estado e a visão que os portugueses têm do mesmo em matéria de impostos: Por que razão deveremos levar as uvas à adega se o seu responsável é um bêbado?

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