Três esqueletos africanos contam os horrores da escravatura

R. Barquera e N. Bernal / Collection of San José de los Naturales

Uma equipa de investigadores encontrou numa vala comum, no México, três esqueletos pertencentes a indivíduos africanos. Estes terão sido alguns dos primeiros africanos a serem realocados à força para o continente americano.

“Tendo em conta aquilo que sabemos, eles são os primeiros africanos de primeira geração geneticamente identificados nas Américas”, concluíram os investigadores de um novo estudo publicado, na semana passada, na revista científica Current Biology.

Os esqueletos foram encontrados perto de o lugar de um antigo hospital que remonta à era colonial da Nova Espanha, no século XVI. O hospital era usado principalmente para tratar povos indígenas.

A análise aos seus esqueletos revela alguns detalhes horrorosos da escravatura a que eram submetidos. Desde a migração forçada ao abuso físico e exposição a doenças infecciosas, estes três escravos africanos não eram casos únicos.

“Investigando a origem e a experiência da doença destes indivíduos através de métodos moleculares e avaliando o esqueleto relativamente a sinais de experiência de vida e afinidade cultural, elucidamos, em certa medida, a identidade, a cultura e a vida destas pessoas cuja história foi perdida em grande parte”, escreveram os autores do novo estudo, citados pelo Gizmodo.

Até 1779, entre 130 mil e 150 mil africanos foram escravizados para o vice-reinado de Nova Espanha. Entre estes, cerca de 70 mil chegaram a terras espanholas entre 1600 e 1640.

Os investigadores explicam que este aumento repentino no número de escravos a serem realocados está relacionado com a redução da força de trabalho indígena. Em causa estão as baixas nos vários conflitos durante a conquista europeia e as doenças que devastaram quase 90% da população nativa. Na altura, cria-se que os povos africanos tinha uma maior resistência a doenças como a varíola, o sarampo e a febre tifóide.

A análise aos esqueletos revelou que os escravos tinham sinais de hérnias nas vértebras, o que mostra que eles eram submetidos a abuso físico e trabalho manual intenso. Além disso, a sua dieta era nutricionalmente inadequada, o que levava a anemias, doenças infecciosas parasitárias e perda de sangue.

Foram encontradas cinco balas num dos esqueletos e noutro foram encontrados sinais de fraturas no crânio e nas pernas, o que mostra também que os escravos eram vítimas de violência extrema. No entanto, nenhum deles morreu devido a esses ferimentos.

“E como foram encontrados neste local de sepultamento em massa, estes indivíduos provavelmente morreram num dos primeiros eventos epidémicos na Cidade do México”, explicou Rodrigo Barquera, autor principal do estudo. “Podemos dizer que eles sobreviveram aos maus-tratos que receberam. A história deles é de dificuldade, mas também de força, porque, embora tenham sofrido muito, eles resistiram às mudanças que lhes foram impostas”.

ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Quantos milhões haverá por África que poderão muito bem descrever os horrores das guerras actuais que os africanos têm sofrido, temos agora no norte de Moçambique aldeias dizimadas com terrorismo de origem religioso, é caso mesmo para dizer que se virou o feitiço contra o feiticeiro, quem por lá governa sabe bem como se processa tais métodos, possivelmente nunca imaginariam de um dia virem a ser vítimas dos mesmos.

  2. Falta acrescentar que estes escravos já eram escravos na sua terra de origem, submetidos por outras tribos e etnias dominantes, que depois os vendiam / cediam aos europeus como parte do jogo político da época. Ou acham mesmo que os europeus, neste caso os espanhóis, iam assim numa barcaça pela costa apanhar escravos como quem apanha maçãs?

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