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Estilista americana pede desculpas por “roubo” descarado de camisola poveira (mas a Câmara quer mais)

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Choveram críticas nas redes sociais e no site da estilista norte-americana Tory Burch que colocou à venda, na sua loja online, uma camisola típica da Póvoa de Varzim como se fosse um design seu e a um preço 10 vezes mais alto do que o original. A estilista viu-se forçada a pedir desculpas, mas a Câmara quer mais.

Em causa está a chamada camisola poveira que faz parte da história da Póvoa de Varzim, tendo uma forte ligação à comunidade piscatória. A camisola feita à mão naquela cidade custa cerca de 60 euros.

Na loja online da estilista Tory Burch, estas camisolas estão à venda por 695 euros.

Inicialmente, as camisolas começaram por ser descritas como tendo origem no México, mas depois passaram a apresentar-se como sendo uma inspiração da estilista.

Finalmente, depois da chuva de críticas nas redes sociais e nos comentários da própria loja online, passaram a ser definidas como “inspiradas” na Póvoa de Varzim.

“A nossa túnica de malha de lã merino é baseada na tradicional camisola poveira” que teve “origem nos anos de 1800” e que “era usada pelos pescadores durante o tempo frio”, nota o site de Tory Burch.

A “nossa versão apresenta ombros caídos, uma bainha cortada e um ajuste ligeiramente grande”, aponta-se ainda na descrição do produto.

Contudo, nas redes sociais, as pessoas notam que não se pode falar em inspiração e que estamos perante um “roubo” descarado e uma “apropriação cultural”, pois entendem que a camisola vendida pela estilista é uma “pura cópia” da versão original.

Estilista pede “desculpas aos portugueses”

Entretanto, Tory Burch já pediu “sinceras desculpas aos portugueses”, com uma nota nas redes sociais, escrita em Português e em Inglês, onde refere que a camisola foi atribuída “erroneamente” como tendo sido “inspirada em Baja – México”.

Foi um erro não termos feito referência às bonitas e tradicionais camisolas de pescador tão representativos da cidade da Póvoa de Varzim”, aponta ainda a estilista.

A profissional da moda acrescenta ainda que pretende “reconhecer ainda mais essa importante tradição” e que, por isso, está já “a trabalhar em conjunto com a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim de forma a encontrar as melhores soluções para apoiar os artesãos locais”.

“A Tory Burch representa a inclusão e a celebração de diversas culturas, iremos nos esforçar para fazer o melhor no futuro”, promete ainda a estilista.

“Não lhes poupo nada”, avisa autarca da Póvoa

Fonte da Câmara Municipal já confirmou o contacto com a estilista, referindo que está “em conversações com Tory Burch”, conforme nota o Jornal de Notícias (JN).

“Fomos contactados por uma representante legal da marca em Portugal a dizer-nos que estavam disponíveis para criar um protocolo que pusesse fim à situação”, esclarece ainda o presidente da Câmara da Póvoa de Varzim, Aires Pereira, em declarações ao Expresso.

Mas as negociações não têm sido fáceis e o mais provável é que a Câmara avance com um processo judicial contra a marca, como admite o autarca.

“Não lhes poupo nada”, avisa o presidente de Câmara, notando que a autarquia não tem interesse nos “milhões de dólares”, até porque a peça tem um valor simbólico que “não é mensurável”.

“Morreu muita gente com aquela camisola vestida”, diz ainda Aires Pereira no semanário.

“Exigimos o reconhecimento da propriedade intelectual”, salienta o autarca citado pelo JN.

Já o presidente da Junta de Freguesia da Póvoa, Ricardo Silva, destaca na SIC que estamos perante “um crime muito grande” que está “a lesar a nossa identidade”.

E apesar do pedido de desculpas e das rectificações da estilista no site, Ricardo Silva lamenta que “o dano maior ficou”, pois quando se faz uma pesquisa no Google por “baja inspired sweater”, o que aparece é a camisola poveira.

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Na verdade, aquando da redacção deste artigo, isso não sucedia na pesquisa no motor de buscas.

A Junta de Freguesia tem em marcha um processo de certificação da camisola poveira desde 2015.

Tory Burch também vende peças “inspiradas” em Bordallo Pinheiro

Entretanto, a estilista está ainda a ser acusada de “apropriação” de designs do artista português Raphael Bordallo Pinheiro por causa da sua colecção de louça que inclui peças inspiradas em alfaces e couves.

Nas redes sociais, há quem repare na semelhança evidente entre algumas das peças que a estilista está a vender e os originais do artista luso, como é o caso da jornalista Rita Marrafa de Carvalho.

No Twitter, há ainda quem repare que, mais uma vez, os preços de Tory Burch são muito mais elevados do que os originais.

“As pessoas podem comprar o original aqui e muito mais barato“, aponta um utilizador da rede social incluindo o link da loja online da Bordallo Pinheiro.

Tory Burch foi considerada, em 2020, a 88.ª mulher mais poderosa do mundo pela revista Forbes.

  Susana Valente, ZAP //

6 Comments

  1. É impressionante! O português todos os dias é enganado, roubado e gozado por políticos corruptos que são os donos efetivos deste país e nunca vi ninguém a protestar a berrar a partir tudo para defender os seus direitos e mais importante o seu dinheiro o seu futuro e o futuros dos seus filhos e agora por causas de uma coisa que é censurável sem dúvida mas é um assunto microscópico perante a podridão e roubalheira em que se transformou este país e toda a gente se sente ofendida, roubada e insultada . Mas que povo mais estúpido este.

  2. Que rica oportunidade de lhe fazer distribuir parte da enorme fortuna pela martirizada gente da Povoa que tanto pescador tem perdido com a camisola vestida…

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